XIX Domingo do Tempo Comum: Lc 12,32-48 - Buscai o Reino que já vos foi dado

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O anúncio da chegada do Reino de Deus está no centro da pregação de Jesus e a sua implantação é o objetivo fundamental da sua missão. Apesar das várias e conhecidas expectativas de Israel em relação à chegada do Reino de Deus, o Messias Jesus fala de um Reino que não coincide com tais expectativas. Muitos esperavam que a chegada do Reino acontecesse com a descida triunfante de Deus para aniquilar todos os seus inimigos, outros esperavam que a dinastia davídica fosse restaurada, como sinal de que as promessas de Deus estavam se cumprindo. Porém, o Reino de Deus anunciado e iniciado pela palavra e ação de Jesus tem características que não coincidem com essas expectativas, até então, conhecidas. 
Em primeiro lugar, o Reino de Deus deve ser buscado com empenho, pois ele é construído por quem abraça o desafio da conversão, acolhe a pessoa de Jesus e redimensiona a sua existência segundo os valores do evangelho. Contudo, acolher o Reino exige fé: “Não tenhais medo”, e a humildade para reconhecer-se membro de um “pequenino rebanho”, pois a sua vinda não será ostensiva (cf. Lc 17,20), porém, ao mesmo tempo, é um grande dom: “foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino”.
Quem reconhece o Reino como um verdadeiro tesouro é capaz de assumir novas atitudes, como o desapego: “Vendei vossos bens”, motivado por uma razão nobre que o tornará, de verdade, rico, isto é, a solidariedade com os mais pobres (“Dai esmola”), pois isto lhe garantirá um tesouro que não se perde (“nos céus”). 


O tesouro na Bíblia não é apenas o conjunto das coisas valiosas de uma pessoa, mas também o baú onde elas eram custodiadas. Para impedir que o tesouro fosse roubado, era preciso vigilância e precaução. Agora, o tesouro a ser cuidado e protegido é o Reino de Deus que já está presente (Lc 11,21), mas que sofre ataques, “e muitos se esforçam para entrar nele com violência” (Lc 16,16). Portanto, duas atitudes são fundamentais para colaborar com o Reino: “Tendes os rins cingidos e as lâmpadas acesas”. Duas imagens bíblicas muito conhecidas: cingir-se é símbolo do estar preparado (1Pd 1,13; Ef 6,14). Além do fato de colocar o cinto na altura dos rins indicar que alguém está preparado para alguma atividade (por exemplo, partir: Ex 12,11), os “rins cingidos”, como órgãos que servem para filtrar, purificar o sangue, representam também o discernimento, que só é possível quando se acolhe a verdade. 
As lâmpadas acesas fazem referência às atitudes que estão em sintonia com a Palavra de Deus, pois é Ela a verdadeira lâmpada para os passos (cf. Sl 119,105). Ter lâmpadas acesas é deixar-se iluminar pela Palavra; é cumprir com fidelidade a missão, pois “ninguém acende uma lâmpada para colocá-la em lugar escondido...” (Lc 11,33). Por conseguinte, estas duas atitudes devem ser as características do verdadeiro servo do Reino. Pois desta forma, estará preparado para a chegada do Filho do Homem. A vigilância do servo prudente é espera alegre pela chegada do seu Senhor, com o qual aprendeu a servir, pois mesmo sendo o Senhor, é o primeiro servidor de todos: “Ele se cingirá e os colocará à mesa e, passando de um a outro, os servirá”. 


Por outro lado, a falta de vigilância do servo arrogante, que certamente tirou o seu cinto para gozar das comodidades, liberando-se dos seus deveres por causa da ausência do seu Senhor, e apagou as suas lâmpadas tornando-se ele mesmo treva (“vê bem se a luz que há em ti não é treva”, Lc 11,35), converter-se-á em punição e castigo por causa de sua infidelidade. 
Diante desse ensinamento direto do Mestre, Pedro reage: “Senhor, é para nós que estás contando essa parábola ou para todos”. Jesus não engana, reafirma que a advertência é para todos, mas os discípulos são os primeiros a serem cobrados, pois a eles muito foi confiado. Receberam do Mestre diretamente a missão de cuidarem do tesouro do reino de Deus: “A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino de Deus” (Lc 8,10), por isso, têm uma responsabilidade maior. 
Sendo o Reino de Deus a realização do seu projeto de vida plena para todos, acolhê-lo ou não será sempre uma possiblidade de escolha. Porém, mesmo sendo dom, quando acolhido exige responsabilidade. Tornar-se servo do Reino é uma resposta que se dá diante da dádiva, porém nos compromete, pois tem consequências. Os rins cingidos e as lâmpadas acesas são os sinais de que o servo está servindo; roupa folgada e lâmpada apagada denunciam do servo a infidelidade.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana