XXX Domingo do Tempo Comum - Mc 10,46-52: Feliz o cego que quer ver

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Estamos nos aproximando do final do ano litúrgico (B), concluindo assim a leitura continuada de Marcos, que tem nos ajudado a responder duas perguntas fundamentais: Quem é Jesus? Quem é seu discípulo? Seguindo um itinerário simples, ao mesmo tempo profundo e de uma pedagogia muito objetiva, Marcos,  partindo do grande anúncio feito pelo próprio Senhor: “Completou-se o tempo, o Reino de Deus se aproxima, convertei-vos e crede no Evangelho” (III Domingo do Tempo Comum: Mc 1,14), inicia um longo percurso marcado por uma constante tensão entre a verdade sobre Jesus-Messias, manifestada por Ele mesmo através de seus ensinamentos, atitudes e milagres, e as incongruentes expectativas messiânicas dos vários grupos, inclusive a pouca clareza dos discípulos em relação ao seu Mestre. O evangelista traça um caminho de revelação, provocando inclusive uma crise naqueles, que embora estivessem seguindo o Mestre, ainda não sabiam quem Ele era. Daí a necessidade de conhecê-lo realmente, o que exige segui-lo até a cruz; caso contrário, não será possível ser seu discípulo (XXIV Domingo do Tempo Comum: Mc 8,27-37).

A iminência da morte de Jesus exige que os seus discípulos sejam instruídos de forma mais intensa e esclarecedora: “Não queria que ninguém soubesse, pois estava ensinando os seus discípulos” (XXV Domingo do Tempo Comum Mc 9,30-37). Contudo, será a cruz o momento do verdadeiro e decisivo discernimento. Mas enquanto não se chega lá, a confusão sobre a pessoa de Jesus e o que significa ser seu discípulo ainda perturbam o coração dos discípulos que, contaminados pelo mundanismo, estão preocupados com privilégios e recompensas: “Quem é o maior?” (XXVI-XXVII Domingos do Tempo Comum: Mc 10). Portanto, não há mais tempo, estamos às portas da Cidade Santa, é preciso ter clareza de quem é Jesus para ter a coragem de segui-lo ou a covardia de abandoná-lo: “Eis que estamos subindo para Jerusalém e o Filho do Homem será entregue… o condenarão à morte… e três dias depois ressuscitará”.  Encerra-se, deste modo, o longo caminho de Jesus rumo à Cidade Santa, onde tudo aquilo que Ele, por três vezes, anunciara (Mc 8,31; 9,31; 10,33), será cumprido: “Eis que estamos subindo para Jerusalém e o Filho do Homem será entregue… o condenarão à morte… e três dias depois ressuscitará” (XIX Domingo do Tempo Comum).


Contudo, mesmo explicitando a verdade sobre Si e a proposta radical para quem deseja segui-lo, os seus discípulos parecem ainda não ter progredido nesse caminho. Por isso, Marcos apresenta num tríptico, como síntese desse caminho, o apelo final de conversão. Por um lado, o encontro de Jesus com o homem rico (XXVIII Domingo do Tempo Comum: Mc 10,17-27) e o audacioso pedido dos filhos de Zebedeu (XXIX Domingo do Tempo Comum: Mc 10,35-45) denunciam, de forma dramática e um tanto frustrante, que a essas alturas, nem os de fora (homem rico) nem os de dentro (os discípulos) sabem, de fato, quem é Jesus e o que significa ser seu discípulo.

Por outro lado, o tríptico se conclui com a narração da cura do cego de Jericó (XXX Domingo do Tempo Comum), a última ação de Jesus antes de entrar em Jerusalém. Uma ação profética, apelo de conversão dirigido aos seus discípulos, os quais por causa da ambição dos primeiros lugares e das expectativas de recompensa, se tornaram cegos e, por conseguinte, estão impedidos de “ver” quem é Jesus e o seu caminho. As atitudes do cego indicam a inadiável tomada de decisão para poder continuar o caminho de seguimento de Jesus.

Destarte, evidencia-se que tanto as atitudes do homem rico, autorreferente e apegado, como as dos discípulos, ambiciosos e arrogantes, contrastam com aquelas do cego, que, por sua vez, indicam as disposições autênticas de quem quer seguir o Mestre, pois vê quem Ele é verdadeiramente.


Enquanto o homem rico e os discípulos colocam-se diante de Jesus com exigências e indisposições, o cego da beira do caminho só tem uma palavra a dizer: “Tem piedade de mim, Filho de Davi”, e uma atitude a assumir: “Deu um pulo e foi até Jesus… seguia-o pelo caminho”. Nada impõe a Jesus, nem mesmo o seu desejo de ser curado, pois deixa a Jesus a total liberdade de tomar a iniciativa: “Que queres eu te faça?”; enquanto o homem rico, na sua onipotência, pergunta o que ele mesmo deve fazer para garantir a recompensa, e os discípulos, em sua arrogância, impõe a Jesus o que Ele deve fazer-lhes: “Queremos que nos concedas o que vamos pedir”. Diante da resposta de Jesus, o rico entristece-se e vai embora, os discípulos não vão embora, mas caminham com medo e apavorados, enquanto que o cego, Bartimeu (filho do temor, da honra), não se deixou intimidar por aqueles que o repreendiam para que se calasse, mas gritava mais alto: “Filho de Davi…”; só o filho do autêntico “temor” pode reconhecer verdadeiramente quem é “o Filho de Davi”, o Messias sofredor, Jesus Nazareno, aquele que faz os cegos enxergarem, os surdos ouvirem e mudos falarem (ver Is 29,18). Só se aproxima do filho de Davi, que é capaz de se compadecer diante do necessitado, do pecador, do miserável, quem está aberto à experiência da misericórdia de Deus, pois é necessitado de tudo; coisa impossível para o rico que não precisava de nada nem do ponto de vista material (possuidor de muitos bens) nem do ponto de vista moral-religioso (“Tudo isso tenho observado desde a juventude”). Os discípulos, por sua vez, afirmam ter deixado tudo, mas a expectativa de recompensa (“E nós que deixamos tudo?”) denuncia a falta de radicalidade do mencionado desapego. O cego, contudo, ao ouvir que Jesus o chamava, levanta-se, joga fora o manto (grego: apo-balon:jogar para longe) e vai ao encontro de Jesus. Desapega-se de tudo o que tinha e poderia ter (o manto era o seu único bem e onde recolhia os bens que lhe davam para sobreviver, isto é, as esmolas). O rico, apesar de se ajoelhar aos pés de Jesus (grego: gonypetêsas: cair de joelhos), aparentemente atitude de piedade, não foi capaz de ser-lhe obediente (“Uma coisa te falta, vai, vende, e segue-me”). Mesmo enxergando, não foi capaz de ver que: “Jesus, fitando-o, o amou e disse…”. Os discípulos, que deveriam ser seguidores e imitadores do Mestre, sobretudo nas atitudes, insistentemente tentam passar à sua frente, e até mesmo querem ocupar o seu lugar, uma vez que só Ele é o maior, pois se fez o primeiro servidor de todos (“Quem quiser ser maior, seja o servidor de todos”). Por fim, eis a grande prova de que o cego curado é o modelo incontestável do autêntico discípulo: “Tua fé te curou”. Fé que o faz ver quem é Jesus, o Filho de Davi, aquele que tem compaixão, e o que significa ser seu discípulo, pela fé, ver antes mesmo de enxergar, para segui-lo pelo caminho, que o levará a Jerusalém.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana