XIV Domingo do Tempo Comum: Lc 10,1-12.17-20 - Alegria só vale se for duradora

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelho deste XIV Domingo não nos apresenta apenas uma série de orientações práticas dadas por Jesus àqueles 72 discípulos que enviara em missão, mas é, de fato, uma verdadeira teologia pastoral da missão permanente da Igreja de todos os tempos. Na primeira parte dessa narração (10,1-12), podemos destacar 7 elementos simbólico-teológicos que embasam a concepção de missão em Lucas, com suas implicações práticas e, naturalmente pastorais. 
1º “O Senhor escolheu outros 72 discípulos, enviou dois a dois... onde Ele próprio devia ir”. O número 72 indica simbolicamente a universalidade da missão, pois se o 12 representa o povo de Israel, o 7 (70,72) abre o horizonte para a totalidade das nações. Portanto, a missão como anúncio de salvação é destinada a todos os povos. Provavelmente essa escolha de Jesus (72 discípulos) alude à ordem dada a Moisés de escolher 70 anciãos para ajudá-lo (cf. Nm 11,17), já que é muito presente nos evangelhos o paralelo que se estabelece entre Jesus e Moisés. Ademais, nesse primeiro elemento evidenciam-se os verbos fundamentais da missão: escolher e enviar.
2º “Poucos operários... pedi ao dono da messe que envie operários”. Parece que a ênfase é na falta (messe grande, poucos operários), mas o envio concreto de 72 missionários é um sinal de que o dono da messe já está atendendo o pedido, apesar de que não se deve nunca cair no comodismo de pensar que já somos um número suficiente. Destarte, Jesus faz-lhes ver que eles são verdadeiramente fruto da oração, e de uma oração muito especial, a do próprio Senhor (a oração em Lucas precede sempre momentos importantes na vida de Jesus). 
3º “Eis que vos envio como cordeiros para meio de lobos”. A imagem é chocante pois indica um grande perigo, inclusive de morte. Contudo, essas ovelhas têm um pastor, que é o próprio Senhor. Suas ulteriores recomendações lhes assegurarão a proteção contra os lobos. Vemos também uma alusão à dimensão escatológica da missão (“o lobo e o cordeiro pastarão juntos”, Is 65,25).

 
4º “Não leveis: bolsa, sacola, sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho”. Símbolos da proteção e segurança humanas e autopromoção. Sem contar que levando bolsas e sacolas correriam o risco de se assemelhar aos missionários dos fariseus e mestres da Lei que exploravam a boa vontade e ingenuidade das pobres viúvas, cujas casas eram devoradas por eles quando saíam em missão (cf. Lc 20,47). Não levar sandálias e não cumprimentar também indicam a urgência da missão. Além disso, a saudação no caminho poderia significar uma ostentação orgulhosa de quem quer ser notado, atraindo para si as atenções, favorecendo superficialidade no relacionamento; para evitar isso, é preciso entrar na casa.
5º “Entrando em casa, dizei primeiro: ‘Paz...’ se ali morar um amigo da paz... se não, ela voltará para vós”. A paz bíblica (Shalom) não é apenas uma saudação teórica, mas é fruto de atitudes concretas, por isso Jesus fala dos bem-aventurados que promovem (constroem) a paz, e não simplesmente a desejam (Mt 5,9). Sem entrar na casa (estabelecer relacionamentos profundos: partilha do alimento, convivência, cura dos doentes, etc.) é impossível fazer uma saudação coerente. Pois a paz não é um toque mágico, mas se constrói com a participação do outro (amigo da paz), que pode acolhê-la ou rejeitá-la. Positivamente esse elemento é muito bem desenvolvido nos versículos seguintes (7-9).


6º “Quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos”. Aqui se explicita o que já fora dito no início como advertência, pois não se pode esquecer que foram enviados para o meio de lobos, portanto, a rejeição também é uma possibilidade concreta à qual se deve reagir também de forma concreta (sacudir a poeira dos pés). Pois o anúncio do evangelho não é neutro (10-11). Contudo, o foco principal para ambas as situações (aceitação e rejeição) é o anúncio da chegada do reino de Deus. Aqui também aparece traços da perspectiva escatológica da missão: apelo de conversão, julgamento e ruptura com o pecado. Caso contrário não se perceberá a proximidade do reino de Deus. 
7º “Dizei ao povo: ‘O reino de Deus está próximo’”. Chegamos à razão fundamental da missão: anúncio da chegada do reino de Deus. A insistência de Jesus nesse ponto explicita que não é a missão que origina o reino, mas totalmente o contrário: é a chegada do reino com a sua vinda que suscita missionários. Jesus é o missionário do Pai por excelência, vem anunciar que o seu reino de paz já nos foi concedido. Contudo, sem a conversão, isto é, acolhimento desse dom, não é possível entrar nele. O pecado é rejeição de um amor gratuito, que se aproxima livremente, mas que não se impõe violentamente.
A segunda parte do evangelho de hoje (17-20) é um confronto entre a avaliação entusiasmada dos enviados e a palavra esclarecedora de Jesus. A missão não produz uma alegria por causa de êxitos momentâneos, mas nos possibilita colaborar no anúncio da chegada do Reino que, sendo de Deus, é garantia de alegria eterna.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana