XXIII Domingo Tempo Comum: Mt 18,15-20 - Só quem ama consegue corrigir

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Jesus prometeu, diante da profissão de fé de Simão Pedro, que sobre essa fé iria edificar a sua Igreja (XXI Domingo do Tempo Comum). O verbo grego oikodomeo (edificar) significa literalmente construir (domeo) uma casa (oikos). Pode ser aplicado no sentido concreto de edificação de um prédio, mas também figurativamente em relação ao crescimento humano-espiritual de alguém. A tradução grega (LXX) utilizou esse verbo para falar da ação de Deus ao criar Eva, tirando-a do lado de Adão (grego: “kai okodomesev kupios... Eva” e edificou o Senhor ... Eva, Gn 2,22 LXX). 
Enquanto Jesus afirma que vai edificar, ao ouvir o anúncio da morte e ressurreição do Senhor, Pedro tenta convencê-lo de não tomar o caminho da cruz (XXII Domingo do Tempo Comum), o que seria ironicamente o desmoronamento da Igreja. Portanto, o Mestre não hesita em dar o primeiro passo na edificação da sua Igreja, isto é, corrige energicamente Pedro, ordenando-lhe ir para trás para ser seu verdadeiro discípulo, isto é, seguidor do Messias sofredor. 
O evangelho de hoje nos apresenta o caminho mais eficaz para garantir a edificação da Igreja, pois sem a correção fraterna não pode haver verdadeiro crescimento de seus membros. O ser humano está em constante processo de edificação. Quem se pensa completo, acabado, torna-se presa fácil da sua própria ilusão e arrogância, e não será capaz de viver na humildade a sua condição de discípulo necessitado de ajuda para aprender a viver. O discípulo assume a correção fraterna não como instrumento de humilhação ou cerceamento de sua liberdade, mas como expressão de uma comunidade que o ama e, por isso corrige-o, pois quer vê-lo crescer.


Jesus evidencia a necessidade de corrigir o irmão quando ele não acerta o alvo (grego: hamartano, pecar, errar o alvo), ou seja, quando o irmão se perde, portanto, afasta-se do caminho da vida e envereda pelas sendas das trevas. Tanto que o verbo corrigir em grego significa “trazer à luz” (elencho), diferentemente de acusação agressiva ou condenação peremptória.
Ademais, a correção fraterna não significa exigir que o outro atenda às minhas exigências, mas é um processo de reconduzir à luz (Cristo), por isso não começa com a humilhação do outro, tornando público o seu pecado. Mas, pelo contrário, o primeiro passo é manifestar-lhe amor, isto é, a correção discreta, pois o principal objetivo não é evidenciar quem corrige, mas recuperar aquele que errou: “Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão” (no grego: kerdaino, ganhar significa recuperar para Deus), diferentemente de ganhar do teu irmão, pois a correção fraterna não é mostrar quem é o certo e o errado. 
Contudo, nem sempre a correção fraterna alcança o seu objetivo na primeira tentativa, pois somos resistentes, orgulhosos, daí a necessidade da comunidade que ama não desistir do irmão desencaminhado. Buscar a correção fraterna no passo seguinte, com duas ou três pessoas, não significa garantir pressão psicológica de um complô contra um, mas é buscar testemunhas que demonstrem quão importante é aquele irmão que precisa se corrigir; ir ao seu encontro com mais alguém é dizer-lhe que o seu erro não é questão pessoal, mas um dano para todos os irmãos. Porém, Jesus não nos ilude, e propõe o terceiro passo, o apelo extremo de quem ama, uma atitude pedagógica aparentemente dura, mas necessária: levá-lo à assembleia (a Igreja) a fim de que reconheça a sua pertença a uma família que o quer bem e, por isso, não desiste dele. Porém, se mesmo assim preferir as trevas à luz (a correção), é preciso respeitá-lo na sua escolha, quem sabe passando pela escuridão total sinta necessidade de luz e retome o caminho da comunidade. Tratá-lo como um pagão ou pecador público não é uma sentença impiedosa da Igreja, mas um reconhecimento daquilo que o próprio irmão fechado à correção escolheu. 


A consciência da sua responsabilidade faz da Igreja uma mãe que acolhe a todos porque ama os seus filhos, mas, também, que deseja vê-los crescer, por isso não hesita em corrigi-los fraternalmente. Pois não o faz por capricho ou arrogância, mas porque reconhece o dom precioso da vida que nos foi dado por Deus para crescer aqui na terra e alcançar plenitude no céu. 
Por fim, Jesus assegura a sua presença entre os seus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Aqui está a razão que motiva todo esforço de correção fraterna, isto é, estabelecer comunhão para ter a certeza de que Ele está no meio de nós. Não corrigimos o irmão para fazê-lo à nossa imagem e semelhança, mas para que vivendo na comunhão com os demais, faça a experiência do encontro com o Senhor que por amor nos chama à luz, e quando se faz necessário nos corrige, pois quer que tenhamos vida em plenitude.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana