VI Domingo do Tempo Comum: Lc 6,17.20-26 - Bem-aventuranças: mais que promessas de felicidade!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A perícope evangélica deste Domingo, geralmente chamada de “Bem-aventuranças”, adquire uma grande importância porque é uma chave de leitura dos grandes temas tratados no evangelho de Lucas (oração, evangelho dos pobres, misericórdia para com os pecadores, a visita de Deus ao seu povo, conversão etc.). Mesmo que ao falarmos de bem-aventuranças temos sempre em mente as proclamadas por Jesus (Mateus e Lucas), na Bíblia vamos encontrar muitos textos que têm essa formulação literária (grego: macarismos). Portanto, como maneira de falar não é uma novidade de Jesus. Mas seguindo a tradição bíblica já vetero-testamentária, o Mestre também faz o seu anúncio por meio desse gênero literário bastante utilizado pelos profetas e pela literatura sapiencial; basta pensar o livro dos Salmos que se abre justamente com essa expressão: “Bem-aventurado (feliz) o homem que não vai ao conselho dos ímpios” (Sl 1,1). Por fim, no último livro da Bíblia também encontramos simbolicamente 7 bem-aventuranças (Ap 1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7.14).    
Antes de nos determos nas bem-aventuranças propriamente ditas, é importante lembrar dois fatos significativos que servem de introdução à grande proclamação: “Jesus tinha subido à montanha para rezar, passando a noite inteira em oração” (Lc 6,12). Lucas faz questão de dizer que todos os importantes ensinamentos e ações de Jesus são precedidos sempre pela oração (5,16; 9,18.28-29; 11,1; 22,41).


Portanto, aquilo que Jesus vai proclamar nas bem-aventuranças é fruto do seu colóquio com o Pai, é expressão da sua intimidade com Deus. É no coração do Pai que Ele se inspira para comunicar ao povo a sua Boa Notícia de Salvação. Não faz simples constatações sociológicas para propor soluções pontuais, mas imbuído do amor do Pai, lança uma luz na realidade na qual, pela encarnação se inseriu e assumiu, a fim de transformá-la a partir de dentro, isto é, da conversão dos corações e das atitudes das pessoas que o escutam e aderem à sua palavra, e que se tornam seus discípulos. Daí o segundo fato importante que precede à proclamação das bem-aventuranças: a eleição dos 12 (Lc 6,13s). Agora sim, Jesus pode proclamar os que são verdadeiramente felizes. Por isso “ergue os olhos para os seus discípulos” e apresenta solenemente quem são os bem-aventurados. 
Ao proclamar: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!”, Jesus confirma o que dissera na sinagoga de Nazaré, ao aplicar a si a profecia de Isaías sobre o ungido do Senhor cuja missão era anunciar a boa nova aos pobres (cf. Lc 4,18). A Boa notícia tem um conteúdo específico, isto é, o Reino de Deus é dos pobres, portanto, um tema relevante de Lucas: a preferência pelos pobres e pequenos. Ao longo do seu evangelho, Lucas chama o discípulo cristão a identificar-se com Jesus, mestre que tem cuidado especial para com os pobres e pequenos, pecadores e aflitos e de todos aqueles que reconhecem a sua dependência de Deus (4,18; 6,20-23; 7,36-50; 14,12-14; 15,1-32; 16,19-31; 18,9-14;19,1-10;21,1-4). 


Sem comprometer a objetividade do texto, poderíamos afirmar que na verdade só há uma categoria de bem-aventurados, isto é, os pobres. Os três outros apelativos são as expressões reais e concretas desses pobres (famintos, os que choram, os perseguidos). Segue a mesma lógica da proclamação do texto de Isaías na sinagoga de Nazaré. Didaticamente poderíamos formular: Jesus foi ungido para anunciar o evangelho aos pobres. Mas quem são esses pobres? Os presos, os cegos, os oprimidos. Portanto, podemos compreender que os pobres são a categoria de base de todas as outras situações.   
Por conseguinte, pode-se ler as quatro bem-aventuranças numa perspectiva de desdobramento: “Bem-aventurados, vós que agora tendes fome... chorais... sois odiados...” Só tem fome quem não tem o que comer, portanto, os pobres. A bem-aventurança não consiste na condição de pobreza, de fome, de perseguição, pois se assim fosse, Jesus teria confirmado que iriam continuar pobres, famintos, perseguidos, caso contrário perdendo essa sua condição, perderiam a razão da felicidade. Mas pelo contrário, os que têm fome serão saciados, os que choram vão rir, os perseguidos terão recompensa. A garantia da felicidade não está na condição atual, mas no fato de que em Jesus as promessas de Deus se cumprem. Os profetas já tinham anunciado que Deus iria intervir eficazmente (cf. Is 49,9.13). Em Jesus, Deus com quem o filho fala constantemente (oração), toma a defesa dos pobres, realiza a justiça e oferece a esperança. Por conseguinte, proclamar os pobres bem-aventurados não é abençoar a sua condição de indigência, desespero, mas anunciar que não estão abandonados, sem defesa, Deus visitou o seu povo para libertá-lo. 
Por outro lado, para cada bem-aventurança, temos uma denúncia severa de Jesus (“Ai de vós"): aos ricos (antitético: aos pobres), aos saciados (famintos), aos que riem (choram), aos privilegiados (perseguidos). Jesus é severo em relação aos soberbos e hipócritas, sobretudo aqueles que colocam seus bens materiais antes do serviço a Deus e do seu povo (6,24-26; 12,13-21; 16,13-15.19-31; 18,9-14.15-25). Nesses “ais” encontramos um apelo de conversão e não simplesmente anúncio de condenação. Pois tanto as bem-aventuranças como os “ais” são dirigidos aos presentes (vós), portanto gente que veio para ouvir Jesus. Acolher ou não os seus apelos será a chave decisiva para fazer parte ou não dos bem-aventurados.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana