XVII Domingo Tempo Comum: Mt 13,44-52 - Tesouro é sempre tesouro

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Nesses domingos a liturgia tem apresentado a leitura sequenciada de uma coleção de sete parábolas reunidas em Mateus 13; todas elas apresentam o tema do Reino dos Céus. Hoje temos o coroamento com as três finais que mostram como o Reino é encontrado (tesouro), como o Reino é buscado (pérola) e como o Reino é discernido (rede). Elas aparecem depois da parábola do joio, do grão de mostarda e do fermento, que já indicavam que o Reino cresce silenciosamente, mas exige paciência e discernimento. O Reino dos Céus não é uma ideia abstrata, mas uma experiência concreta que transforma a vida quando acolhida com verdade. 
O tesouro retrata o maravilhar-se diante do dom; na verdade, o Reino começa sempre com um encontro inesperado. O homem que acha o tesouro não estava procurando nada; simplesmente tropeça no dom. Assim também acontece conosco: Deus se revela na surpresa, no detalhe, naquilo que não controlamos. A alegria inicial, que faz o coração vibrar, é o sinal de que o dom é real. Sem essa reação espontânea e real de admiração não há caminho espiritual; há apenas rotina religiosa. Na Palestina do século I, esconder bens no campo era comum em tempos de guerra. Quem encontrava um tesouro podia adquiri-lo legitimamente comprando o terreno; por isso as ações do homem: não está procurando nada, tropeça no tesouro, reconhece o valor, vende tudo para adquirir o campo. Desse movimento se depreende que o Reino é dom gratuito, encontrado muitas vezes sem planejamento, e que a alegria é o primeiro sinal da presença de Deus: “cheio de alegria, ele vai…”. O gesto de vender tudo indica decisão radical, pois o Reino exige prioridade absoluta. Na perspectiva sapiencial, o tesouro remete à sabedoria divina: “A sabedoria é um tesouro inesgotável” (Sb 7,14), e ao chamado de Deus que surpreende: “Fui encontrado por quem não me procurava” (Is 65,1).
A busca de pérolas, por sua vez, ressalta a necessidade de desinstalar-se para ir à procura, exige movimento. Aqui não há acaso, mas busca, esforço, saída de si. O Reino não se encontra apenas como dom, mas também é consequência de quem se levanta e procura. É o passo da maturidade espiritual: abandonar o que é pequeno para alcançar o que é maior. Quem não se desinstala, quem não se arrisca, permanece preso ao “bom o suficiente” e nunca chega ao “plenamente novo”.  No tempo de Jesus os mercadores de pérolas eram profissionais especializados, viajando longas distâncias para encontrar peças raras. Também vemos atitudes fundamentais nesse homem: sua busca é intencional, sabe o que procura, e, por isso, reconhece a pérola única; para adquiri-la, vende tudo. 
Essa parábola complementa a anterior porque acrescenta um aspecto novo, isto é, o Reino não é apenas dom, é também meta a ser alcançada. Do ponto de vista teológico, a pérola simboliza a sabedoria adquirida pela maturidade espiritual, e o mercador representa quem já percorreu caminhos, já avaliou valores, e agora sabe distinguir o essencial: a sabedoria que é “Mais preciosa que pérolas” (Pr 3,15). 
Por fim, temos a rede lançada ao mar que é símbolo do empenho a fim de discernir; discernir para fazer crescer o dom e os bens adquiridos. A rede cheia de peixes é a imagem da vida real: misturada, complexa, com luzes e sombras. O Reino não elimina a ambiguidade; ele nos dá sabedoria para separar o que é vital do que é peso, o que é promessa do que é ilusão. Discernir é proteger o dom recebido, é cultivar o que Deus plantou, é não desperdiçar o que foi conquistado com esforço. A pesca com rede de arrasto recolhe peixes bons e ruins. A seleção acontece depois, na praia. A rede recolhe “peixes de toda espécie”, os pescadores separam o que serve do que não serve. Jesus aplica essa imagem ao juízo final. A parábola apresenta a verdade do Reino que acolhe a realidade humana como ela é: misturada, imperfeita. Temos aqui uma referência direta à missão da Igreja, que vive entre o já e o ainda não. No início do evangelho Jesus já tinha feito esse anúncio: “Farei de vós pescadores de homens” (Mt 4,19). 
Em síntese, o Reino dos Céus acontece quando o coração se maravilha, os pés se movem, e a mente discerne. É um caminho longo que envolve todo o ser humano nos seus mais variados aspectos (afetivo, existencial e espiritual); só quem percorre esses três passos experimenta a alegria plena prometida no evangelho. 
Mateus constrói uma pedagogia espiritual a partir dessas três parábolas para dizer que o tesouro (o dom que surpreende) aponta para a iniciativa de Deus, isto é, o Reino começa com graça; a pérola (a busca que amadurece) evidencia a responsabilidade humana diante do dom, exige resposta, decisão e prioridade; a rede (o discernimento que purifica) revela que a vida se torna campo de escolhas. O Reino exige sabedoria e perseverança. Daí podemos tirar as implicações espirituais para hoje, isso é, maravilhar-se: reconhecer que Deus já está agindo, mesmo onde não esperávamos; desinstalar-se: mover-se, buscar, abandonar o que impede o Reino; discernir: separar o essencial do secundário, o que edifica do que destrói. Essas três atitudes formam o caminho da alegria plena, que não é emoção passageira, mas fruto de uma vida orientada pelo Reino.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana