Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
O evangelho de hoje nos coloca diante de uma afirmação decisiva de Jesus: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas; não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento”. Essas palavras não são simplesmente uma autodefesa de Jesus contra as acusações dos fariseus de que Ele não cumpria a Lei, mas são, antes de tudo, um convite e um alerta; Jesus denuncia que muitos mestres da Lei, com suas interpretações parciais, haviam se afastado do coração da Palavra de Deus, cujo centro era a Torah, pois cumpriam normas, mas esqueciam o essencial; falavam de Deus, mas não viviam como filhos autênticos de Deus; impunham fardos pesados aos outros, mas não os moviam com um dedo sequer. A Lei, que deveria ser caminho de vida, estava sendo usada como instrumento de controle, de aparência, de hipocrisia. Jesus, o verdadeiro Mestre da justiça, recupera o sentido genuíno da Lei: garantia de vida plena, misericórdia, fidelidade ao amor do Pai.“Se a vossa justiça não for maior que a dos mestres da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”, esta crítica-advertência de Jesus não é contra a Lei em si, mas contra o uso distorcido dela, isto é, quando é fragmentada, sendo tratada como um catálogo de normas isoladas; manipulada, quando aplicada conforme interesses particulares.“Nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei” (esta tradução esconde um aspecto literal muito importante presente na língua original: “nenhum iota nenhum keraia”) O iota (yod no hebraico) é realmente a menor letra do alfabeto, mas isso não é um detalhe irrelevante. Ela carrega significados simbólicos profundos, antes de tudo por ser a décima letra do alfabeto hebraico. O número 10 remete imediatamente aos Dez Mandamentos, ou seja, o conjunto do núcleo da Torá moral. Na tradição judaica, o yod é visto como a “semente” de todas as letras — o ponto inicial da criação escrita. Portanto, Jesus não está apenas dizendo “nem o menor detalhe”, mas estava se referindo ao fundamento, ao mais essencial da Lei — aquilo que sustenta tudo — não será será abolido. Reforça esse sentido: “nem um traço” (keraia) também pelo seu alcance simbólico. O “traço” (grego: keraia) se refere aos pequenos ornamentos que diferenciam letras hebraicas muito parecidas. Ou seja, até o menor detalhe que distingue uma letra da outra e, portanto, um mandamento do outro permanece significativo. Jesus deixa claro que não podemos escolher quais mandamentos seguir. A Lei é uma só, porque Deus é um só, e o amor é indivisível. Quando ferimos um mandamento, ferimos a lógica do amor que sustenta todos os outros.Com essa proibição, Jesus não está defendendo um legalismo rígido, mas lembrando que a Lei tem uma coerência interna, um coração: o amor que gera vida. Por isso, não se pode “mudar um iota” — não porque cada regra seja intocável, mas porque o fundamento não pode ser adulterado. O ponto central é evitar o esfacelamento da Lei, mesmo em seus detalhes mínimos, pois seria o primeiro passo para desintegrar, desautorizar a sua autoridade. O Mestre não veio abolir, mas cumprir, levar à plenitude, e não a declarar obsoleta. Embora Jesus afirme a permanência da Lei, Ele também a reinterpreta com profundidade ética (“ouvistes o que foi dito… eu, porém, vos digo…”), desloca o foco da letra para o espírito, condensa tudo na Lei do amor a Deus e ao próximo; Ele não destrói a Lei, mas a radicaliza em seu sentido mais profundo.É muito significativo que Jesus comece justamente pelo mandamento “Não matarás”. No decálogo, esse mandamento ocupa o centro (5º); simbolicamente, a vida é o centro de tudo. Por isso, Jesus amplia o sentido do mandamento para além do ato físico de tirar a vida; Ele denuncia o processo interior que leva à destruição do outro. Isso é profundamente importante para compreender que o pecado não se limita à ação, mas na intenção que corrói a relação. “Não matarás” vai muito além de tirar a vida física; Jesus amplia o sentido do mandamento: matar começa quando humilhamos, desprezamos, insultamos, excluímos, ferimos a dignidade do outro. A ligação entre “não matarás” e o desprezo pelo outro é evidente. Quando Jesus enlarguece o sentido do mandamento, Ele mostra que a raiz do homicídio é a ruptura da comunhão. “Quem disser ao irmão: ‘patife’ (raqa)... quem chamar o irmão de tolo (morós)” Quando Jesus diz que chamar o irmão de “raqa” (cabeça oca) ou “morós” (idiota) já é uma forma de matar, Ele está mostrando que a violência começa na desumanização.A palavra que humilha, que reduz, que exclui, tudo isso já fere a vida. É como se Ele dissesse: antes de matar com as mãos, matamos com e no coração, com o olhar, com a língua. Chamar alguém de “tolo”, “imbecil” ou tratá-lo como incapaz é uma forma de negar sua dignidade. Isso é profundamente contrário ao Reino, onde cada pessoa é chamada a amadurecer, discernir e caminhar com liberdade. Não é apenas um insulto; é uma tentativa de reduzir o outro a nada, tornando-o manipulável. Jesus destaca uma situação de um grande perigo de transgredir esse mandamento: “Quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar”, a prática da religião desconectada da relação com o irmão. Tentar aproximar-se de Deus (altar), mantendo-se distante do irmão, é agir como um tolo e tratar o outro como imbecil, é abrir caminho para morte. A hipocrisia mata porque destrói a verdade. É viver uma aparência de comunhão com Deus enquanto se mantém o coração fechado ao outro. Jesus denuncia isso porque a vida do Reino é sempre relacional: “Deixa a tua oferta aí diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão”.Quando ouvimos Jesus retomar o mandamento “Não cometerás adultério”, pensamos automaticamente na fidelidade conjugal. Mas a Palavra de Deus sempre vai além da superfície. Na Bíblia, o adultério é também imagem da infidelidade do povo à aliança com Javé. É a ruptura de um vínculo que deveria ser sustentado pela doação, pela integridade e pelo amor fiel. Jesus não está apenas reforçando uma norma moral, mas está revelando o que destrói a relação com Deus a partir de dentro. O Mestre aponta para a raiz do pecado: não é simplesmente o ato, mas sobretudo a intenção. O pecado não começa quando a mão age, mas quando o olhar se desvia. O olho e a mão simbolizam todo o ser humano: o olho, nossa capacidade de orientar o desejo, a mão representa a nossa capacidade de agir. Se o olhar se perde, a ação inevitavelmente seguirá o mesmo caminho. Por isso Jesus fala de “arrancar o olho” ou “cortar a mão”: não é necessário dizer que o sentido não é literal, mas um chamado radical a vigiar aquilo que alimenta o coração. A infidelidade nasce do esquecimento, da perda de memória do coração: “Fica atento a ti mesmo… não te esqueças do que teus olhos viram” (Dt 4,9). A infidelidade do povo começava quando esquecia as obras de Deus. Quando a memória da graça se apagava, surgia a tentação de buscar outros deuses. Adultério, no sentido profundo, é qualquer movimento interior que rompe a aliança: quando o coração se divide, quando buscamos seguranças fora de Deus, quando o olhar se fixa no que seduz, mas não liberta. A infidelidade começa pequena: um olhar distraído, um desejo alimentado, uma justificativa interna. Jesus nos alerta porque sabe que o coração humano é terreno fértil tanto para a graça quanto para a dispersão. “Não jurarás falso”: a aliança com Deus não se sustenta por medo, mas por memória: lembrar o que Ele fez, lembrar quem somos, lembrar para onde caminhamos. Negar tudo isso é fazer uma falsa declaração da vida, é ceder às ideologias hodiernas que muitas vezes exaltam os seres, mas desprezam quem os criou. Consequentemente, tudo aquilo que se pode afirmar da realidade nos seus vários aspectos e dimensões carece de fundamento verdadeiro e redunda em manipulação falseadora da vida. Cumprir os juramentos é assumir a fidelidade como caminho de liberdade. É manter o olhar fixo no essencial e ter a coragem de viver a resposta dada: “Quando for sim, sim; quando for não, não”.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
