XIV Domingo Tempo Comum: Mt 11,25-30 - A sabedoria da oração dos humildes

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Apesar de Jesus ter feito muitos ensinamentos sobre a oração, inclusive ensinando a rezar, não encontramos nos evangelhos muitos registros do conteúdo da sua oração. Porém, é possível identificar alguns aspectos importantes dessa sua experiência que justificam a ausência de registros. Antes de tudo, Jesus rezava em segredo (de madrugada, no monte, no deserto, à parte dos discípulos). Os evangelistas perceberam que na experiência de oração de Jesus eram mais importantes as atitudes do que uma coletânea de palavras. O evangelho de hoje é uma dessas raras ocasiões em que se escuta o que Jesus reza: “Eu te louvo ó Pai...”. Dois elementos importantes na relação com Deus: a intimidade e a gratidão. A oração de Jesus se enraíza na própria tradição orante de Israel que, fazendo memória das maravilhas de Deus, o reconhece como criador de tudo: “Senhor do céu e da terra”.  A ação de graças de Jesus não fica apenas nas palavras de gratidão, mas diz o seu motivo, isto é, a revelação mútua Pai-Filho, para em seguida, fazer o convite aos cansados para que encontrem descanso, tornando-se seus discípulos. “Eu te louvo” (grego: exomologoumai soi) significa confessar, proclamar publicamente; louvor público, quase litúrgico. 
O fato de Deus esconder (grego: ekrypsas) aos sábios “estas coisas”, não significa que Ele queira excluí-los da revelação, mas a atitude interior de autossuficiência tornou-os incapazes de acolher a comunicação de Deus que se faz na simplicidade. Em outras palavras, é um modo semita de dizer que Deus “faz” aquilo que Ele permite acontecer pela liberdade humana. “Sábios e entendidos” (grego: sophoi/synetoi): instruídos, especialistas, inteligentes, perspicazes, “os que entendem”. Para Mateus, são as elites religiosas, autossuficientes, os que se consideravam conhecedores de tudo, e, portanto, não eram capazes de apreender numa perspectiva sapiencial (arrogância espiritual).  “Pequeninos” (grego: nēpioi), literalmente: “crianças pequenas”, “incapazes de falar”, e, portanto, abertos, receptivos, não-autossuficientes.
Deus faz assim porque é do seu agrado (grego: eudokia); pela sua vontade amorosa, e não arbitrária; coerente com seu modo de agir. A oração de Jesus é humilde, mas não nega a sua autoridade: “Tudo me foi entregue” (grego: paredothē, do verbo paradidōmi: entregar, confiar, transmitir). Afirma-se aqui a autoridade recebida, a missão confiada, a intimidade absoluta entre Pai e Filho, fundamentada no conhecimento mútuo. Esse conhecer (grego: epiginōskein) não tem sentido intelectual, mas conhecimento pleno, íntimo, fruto de relacionamento. Isso implica comunhão, experiência e reciprocidade. Pai e Filho se conhecem nesse sentido profundo, e Jesus introduz os discípulos nesse conhecimento: “Vinde a mim” (grego: deute pros me). 
Esta expressão já se encontra na literatura sapiencial como convite usado por mestres de sabedoria. Contudo, aqui é única, pois Jesus não convida para uma doutrina, mas para si mesmo. É um chamado relacional, não apenas moral. 
Cansados e sobrecarregados” (grego: kopiōntes/pephortismenoi): cansados pelo trabalho duro, exaustos; carregados com fardos pesados. Num horizonte semântico cultural do tempo pode significar opressão econômica (impostos, trabalho forçado), fardos religiosos (cf. Mt 23,4), ou culpas e exigências internas.  Na verdade, Jesus fala a quem está esmagado por sistemas e por si mesmo. 
Eu vos aliviarei” (grego: anapausō), no sentido de dar descanso, repouso, refrigério. No Antigo Testamento, o descanso é, antes de tudo, aquele prometido por Deus (Êx 33,14): descanso sabático, descanso messiânico. Nas palavras de Jesus, ele mesmo é a fonte do descanso. 
Contudo, coloca uma condição: “Tomai sobre vós o meu jugo” (grego: arate ton zygon mou). Jugo pode ser canga, mas também uma lei, um ensinamento, um estilo de vida. Na verdade, Jesus não remove todo o jugo, mas troca o jugo opressor pelo jugo do discipulado: “Aprendei de mim” (grego: mathete ap’ emou), isto é, tornar-se discípulo. O Discipulado mais do que aprender um conteúdo, é assumir o modo de ser de Jesus: “Sou manso e humilde de coração” (grego: praus/ tapeinos). Manso no sentido de não violento, gentil; humilde porque não é arrogante. Podemos dizer que estamos diante dos atributos divinos em Jesus. “Meu jugo é suave” (grego: chrēstos), isto é, bondoso, útil, gentil, benevolente. “Meu fardo é leve” (grego: elaphron), ou seja, que não esmaga, não oprime, pois é compatível com a vida.
Nesta simples, mas profunda oração de Jesus, encontramos as verdades fundamentais do seu ensinamento: a revelação é dom, não conquista intelectual. Ele é o mediador exclusivo do conhecimento do Pai, que nos convida a estabelecer um relacionamento e não apenas adquirir conhecimento, a fim de que se encontre o descanso salvífico e não puramente aquele psicológico.
Tornar-se discípulo de Jesus não é isentar-se de compromissos na vida, dificuldades ou exigências, mas assumir o seu estilo de vida, a sua cruz, mas sabendo que não será oprimido, porque Ele é leve, manso e humilde. O discipulado é aprendizado existencial, não apenas moral. Que a nossa oração, inspirada na experiência orante do Mestre Jesus, seja antes de tudo ação de graças e, ao mesmo tempo, testemunho de que estamos seguindo seus passos.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana