Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
O Evangelho de hoje nos apresenta duas das imagens mais belas e exigentes que Jesus usa para falar da identidade dos seus discípulos: sal da terra e luz do mundo. Essa palavra de Jesus não é um imperativo, ou seja, algo para que os discípulos obedeçam, mas é uma afirmação. Ele não diz: “Sejam sal, sejam luz”. Ele diz: “Vós sois”. Portanto, não se propõe um ideal distante, nem muito menos se está impondo um peso moral insuportável; na verdade, Jesus está revelando qual a missão de quem acolhe o dom de Deus. Ser cristão não é um projeto humano, é uma graça recebida. É Deus quem nos faz sal para a terra e luz para o mundo.“Vós sois o sal da terra”: o sal, no tempo de Jesus, tinha três funções essenciais: dar sabor, conservar e purificar. O sal age de modo silencioso, discreto, mas indispensável. Assim é o cristão: não precisa aparecer, mas sua ausência é sentida. O mundo fica mais insosso quando falta o testemunho cristão; a sociedade se corrompe mais facilmente quando falta a presença daqueles que conservam o bem; e a vida perde sua força quando não há quem purifique as relações com a verdade, a justiça e a misericórdia. Ser sal significa transformar o ambiente sem dominá-lo. O sal não chama atenção para si; ele realça o sabor do alimento. O cristão não vive para si, mas para que Deus seja percebido. O sal, tão banalizado hoje pela facilidade com que o encontramos, já ocupou um lugar central na vida humana. No mundo antigo, ele não era apenas um tempero, era um recurso estratégico, vital e profundamente simbólico. O sal natural — aquele extraído diretamente de minas ou salinas, sem processos industriais agressivos — continha uma variedade de minerais que contribuíam para o equilíbrio do organismo. Com o advento da industrialização, o sal passou a ser refinado, perdendo quase todos os seus oligoelementos e reduzindo-se praticamente ao cloreto de sódio. Assim, o que antes era alimento e remédio, tornou-se apenas um intensificador de sabor, e, quando consumido em excesso, um fator de risco para a saúde.Ser sal da terra não é uma mera função externa do discípulo — “dar sabor ao mundo”, mas indica a sua identidade interna, algo que o cristão é, não apenas algo que ele faz; (grego: eàn dè tò hạlas moranthê, en tíni halisthésatai? a tradução literal realmente é: “Mas se o sal perder o sabor, com que ele será salgado?”). O foco não é o mundo que deixa de ser salgado, mas o próprio sal que se torna incapaz de cumprir sua natureza.O verbo grego “moranthê”: perder o sabor, também significa tornar-se tolo: tornar-se insípido, perder a força. Por conseguinte, a metáfora evidencia a seguinte verdade: o sal que perde o sabor é o discípulo que perde a sabedoria, a coerência, a fidelidade. Não é apenas uma falha moral; é uma contradição da própria identidade. Quando Jesus pergunta “Com que ele será salgado?”. A resposta implícita é “Não há como”. O sal não pode ser salgado por outra coisa. O discípulo não pode ser “retemperado” por forças externas. A restauração não vem de técnicas, estratégias ou estruturas. Isso não significa que a fé perdida é irrecuperável, que não existe substituto humano para a graça que restaura. Então, como se recupera a fé perdida? A metáfora aponta para uma verdade espiritual: o cristão não pode recuperar a fé apenas por esforço próprio. A pergunta de Jesus, portanto, funciona como um alerta e um convite. Alerta diante da infidelidade cuja consequência real é o discípulo se tornar incapaz de cumprir sua missão. Mas, ao mesmo tempo, é um convite: a única forma de recuperar o “sabor” é voltar à fonte: a graça, a comunhão, a conversão, o reencontro com Cristo. Numa perspectiva puramente humana, recuperar o gosto do sal é impossível. É mais fácil acender uma chama nova do que reacender uma que se apagou. Quem nunca teve fé pode ser surpreendido, encantado, transformado por algo novo. Já quem a perdeu, muitas vezes, a perdeu por frustração, dor, decepção ou desgaste — e reconstruir isso exige um trabalho interno muito mais profundo.A advertência é tão séria: o discípulo precisa cuidar da própria fé como quem cuida de algo precioso e frágil. Não por egoísmo ou vaidade espirituais, mas porque sua presença no mundo — seu sabor, sua luz, sua influência — depende disso. “Tornar-se insosso” é mais do que perder o sabor. É agir de forma imprudente, perder o propósito, desinteressar-se do essencial.“Vós sois a luz do mundo”: não significa que o cristão tenha ou seja luz própria; ele não é o sol. Mas deve ser como uma lâmpada que só ilumina porque foi acesa por outra luz. A luz que carregamos não é mérito, é dom. E, como todo dom, só faz sentido quando é colocado a serviço. A luz não existe para chamar atenção para si. Ninguém entra numa sala e fica admirando a lâmpada; o que importa é o que ela permite enxergar. Assim também é o cristão: sua missão não é aparecer, mas fazer aparecer. Fazer aparecer a verdade, a justiça, a bondade, a presença de Deus no mundo. Quando alguém se aproxima de nós, deveria enxergar melhor a vida, perceber com mais nitidez o que é essencial, sentir-se mais livre e mais amado. Jesus também nos diz que uma luz escondida perde sua razão de ser. Uma fé que não se traduz em atitudes concretas, uma espiritualidade que não toca a realidade, uma religião que não ilumina o cotidiano, tudo isso se torna estéril. A luz que não ilumina, apaga-se. “Que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus”. A prova de que nossa vida é luz está no fato de que nossas boas obras levam os outros a glorificar o Pai que está no céu. Glorificar não significa apenas cantar louvores, mas perceber Deus se manifestando aqui na terra. A palavra “glória” (grego: doksa) significa “aquilo que aparece, se evidencia”. Deus é glorificado quando Ele aparece através de nós. Quando nossas atitudes tornam a terra mais humana, mais justa, mais saborosa, como o sal, e mais iluminada, como a luz, então Deus se torna visível. E isso é evangelização na sua forma mais pura. A força do anúncio do evangelho não está nos discursos bem elaborados, mas testemunho convicto; não na propaganda religiosa, mas vida que revela Deus.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
