XXX Domingo do Tempo Comum: Lc 18,9-14 - Oração: calar para Deus agir

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A parábola do XXIX Domingo do Tempo Comum (Lc 18,1-8: A viúva e o juiz injusto) ressaltava duas atitudes fundamentais na oração: fé e perseverança. Neste Domingo, Jesus continua o seu ensinamento sobre a oração e conta mais uma parábola: o fariseu e o publicano no templo. Agora o ensinamento do Mestre está direcionado àquelas pessoas que se consideravam exemplares na espiritualidade e na moral, mas se contradiziam nas suas atitudes de desprezo e condenação dos outros; deformavam a experiência religiosa com a sua falsa piedade e desqualificavam a lúcida moral com o seu rigorismo condenatório. 
Jesus apresentando esses dois personagens em franco contraste, denuncia a falsa oração e exalta a verdadeira atitude orante. A oração cristã, enraizada na Tradição bíblica e na experiência de Jesus, é caracterizada por uma atitude silenciosa que favorece a escuta do Deus que fala agindo. O próprio povo de Israel tem como solene convite à oração o tradicional Shemá (Dt 6,4: Escuta!). No evangelho não se diz aquilo que Jesus rezava nas suas orações, são raras as exceções. Porém são inúmeras as passagens onde se registram os momentos em que Ele passava em oração, retirado nas montanhas durante longas vigílias. 


Tanto o fariseu quanto o publicano sobem ao Templo para rezar. Ambos estão no mesmo lugar (templo), com a mesma finalidade (rezar), na mesma posição corporal (em pé). Porém, o conteúdo da oração de cada um indica a diferença fundamental que há entre eles. O fariseu faz da sua oração uma apresentação daquilo que ele pensa ser e daquilo que ele afirma fazer (sua autoimagem). O centro da sua oração é o seu “eu absolutizado” “De pé consigo mesmo rezava” (grego pros heauton: na direção de si mesmo); todas as suas afirmações redundam numa exaltação do próprio eu. Se a Lei prescrevia uma obrigação de um jejum anual (No dia da expiação: Yom Kippur, Lv 16; Ne 9,1), ele o fazia duas vezes por semana; se o pagamento do dízimo era exigido somente dos principais produtos (Dt 14,22-23), ele paga de tudo. Nele tudo é perfeito, não reconhece nenhuma falha, pois de nada necessita. Por incrível que pareça, esta oração é ateia, isto é, em nada demonstra crer em Deus, pois tudo está concentrado naquilo que ele faz, não reconhece a ação de Deus na sua vida, não testemunha nada que tenha recebido de Deus, não suplica nada a Deus. A oração é apenas o cenário forjado com a finalidade de aparecer e ser elogiado pelos outros. Deus está fora do seu horizonte, portanto, a fé não lhe faz falta. Se despreza o semelhante é porque não teme a Deus. Este fariseu é um ateu fantasiado de religioso.   


Por outro lado, o publicano, de cabeça baixa, batendo no peito, reconhece o que ele é e do que ele necessita, por isso só consegue dizer uma coisa: “Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!” 
Enquanto o fariseu se define por um “não sou” (como os outros homens), o publicano reafirma o que ele é: “sou um pecador”. Enquanto o fariseu se exalta porque realiza tudo conforme a Lei, inclusive mais do que o prescrito e exigido, o publicano reconhece que só Deus pode fazer aquilo que é o mais importante: “Ter piedade”. Enquanto o fariseu ora com palavras presunçosas, o publicano bate no peito, sinal de profunda dor diante da consciência dos pecados, expressando arrependimento. As batidas no peito ressoam fortemente no seu coração, o lugar das mais importantes decisões, não apenas dos afetos; lugar da ação de Deus que transforma o coração de pedra, insensível, num coração de carne, símbolo da Nova Aliança.
A parábola conclui-se com a declaração de Jesus: “Digo-vos este (publicano) desceu para sua casa justificado, ao invés daquele (fariseu), porque todo aquele que se exalta a si mesmo será humilhado, mas aquele que se humilha a si mesmo será exaltado”. Aqui encontramos um conceito bíblico-teológico fundamental: a justificação. Em poucas palavras, a justificação é a ação de Deus em nós tendo em vista a nossa salvação e, portanto, não deve ser pensada como um agir nosso a fim de nos tornar justos diante de Deus, o que garantiria a salvação. O fariseu se pensava justo por causa daquilo que fazia, consequentemente não havia lugar para Deus agir na sua vida, a sua fé não era transcendente, mas autossuficiência presunçosa de quem acredita poder se salvar por suas próprias forças. A sua oração não era abertura para Deus, mas expressão de que de Deus não precisava para nada. Por outro lado, o publicano, reconhecendo-se com humildade que era pecador, miserável, abriu-se à ação misericordiosa de Deus. Se para o fariseu Deus não tinha nada a fazer; para o publicano, Deus era o único que poderia fazer tudo por ele. A oração do publicano era absoluta abertura para Deus agir.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana