Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Iniciamos neste domingo a leitura do capítulo 13 de São Mateus, uma coletânea de parábolas, cujo objetivo é fazer refletir sobre as características fundamentais do Reino dos Céus. O evangelista reúne essas parábolas a fim de condensar o ensinamento de Jesus sobre o tema central da sua pregação. A parábola do semeador abre essa sequência, Jesus revela o coração humano e como o Reino se implanta apesar das resistências. Os diversos terrenos não indicam apenas tipos isolados de pessoas, mas movimentos interiores que todos nós podemos viver nas várias fases da vida. Em primeiro lugar, Jesus apresenta três tipos de resistência para a implantação do Reino a partir do anúncio da Palavra. Antes de tudo, chama atenção o fato de o semeador lançar suas sementes de forma aleatória, aparentemente sem diligência, ferindo a lógica de um experiente agricultor que deve conhecer bem a terra e as suas condições, para evitar desperdício. Contudo, o semeador dá entender que não está preocupado de antemão com o resultado, mas com a finalidade da sua missão: “saiu para semear”. Assim, Jesus descreve a ação generosa do semeador e a diversidade dos terrenos; o foco é a liberdade humana e a paciência de Deus.Os três primeiros locais da semeadura representam situações desfavoráveis, são as resistências do coração de quem escuta a palavra. As sementes caídas à beira do caminho, comidas pelos pássaros, segundo muitos autores da patrística, representam os ouvintes distraídos, e os pássaros são os demônios e pensamentos mundanos que arrebatam a Palavra antes que ela penetre, porque o coração não está preparado para recebê-la. Temos aqui uma oposição explícita, pois é nesse caminho onde o inimigo rouba a semente. É a resistência consciente, pois a pessoa escuta, mas não quer acolher, fecha-se por medo da conversão, pois nela vence o apego ao próprio modo de viver. O Reino ameaça estruturas internas e externas, e por isso é combatido. Reforça essa ideia de inconstância, as sementes caídas entre os espinhos que as sufocam. É o coração dividido; a Palavra até germina, mas é sufocada por preocupações, seduções, prioridades concorrentes. Não é tanto uma atitude moral de rejeição, mas uma dispersão. A pessoa quer Deus, mas quer muitas outras coisas ao mesmo tempo.Esses três obstáculos revelam que o problema não está na semente, mas no coração.As sementes no terreno pedregoso representam a fé que começa com entusiasmo, mas não cria raiz. Alguém pode até simpatizar com Jesus e admirar o seu ensinamento, mas não se deixa transformar por Ele. Aqui o obstáculo é a falta de profundidade: a Palavra não encontra espaço para descer ao coração.Por outro lado, Mateus faz questão de mostrar que nem todos permanecem na superfície. A quarta situação, as sementes em terra boa, representa quem decide aproximar-se de Jesus, fazer perguntas, buscar sentido. Esses são os discípulos, não porque entendem tudo, mas porque querem compreender. A diferença entre a multidão e o discípulo é simples: a multidão escuta, o discípulo escuta e pergunta. O questionamento dos discípulos (13,10-17) é decisivo: eles querem entender por que Jesus fala em parábolas. E Jesus responde que compreender o Reino não é questão de inteligência, mas de disposição interior, de acolhimento que faz ver e ouvir. Jesus revela que a compreensão do Reino depende da abertura do coração. Quem acolhe a Palavra recebe mais; quem a rejeita perde até o pouco que tem. É uma pedagogia espiritual: a prática abre a inteligência da fé.A citação de Is 6,9 (“Ouvireis, e não entendereis; olhareis, e não vereis”) vai mais na linha de uma constatação do que tem acontecido diante do ensinamento de Jesus, e não uma simples profecia que anuncia o que vai acontecer como se fosse essa a sua finalidade; isso seria contraditório, isto é, um ensinamento que se reveste de uma didática por natureza incompreensível. A conclusão desse ensinamento de Jesus se dá com a transformação da parábola contada no início, em alegoria que interpreta cada terreno como uma atitude interior. Por conseguinte, a parábola torna-se espelho: cada um pode reconhecer onde está. E, ao mesmo tempo, lança-se um desafio diante da possibilidade de tornar-se terra boa.Quando Jesus explica cada terreno, Ele desloca o foco da agricultura para o coração humano. A parábola deixa de ser apenas narrativa e se torna diagnóstico espiritual. Em síntese: a beira do caminho é o coração distraído, endurecido; solo pedregoso é o entusiasmo superficial; entre espinhos é o coração dividido pelas preocupações; por fim, a terra boa é o coração disponível, profundo, perseverante. Podemos assim, reconhecer-nos, e aceitar o desafio de nos tornarmos terra boa à medida que empreendemos um caminho de conversão, um processo espiritual a fim de acolher a Palavra com profundidade, remover pedras (superficialidade), arrancar espinhos (preocupações, paixões), proteger o coração da dispersão, e perseverar no tempo. Na verdade, a parábola é um convite à responsabilidade diante da generosidade da semeadura de Deus; o fruto depende da liberdade humana e da disposição interior de cada um. Não podemos prescindir de uma verdade fundamental da parábola: ela não apresenta uma condenação, mas tem força de revelação; não acusa, mas convoca. Para além de muitas possibilidades de meditação, essa parábola nos ajuda a fazer um confronto, um exame de consciência e de coração.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
