XI Domingo Tempo Comum: Mt 9,36-10,8 - Há sempre necessidade de mais trabalhadores

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelho de hoje apresenta as consequências práticas de ser cristão, de nossa adesão ao evangelho no seguimento de Jesus. Não se trata de um simples apelo vocacional, mas uma advertência de Jesus que inspira discernimento diante do nosso compromisso de fé; leva-nos a reconhecer que mesmo aceitando ser trabalhadores na colheita do Senhor, ainda trabalhamos pouco, pois há muitas ovelhas sem pastor. É uma preocupação generalizada, em muitos âmbitos eclesiais, o cansaço excessivo dos agentes de pastoral, pois se vive um frenesi contínuo para dar conta de muitas demandas. Porém, mais do que por esforço nosso, o Reino se difunde à medida que testemunhamos com convicção o que Deus faz em nosso favor: Ele é o Senhor da vida, que nos é “dada de graça e que de graça devemos dar”. 
A reação de Jesus diante das multidões: “Compadeceu-se delas”, não significa apenas uma constatação ou uma sensibilidade afetiva frente a uma situação calamitosa, mas indica uma tomada de decisão que implica atitudes concretas. 
Diante de um povo (cansado e abatido), o Mestre Jesus não tem apenas palavras bonitas de consolo e resignação, mas propõe um modo de ser que provoca mudanças existenciais e abre um caminho de verdadeira transformação de mentalidades e atitudes, o que tornará possível a colheita abundante dos frutos do Reino, que Ele mesmo anunciou com suas palavras e implantou com sua vida, assumida com coerência até os extremos: entregando-se pelas suas ovelhas. “Compadecer-se” em grego (splanchnidzo) traduz o “ser misericordioso” do hebraico (raham), portanto, é uma reação mais do que afetiva ou sentimental, é um movimento visceral, como o sentimento da mulher que tem no seu ventre a vida em gestação e por isso a envolve com carinho e cuidado, e, quando ameaçada, é capaz de se sacrificar por ela, a fim de que não morra. O olhar de Jesus revela a verdade da situação: as multidões “cansadas e abatidas” não é apenas uma descrição de um estado emocional ou físico. Ele está interpretando espiritualmente a condição do povo. Seu olhar é profético, pois vê além da superfície. Em grego (eskylmenoi, do verbo skúllo: esfolar, tirar a pele) significa cansadas, maltratadas, despedaçadas, oprimidas, exploradas; (errimmenoi, do verbo ripto: jogar no chão, dar coice): abatidas, lançadas ao chão, abandonadas, descartadas. Esses termos não descrevem apenas fadiga física, mas é uma denúncia da violência, abuso e negligência que as pessoas estavam sofrendo. As ovelhas não estão perdidas por culpa própria; elas foram deixadas à própria sorte.
Diante desse cenário, Jesus se coloca como o verdadeiro e bom Pastor, enviado pelo Pai para recuperar a vida e a dignidade de suas ovelhas, o seu novo povo conduzido pelos pastores segundo o coração do próprio Deus: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15).
Ao escolher os 12 discípulos, uma referência simbólica às raízes do Povo de Israel, Jesus continua a sua missão, pois concede-lhes plenos poderes para realizar o que Ele mesmo fazia quando “percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas e pregando o Evangelho do Reino, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades” (Mt 9,35).
Contudo, para não recaírem na mesma infidelidade dos antigos pastores, os discípulos devem crescer na consciência de três aspectos fundamentais da sua vocação-missão:

  1. 1. A vocação é uma resposta do Pai à oração da comunidade, portanto, não são meros funcionários, contratados para uma atividade, em vista de recompensas materiais ou privilégios. 
  2. 2. A vocação, uma vez gerada pela oração, não poderá subsistir sem a oração, isto é, sem a comunhão com Jesus, por isso o Mestre os chamou para perto de si (proskalesámevos: “chamados a si” Mt 10,1).
  1. 3. A vocação é um dom e, por isso, tudo o que fizerem (missão) deve testemunhar esta verdade: “De graça recebeste, de graça deveis dar”. 

Ao elencar cada um dos 12 discípulos, São Mateus não está fazendo uma lista de chamada, mas indicando que a missão se realiza com a colaboração de pessoas concretas, no horizonte da história com suas vicissitudes, e que mesmo a vocação sendo um dom do Pai, ela não tira a responsabilidade e liberdade de quem foi chamado. Está incluído na lista não significa ser fiel ao chamado nem garante colaboração na colheita. Há quem, apesar de suas limitações, resistências, negações momentâneas, deixa-se orientar pelo Mestre e é confirmado na missão (os 11), mas há também quem está na lista de quem recebeu todas as condições para a missão, mas optou por arrancar a pele das ovelhas, explorá-las ao máximo e abandoná-las, tornando-se traidor do Pastor e do rebanho (Judas).



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana