XXXIII Domingo do Tempo Comum: Lc 21,5-19 - O fim sem fim

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Estamos praticamente chegando ao final de mais um Ano Litúrgico. Um percurso pedagógico-espiritual que nos ajuda a mergulhar no mistério da vida, morte e ressurreição de Cristo, Alfa e Ômega, Princípio e Fim, mas, ao mesmo tempo, ilumina a nossa realidade humana, nas suas dimensões de finitude e eternidade. Portanto, o tema do fim não pode ser estranho ao ser humano, nem muito menos causa de terror e desespero; é uma realidade que não se pode negar. Contudo, na perspectiva cristã, todo fim deve expressar uma finalidade alcançada, e, portanto, marca um novo começo, que não significa um eterno retorno cíclico, mas passagem qualitativa para uma nova realidade que supera todo o vivido até então. 
A perícope evangélica deste XXXIII Domingo do Tempo Comum, penúltimo do ano litúrgico, apresenta um ensinamento de Jesus diante de uma compreensão errada em relação às realidades terrenas. Consciente do iminente fim da sua missão, e utilizando uma linguagem própria (apocalíptica), o Mestre adverte os seus discípulos sobre a missão que irão receber e à qual deverão permanecer fiéis: “É pela perseverança que mantereis vossas vidas”.


Diante da reação de admiração e encantamento de alguns frente à beleza do Templo, ornado de belas pedras e de ofertas votivas, Jesus declara que tudo é passageiro, “não ficará pedra sobre pedra”. Naquele mesmo contexto, encontramos um pouco antes o episódio da viúva que do pouco que possuía para viver, ofereceu tudo (Lc 21,1-4). Jesus, exaltando o gesto dessa pobre viúva, declara qual é a atitude mais coerente de quem entendeu a indiscutível verdade da vida, isto é, que tudo passa. Por outro lado, o evangelista evidencia o contraste entre o olhar de Jesus, que vê as pessoas e as suas atitudes, e o olhar alienado daqueles que só conseguem ver a superficialidade das coisas e, rapidamente, apegam-se à beleza efêmera do Templo, e não conseguem reconhecer o verdadeiro templo que é o coração desprendido de tudo, e que é capaz de ser espaço aberto, tornar-se morada de Deus, a qual não poderá ser destruída. Enquanto o espaço físico do Templo, suas ornamentações, sua beleza material, não existem mais, o gesto generoso da viúva, consciente da sua finitude terrena, não desapareceu, continua vivo, pois tornou-se Boa Notícia, evangelho.  


O anúncio profético de Jesus em relação à destruição do Templo historicamente se realizou por ocasião da invasão de Jerusalém por parte dos Romanos (70 d.C.). Quando os evangelhos foram escritos, esse terrível acontecimento estava muito presente na mente e no coração do povo, que buscava explicações não apenas nas causas históricas, mas uma compreensão à luz da fé. Diante das várias especulações do tempo, a comunidade cristã era interpelada a se posicionar e responder se aquilo que estava acontecendo era, de fato, anúncio do iminente fim do mundo. Era urgente fazer ressoar as palavras de Jesus: “Atenção para não serdes enganados...”. Relembrando essas palavras, os cristãos cresciam na convicção de que prever o fim do mundo não era a missão deles, pois esta também não foi a missão do Mestre. Porém, não viviam de forma ingênua negando as vicissitudes do tempo (guerras, catástrofes naturais, perseguições externas e internas), mas fortalecidos pela palavra e exemplo do Mestre não se deixavam enganar por propostas fáceis (abandonar o caminho) ou desencaminhar-se seguindo os “messias da hora” (salvadores da pátria oportunistas, fundamentalistas de plantão), que aproveitam de situações calamitosas para enganar as pessoas aflitas e tirar vantagens da sua fragilidade circunstancial.
Ainda que muitos acontecimentos provocadores de angústia, tristeza, sofrimentos e mortes não tenham uma explicação plausível, a comunidade cristã tem uma firme convicção fundamentada no ensinamento de Jesus: “Não vos atemorizeis; pois é preciso que primeiro aconteça isso, mas não será logo o fim”. Cabe à comunidade fazer o discernimento para não se deixar enganar (grego: planao, ser induzido ao erro, desencaminhar-se. Daí a palavra “planeta”; os antigos astrônomos chamavam de planetas corpos celestes que se movimentavam, isto é, errantes, porque os via deslocar-se no espaço sideral como se estivessem perdidos). Diante de intensos sofrimentos, abalos emocionais, o ser humano tende a perder o rumo, vagar sem direção. Contudo, os discípulos de Jesus não são planetas (errantes), mas devem ser bússola que ajuda a não perder o seu destino e, por isso, não temem a perseguição tanto religiosa (sinagogas) quanto política (reis e governadores), nem mesmo a traição dos seus mais próximos (pai, mãe, irmãos, parentes, amigos) por causa de sua fidelidade a Cristo. Não vagueiam ao sabor das ondas porque estão enraizados na certeza de que tais ocasiões são as molduras mais propícias para o autêntico testemunho: “Isso vos será ocasião de testemunho (grego: martiria)”.

 
A suficiente defesa diante dos adversários não dependerá da eloquência humana, mas da sabedoria da palavra de Deus que lhes foi dada e que eles cultivam nos seus corações: “Eu vos darei eloquência (grego: stoma, boca – símbolo da profecia) e sabedoria” (grego: sofia, conhecimento a partir da experiência).
A chegada do final do ano litúrgico se reverte em aurora de novo ano, com o tempo do advento, onde a esperança se renova com a vinda do Messias que nunca se ausenta, mas que sela a sua presença constante através do seu Mistério Pascal, onde o infinito toca o finito, e o fim torna-se sem fim.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana