XXV Domingo do Tempo Comum: Lc 16,1-13 - A vida: administrá-la ou desperdiçá-la?

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A parábola que meditamos neste XXV Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de um importante questionamento no que diz respeito à compreensão que temos da nossa vida e, obviamente, as consequências práticas de tal compreensão. A própria experiência humana comprova que não somos senhores absolutos de nada, nem dos bens que adquirimos ou recebemos, nem mesmo de um segundo da nossa vida. Ainda que alguns tenham a ilusão de se pensarem donos da sua vida, esta pode escapar-lhes de forma inesperada; nenhum recurso humano ou material pode garantir ao ser humano poder e controle absolutos de sua existência. Contudo, não somos meros seres viventes, desprovidos de autonomia ou responsabilidade diante da vida, pois esta nos foi dada para ser administrada com inteligência e responsabilidade, e não simplesmente desperdiçada por astúcia e negligência. 
Jesus inicia o seu ensinamento falando de uma situação de incoerência: “Um administrador que foi denunciado por estar dissipando os bens do seu senhor”.  Administrador é a tradução da palavra ecônomo (grego oikonomos: cuidador das coisas da casa, dos bens da família ou de um grupo); é, antes de tudo, um fiel servidor do seu senhor de quem recebeu não apenas uma grande responsabilidade diante de coisas materiais, mas uma grande confiança para cuidar dos seus bens, dos quais poderia usufruir com responsabilidade e lealdade.
Mais do que produzir um prejuízo material, a má administração faz perder uma das coisas mais preciosas que pode haver no relacionamento entre as pessoas, a confiança. Por isso, o patrão afirma: “Já não podes mais ser administrador”. Perde-se a confiança quando age-se com deslealdade e arrogância. O administrador desonesto acredita que, ao ser encarregado do cuidado dos bens do seu senhor, ele se tornou o dono daquilo que administrava e, portanto, podia fazer o que bem queria. A sua arrogância o faz crer que a ninguém deverá prestar contas, já que goza do prestígio da confiança do seu patrão. Apesar de ter sido considerado digno para tal tarefa, foi tomado de um orgulho e presunção que o fizeram infiel, incapaz e incompetente. Caiu no erro de pensar que grande responsabilidade é o mesmo que privilégio absoluto.


O seu modo de refletir: “O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha”, revela as duas causas fundamentais da sua má administração. A saída que ele pretende achar diante da perda da administração está em sintonia com a sua vida até então sustentada pela preguiça (não ter forças para trabalhar) e pelo orgulho (ter vergonha de mendigar). As principais misérias materiais são geralmente consequências de misérias morais e espirituais. Sendo preguiçoso e orgulhoso, procura os caminhos mais fáceis para lucrar. Ao corrigir a anotação da dívida do óleo (de 100 para 50) e do trigo (de 100 para 80), demonstra a sua irresponsabilidade diante dos bens do seu patrão, pois nem ele mesmo sabia o que administrava, uma vez que são os devedores que lhe informam quanto devem. 
Por outro lado, o fato de mandar escrever na nota uma redução de 50% para o óleo e quase 40% para o trigo, não significa que, com este reajuste, ele estivesse dando mais um prejuízo ao patrão, mas, na verdade, estava renunciando àquilo que arbitrariamente tinha estabelecido como o seu ganho.  
Tal atitude revela uma esperteza, por isso o seu patrão o elogia. Contudo, vale salientar, que o administrador desonesto não foi elogiado por ter agido irresponsavelmente desperdiçando os bens do patrão, mas porque soube administrar com astúcia os seus próprios bens (o lucro), renunciando-o em benefícios dos devedores, atraiu para si a simpatia deles, e garantiu num futuro, uma retribuição.


Jesus através dessa parábola adverte aos seus discípulos de todos os tempos qual é a atitude fundamental do verdadeiro administrador dos bens do Pai: fidelidade operosa, vencendo a tendência acomodada de querer apenas usufruir dos bens sem o cuidado devido, isto leva consequentemente à perda da administração. Os bens materiais em comparação com a vida plena serão sempre pouca coisa. Portanto, saber administrar esse pouco com fidelidade e humildade é um necessário aprendizado para poder ser encarregado de bens maiores. Quando usamos, com inteligência do alto, os bens que passam, certamente estaremos nos preparando bem para abraçar os que não passam. Por outro lado, o Senhor nos provoca a assumir atitudes inteligentes (na tradição bíblica a inteligência é o conhecimento profundo, fruto da experiência pessoal e coletiva que estabelece critérios de julgamento e de ação), não apenas comportamentos pseudo-piedosos, fruto de ingenuidade e desatenção diante da vida. É verdade que não somos do mundo, mas estamos no mundo. E neste campo real, com seus desafios e contradições, somos chamados à administração, pois “os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”. O Papa Francisco denuncia na sua exortação Evangelii Gaudium (n. 76-77) as graves tentações dos agentes pastorais, e entre elas se encontra justamente a acídia egoísta, mais do que uma preguiça e um comodismo, é um descompromisso interior com a vida, e, naturalmente uma apatia diante dos bens espirituais. Os filhos “deste século” (grego: hoi hioi tou aiwnos) se diferenciam dos filhos da luz, porque estão mais atentos aos seus negócios. Contudo, têm uma visão reducionista da vida, pois são “filhos deste século”, ou seja, no seu horizonte se encontram apenas os bens materiais dos quais se apossam como senhores, por isso têm pouco e, por não conseguirem enxergar os bens maiores, se revelam infiéis até mesmo nesse pouco que usurpam. Por outro lado, os filhos da luz, mesmo sendo iluminados e enxergarem para além do horizonte puramente humano, não podem isentar-se da sua missão de iluminar o mundo, de denunciar a inversão dos valores, de contestar a escravidão do dinheiro que faz da vida uma mera mercadoria com fins lucrativos em detrimento do maior bem que ela é, pois é um dom de Deus a ser administrado e não simplesmente uma coisa a ser desperdiçada.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana