XXVIII Domingo do Tempo Comum: Lc 17,11-19 - Gratidão: sinal de conversão

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Os dez leprosos, que Jesus encontra à entrada do povoado, têm em comum duas situações existenciais: a doença e a cura. A doença os torna solidários, pois a desventura, a dor, o sofrimento, não distinguem cor, raça, condição social ou econômica e, nem mesmo, convicção religiosa. Situações-limite sempre levam as pessoas, na luta pela sobrevivência, a uma superação de preconceitos ou, ao menos, as tornam mais receptivas na aceitação de uma simples presença que alivie a sua dor. Se entre eles havia um samaritano, certamente os demais eram judeus ou provenientes das outras regiões. Caso fossem pessoas sadias, por causa de seus preconceitos raciais, certamente nunca se permitiriam estar tão próximas. Contudo, formavam um grupo unitário de dez homens, que padeciam de duas grandes e dilacerantes dores.
No corpo físico, assistiam impotentemente à destruição dos seus nervos, cujo sinal era visto na sua pele carcomida pela lepra, ou nos membros do seu corpo esmigalhados pelas consequências da doença; sem contar a humilhação do mal cheiro que exalavam, assemelhando-se aos cadáveres de animais mortos ao longo da estrada. No corpo social, suportavam a dor da marginalização, pois como membros decepados de suas famílias, de suas comunidades religiosas e de seus agrupamentos sociais, por causa da ignorância e do preconceito, deveriam viver isolados dos “sãos”.


A situação existencial desse grupo não se diferencia muito da realidade do ser humano da nossa sociedade. Não são poucas as pessoas que estão marcadas profundamente pelas lepras atuais, causadas conscientemente sobretudo pelas potentes ideologias que produzem inúmeras levas de agrupamentos humanos que compartilham da mesma dor, isto é, a privação das mínimas condições de dignidade de vida (refugiados, ignorantes políticos manipulados por falsos líderes ou enfeitiçados por seus discursos demagógicos, adolescentes e jovens escravizados pelos modismos impostos por poderosos grupos econômicos etc.). 
O encontro com Jesus é decisivo para o início de um caminho de cura e salvação para todos os leprosos (de ontem e de hoje). Numa sociedade de doentes, certamente muitos desejam a cura, mas nem sempre reconhecem que necessitam de algo a mais, isto é, a plenitude de vida, a salvação. 


A primeira atitude para alcançar a cura e a salvação é a obediência à Palavra de Jesus. Uma obediência que manifesta abertura, humildade, confiança e fé. Os leprosos gritam por compaixão, e Jesus responde com um mandato: “Ide mostrai-vos aos sacerdotes”; antes mesmo de curá-los, o Senhor os desafia a crer na sua palavra. Dando o passo da fé, receberam a cura, mas isso não era tudo, pois o caminho completo não se faz apenas com alguns passos. Há tantas pessoas que suplicam ao Senhor por uma cura, e quando a alcançam, voltam para suas casas contentes, mas não estão dispostas a continuar a estrada. Encontraram a resolução de um problema na vida, mas não encontram a vida plena, pois contentam-se apenas com o mínimo. 
Só o samaritano conseguiu mais do que uma cura, ele encontrou o caminho da plenitude de vida porque foi capaz de assumir duas outras atitudes. Curado, ele voltou para Jesus com a disposição de discípulo, que prosta-se aos pés do Mestre para ouvir o que ele ainda tinha a dizer (grego: hypéstrepsen, é um verbo composto de duas palavras significativas: voltar para os pés). O verbo “voltar”, tanto no grego (strefo) quanto no hebraico (shuv), é usado para indicar conversão, mudança de rumo. Portanto, o samaritano leproso não apenas foi purificado no corpo, mas empreendeu um verdadeiro itinerário de mudança de vida. Nem sempre as pessoas que alcançam curas se convertem verdadeiramente, tornam-se discípulas. 


A outra atitude fundamental daquele que voltou foi a gratidão: “Retornou em alta voz dando glória a Deus”. O seu reconhecimento diante do bem recebido tornou-se anúncio público, ao longo do seu caminho; assim como os anjos de Belém que cantavam glória a Deus por ocasião do nascimento de Jesus, agora o leproso curado dá glória a Deus pois reconhece ter nascido de novo, tinha recuperado a vida, o convívio, a dignidade. Sua gratidão alcança o ponto mais alto quando “caiu sobre o rosto aos pés de Jesus agradecendo” (Lucas usa o verbo eucharisto, mesma raiz de eucaristia, agradecer, ação de graças). Esse mesmo gesto de gratidão fará Jesus ao Pai no momento em que ele, na última ceia, anunciará a sua morte e ressurreição (cf. Lc 22,19). A celebração da Eucaristia não é apenas momento de cura e libertação, mas é anúncio e atualização da Salvação realizada por Jesus.
Se o primeiro mandato de Jesus aos leprosos garantiu-lhes a cura, o segundo àquele único que voltou (converteu-se), assegura-lhe a salvação: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”. Na primeira vez, os leprosos se levantaram com a esperança da cura; na segunda, o único que voltou, levantou-se com a garantia da salvação. Esse não foi apenas purificado de uma doença, mas mergulhado na plenitude da vida. Assim como ele anunciou o benefício da cura recebida, glorificando a Deus no caminho, Jesus o declara ressuscitado para uma vida nova (“Levanta-te”, grego avastàs, do verbo avaistemi traduzido por levantar, ressuscitar). O leproso curado nos ensina que gratidão não é pagamento de um bem recebido, mas reconhecimento e testemunho de um bem que nos foi dado, isto é, a salvação. Se a fé nos ajuda a reconhecer tão grande bem, irresistivelmente só haverá um modo de agradecer: converter-se.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana