XIX Domingo Tempo Comum: Mt 14,22-33 . Vem a mim para descobrires quem és!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Mais uma vez estamos diante de uma cena que evidencia o objetivo fundamental do evangelho, isto é, responder a pergunta: quem é Jesus? Contudo, não precisava lembrar, aqui não se trata de uma resposta teórica ou de especulações racionais. Somente fazendo a experiência do encontro com Ele é que poderemos saber quem Ele é; eis a condição indispensável para amá-lo a ponto de deixar tudo e segui-lo, a fim de partilhar de sua missão e destino. Para responder teoricamente essa pergunta, bastaria o versículo 33: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus”. Porém, não é suficiente fazer rápidas afirmações de simpatizantes; indispensável se torna a convicção da fé, caso contrário, naufragaremos entusiasmados, mas não teremos fé suficiente para atravessar o mar encapelado. 
O evangelista, ao traçar o itinerário para o conhecimento da pessoa de Jesus, também revela quem se aproxima do Mestre; evidenciando atitudes, pretensões, expectativas, misérias e virtudes daquele que está na experiência dinâmica de tornar-se discípulo. Estabelece-se assim um profundo e inter-relacionado paralelo de revelação tanto da pessoa de Jesus quanto dos seus discípulos. 


Depois da multiplicação dos pães e tendo despedido as multidões, Jesus realiza duas ações intrinsicamente relacionadas: primeiro, obriga (grego: anagkádzo, obrigar, forçar, exige obediência absoluta) os discípulos a entrarem na barca (literalmente: subir; grego: em-baino) e, depois, Ele mesmo sobe (grego: ana-baino) o monte. Duas subidas que se tornam reveladoras e preparam a terceira subida como síntese dessa revelação, quando Jesus sobe sobre as águas caminhando, fazendo assim recordar a teofania do Antigo Testamento como diz o salmo “Quando as águas, ó Senhor, vos avistaram, elas tremeram e os abismos se agitaram e as nuvens derramaram suas águas, a tempestade fez ouvir a sua voz, por todo lado se espalharam vossas flechas” (77,17-18).
Muito belo o díptico apresentado por Mateus: os discípulos na barca atravessando o mar revolto (retrata a missão da Igreja), e Jesus no monte orando (intercessão para que discípulos não sucumbam), pois a barca agitada pelo vento (grego: basnidzo, torturada, atormentada) não só exige uma permanente luta dos discípulos para que não afunde, mas também o sustento divino. Um paralelo evidente entre Jesus e Moisés cuja intercessão no cimo da montanha alcançou a vitória de Israel contra os amalecitas (cf. Ex 17,8-16). A luta dos discípulos na barca coincide com a permanência de Jesus no monte em oração; ao descer vem ao encontro deles andando sobre as águas manifestando assim que Ele é o Senhor que tem poder e domínio sobre tudo, inclusive sobre o mar, que nas grandes mitologias universais é símbolo das forças ameaçadoras, do mal e da morte.
Os discípulos ao verem-no andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: É um fantasma”. No grupo havia pescadores, mas mesmo sendo homens conhecedores do mar e de suas vicissitudes não conseguiram acalmar os demais, e todos foram tomados de pavor, sintoma da falta de fé e de bom senso. Assim como Moisés que diante do fenômeno extraordinário da sarça ardente que não se consumia não podia entender o que era aquilo a não ser se aproximando, assim também os discípulos não puderam compreender o que era aquele fato extraordinário: alguém caminhando sobre as águas. Portanto, é Jesus a tirar toda ambiguidade da visão. Tanto para Moisés quanto para os discípulos, a revelação daquela realidade se dá pela proclamação da identidade de Deus: “SOU EU” (cf. Ex 3,14). Pedro ao ouvir Jesus reage e pede uma confirmação. O pedido de Pedro evidencia o que dissemos acima: ao aproximar-se do Deus que se revela, revela-se também quem é o discípulo em todos os seus aspectos. Pedro introduz seu pedido com a mesma expressão do Satanás no início do evangelho: “Se és...” (cf. Mt 4,3.5). Tanto o tentador como Pedro querem que Jesus prove a sua identidade divina (Filho de Deus, Eu Sou) obedecendo a eles (“Transforma essas pedras... Manda-me ir caminhando sobre as águas"). O pedido de Pedro não significa apenas ter a certeza de que é Jesus, mas a presunção de torna-se divino. Só Deus tem o poder de andar sobre as águas (vencer o mal), salvar o ser humano. Querer caminhar sobre as águas é querer ser igual a Jesus, e, portanto, sendo deus, Pedro não precisa de salvação. Pedro assume o papel dos nossos primeiros pais cedendo à tentação da Serpente: “vós sereis como deuses”. Assim como essa presunção levou Adão e Eva a desobedecerem a Palavra de Deus, esse pedido de Pedro também é uma desobediência à ordem de Jesus que os obrigou entrar na barca. Sair da barca é sinal de autossuficiência, arrogar-se o direito de ser divino. 


Mas por que Jesus permite? Não podemos exaurir o mistério da vontade divina, mas pelas consequências podemos reconhecer o famoso pensamento de Santo Afonso Maria de Ligório: “Deus não permitiria o mal se não pudesse tirar desse mal um bem infinitamente maior”. Assim como nossos pais não foram abandonados depois da desobediência, Pedro também não foi rejeitado por Jesus quando começou a afundar. Mas foi-lhe permitido fazer a grande experiência do ser humano que, mesmo tentado a querer ser Deus, reconhece seu pecado e grita: “Senhor, salva-me!” A salvação não é para quem se pensa deus, mas a salvação é para o ser humano que crê em Deus. Reconduzido à barca, sendo levado por Jesus, Pedro deu o grande passo não apenas no conhecimento da pessoa de Jesus, mas de si mesmo. A luta na barca contra os ventos contrários (presunção, falta de fé, arrogância etc.) chega ao seu ponto mais alto, isto é, a vitória de Jesus: “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou”, vale salientar que a expressão grega traduzida por “se acalmou” é o “vento cansou” (kopádzo). A oração de Jesus no monte impediu o cansaço dos discípulos na barca, mas foi a fé Nele que os salvou, pois só ele é: “Verdadeiramente, o filho de Deus”.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana