VII Domingo Tempo Comum: Mt 5,38-48 - Amor cristão é mais do que afeição

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O termo ‘amor’ tornou-se, hoje, uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes” (Papa Bento XVI, Deus caritas est, 2). O “amor” representado nas cenas de novelas, nos filmes e romances, e mesmo em alguns fatos do cotidiano, na maioria das vezes não passa de formas de egoísmo ou de paixões desordenadas que não têm nada a ver com o verdadeiro amor, aquele que se entrega gratuitamente pelo bem do outro. O evangelho deste VII Domingo do Tempo Comum apresenta algumas das expressões concretas do verdadeiro amor, que não pode ser confundido com qualquer experiência sentimental egoísta. Para além de uma afeição espontânea e natural, o amor cristão é vivido como fruto de uma decisão de fazer o bem, que derrota o mal e supera uma justiça simplesmente punitiva, motivada pelo espírito de vingança: “Olho por olho, dente por dente”. A Lei de Talião (do latim: talis, tal, igualmente), no mundo antigo, representava um princípio de justiça muito razoável, pois a punição era de acordo com o delito (Lv 24,20), porém a motivação era a vingança. Jesus desafia os seus discípulos a praticar uma justiça que supere a vingança e se revista de verdadeira misericórdia, pois é assim o agir do Pai celeste que: “faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos”. É amar o outro sem depender de uma motivação afetiva, mas simplesmente por uma decisão efetiva de quem fez a escolha pelo bem.
Aparentemente, diante das prescrições de Jesus, poder-se-ia concluir que o amor cristão é passividade resignada e doentia, ou mesmo uma submissão inerte inclusive em situações de incontestáveis injustiças, mas se engana quem pensa assim. Aquilo que o Mestre propõe e ele mesmo viveu representa uma das propostas mais revolucionárias e “violentas” que podem marcar e mudar os relacionamentos humanos: atitudes que quebram o esquema perverso de causa e efeito, ação e reação. Para quem não aderiu ainda à lógica do evangelho, ressoa como escandalosa e incompreensível a mudança da retaliação, da vingança, para a não resistência, para a generosidade que se enraíza numa liberdade interior que nada pode destruir. Os exemplos práticos dados por Jesus não apontam para uma finalidade em si, mas são estratégias eficientes para romper com o ciclo da violência e da vingança. 


O ponto de partida é: “não enfrentar quem é malvado”, pois colocar-se diante de quem é malvado, tentando defender-se dele, é correr o risco de imitar o seu procedimento, usando as suas mesmas armas e, consequentemente, sofrer uma verdadeira simbiose a ponto de tornar-se também um malvado. Em contrapartida, Jesus apresenta quatro atitudes estratégicas que rompem com o ciclo da violência: “Oferecer a outra face”, mais que acovardar-se, é mostrar que nenhuma ofensa perturba o interior de quem está convicto do bem que pode realizar. Dar uma bofetada na face era mais do que uma agressão física, era uma violenta maneira de insultar, provocar a outra pessoa, a fim de que perdesse a paz e aderisse ao ciclo de violência revanchista. Portanto, oferecer a outra face, era sinal de grande firmeza interior, que não se deixa arrastar pela irracionalidade da violência. “Entregar também o manto”: nos processos o manto poderia ser dado como penhor, porém deveria ser devolvido antes do anoitecer (Ex 22,26; Dt 24,13). O desapego interior do cristão o leva até mesmo a renunciar aquilo que é direito seu, inclusive as coisas que lhe são necessárias, pois crê que ser bem-aventurado é ter coração de pobre, é saber entregar tudo. “Caminhar a mais do que foi pedido”: os soldados romanos tinham direito (grego: angareusei) de obrigar a quem encontrasse no caminho a acompanhá-los (indicando o caminho) ou a carregar fardos (como fizeram com Simão obrigando-o a carregar a cruz de Jesus, Lc 23,26). Jesus usa esta imagem para dizer que o seu discípulo deve estar sempre disponível para o serviço, que não se limita ao estritamente pedido, nem se acomoda à mediocridade calculista, nem se deixa aprisionar pela obrigação formal. 
Por fim: “Dar a quem pedir”, atitude de gratuidade que deve caracterizar o discípulo, o amor que socorre quem necessita; o amor não humilha com atitudes de indiferença e, por isso, não deve “virar as costas”. A pessoa humana sente-se mais amada quando é acolhida como um semelhante do que mesmo quando recebe esmolas, apesar de necessitada. Quando não temos nada de material para oferecer ao necessitado que encontramos no caminho, é mais fácil virar-lhe as costas ou passar para o outro lado, impedindo qualquer tipo de aproximação ou contato. Talvez um animal atraísse mais a nossa atenção e interação. Contudo, um coração que ama tem muito mais a oferecer do que simplesmente coisas materiais; um olhar humaniza, um sorriso restitui dignidade, uma palavra alivia a solidão. O amor cristão nos provoca a tomar uma decisão, isto é, amar até a quem não consideramos dignos do nosso amor: nossos inimigos, nossos perseguidores, aqueles que não nos amam, porque também não nos consideram dignos do seu amor. 


Amar os inimigos fere a lógica do amor humano, pois este se identifica com afeição, prazer, bem-estar, enquanto que o amor cristão é decisão de fazer o bem. O cristão não se sente bem e por isso ama, mas ama para alcançar o bem. Não busca o bem no outro para amá-lo, mas ama-o para fazer-lhe o bem, pois isso lhe faz bem. Buscar razões e motivações em nós mesmos para isso é correr o risco de desanimar e desistir, por isso além do imperativo de Jesus “Amai os vossos inimigos” está “Orai por quem vos persegue”. Se colocar-se diante do malvado é arriscar tornar-se malvado como ele, e, por conseguinte, não ser capaz senão de odiar e vingar-se, então colocar-se diante do Sumo Bem, numa atitude orante, reconhecendo que ainda não conseguimos amar os nossos inimigos, a fim de aprendermos que o amor gratuito é o único caminho de vencer a violência do não amar, é aprender que Ele nos ama apesar de não sermos dignos desse amor.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana