Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Neste V Domingo da Quaresma (Ano A) chegamos ao ponto mais alto no itinerário de preparação dos catecúmenos (escrutínios), mas toda a Igreja entra nesse movimento de discernimento e conversão, preparando-se para a Páscoa. Abre-se assim de modo mais direto a expectativa pela grande Semana quando reviveremos os últimos momentos da vida terrena de Jesus, sua paixão, morte e ressurreição. Ele é o servo sofredor que aceitou entregar a sua vida para que tivéssemos vida plena (cf. Jo 10,10). Ele fez a sua entrega, porém é preciso que nós a acolhamos pela fé. No centro do evangelho de hoje está a pergunta-desafio de Jesus: “Crês isto?”. Acreditar em Jesus não é apenas estar de acordo com os seus ensinamentos, admirar a sua sabedoria ou considerá-Lo um grande personagem da história da humanidade. Diz São Paulo na 2ª leitura de hoje: “Se Cristo está em vós... vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça”. Portanto, acreditar significa estar em Cristo, pertencer a Ele, ou seja, e não apenas pensar algo sobre Ele, mas estar n’Ele. E estar n’Ele transforma tudo: “E quem está em Cristo é uma nova criatura” (2Cor 5,17).Como geralmente é chamada, a ressurreição de Lázaro, na verdade, é o último e mais impressionante dos 7 “sinais” realizados por Jesus no Evangelho de João cuja finalidade é revelar quem Ele é e qual a sua missão. Jesus não apenas realiza prodígios para os ainda vivos: transformando água em vinho, curando, multiplicando pães e peixes, caminhando sobre as águas, para isso bastaria ser mais um taumaturgo entre tantos, mas Ele tem poder de devolver a vida a alguém que já estava morto há quatro dias, pois “Ele é o Filho de Deus que devia vir ao mundo”. Buscar em Jesus apenas milagres para a vida presente é correr o risco de permanecer numa fé pouco amadurecida que coloca condicionamentos: “Senhor, se tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido”. A fé nos coloca diante de um horizonte que ultrapassa toda lógica e possibilidades humanas: “Teu irmão ressuscitará”. Mesmo diante da palavra verdadeira e firme do Mestre, a nossa pouca fé prefere buscar explicações que caibam dentro da nossa pequena cabeça ou correspondam as nossas expectativas restritas: “Eu sei que ele ressuscitará no último dia” (a fé judaica na ressurreição, ver Jó 19,25). Por outro lado, Jesus não vem apenas para prolongar por mais alguns anos uma vida ceifada prematuramente, mas Ele deu a sua vida para que não morrêssemos eternamente: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crer em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais”. A cena da ressurreição de Lázaro sempre foi lida pela tradição cristã como uma catequese batismal, um verdadeiro anúncio do que Deus realiza no batismo: tirar o ser humano da morte e conduzi lo à vida nova. Poderíamos sintetizá-la nos seguintes pontos: 1. A condição humana: “As irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: ‘Senhor, aquele que amas está doente’”. Lázaro, portanto, representa a condição humana marcada pela fragilidade e a morte, a humanidade ferida, incapaz de salvar a si mesma. O grande desafio para essa humanidade é justamente reconhecer que apesar de sua condição (pecadora-doente-fadada à morte) é amada por Deus. 2. O compromisso do amor de Deus para com a humanidade: “O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo”. Jesus é a Vida que visita o ser humano, aproxima-se do drama humano, comove se, chora, participa Ele mesmo dessa realidade, pois não lhe é indiferente; sua compaixão revela o amor que salva. A presença de Jesus já começa a transformar a realidade.3. A fé como porta de entrada para a vida nova: “Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus”. A fé é o primeiro passo do caminho batismal: reconhecer quem é Jesus; sem fé, o sinal permanece incompreensível; sem fé não podemos agradar a Deus (Hb 11,6). Toda a narração é marcada pela tensão entre fé e incredulidade, cujo ápice está na reação de Jesus: “E Jesus chorou”. Sabendo Jesus o que iria fazer (“Vou acordá-lo”) não teria sentido atribuir o choro de Jesus à morte do amigo. Pelo contrário, Ele mesmo havia dito: “Alegro-me por não ter estado lá, para que creiais”. Então, não foi a morte física de Lázaro a razão da comoção profunda de Jesus. Considerando uma outra situação na qual Jesus chorou, podemos inferir qual foi, na verdade, o motivo do seu pranto: “Quando avistou Jerusalém, chorou sobre ela dizendo: ‘Ah! Se neste dia também tu conhecesses a mensagem de paz’” (Lc 19,41-42). Jesus estremece quando “viu Maria chorar e os que estavam com ela”. Apesar do anúncio já feito: “Eu sou a ressurreição e a vida”, ainda não acreditaram (continuavam a chorar). Portanto, o choro de Jesus é pela falta de fé, que conduz à morte eterna. Contudo, Ele não desiste de provocar à fé: “Se creres, verás a glória de Deus”, e a glória de Deus é a participação do ser humano na sua vida divina. Dizia Santo Irineu de Lion: “A glória de Deus é o homem vivo”. 4. A Palavra que chama à vida: “Lázaro, vem para fora!”. Como no Batismo, a Palavra e a água geram o novo nascimento, a palavra de Jesus cria vida. Jesus já havia dito: “Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem, viverão” (Jo 5,25: 3º sinal). Este chamado é para deixar tudo o que aprisiona: pecado, medo, escuridão; é verdadeiramente um movimento pascal: sair da morte para a vida. Assim como na primeira criação, a voz de Deus, do meio das trevas, fez surgir a luz e toda a criação (Gn 1,2), das trevas do túmulo, Lázaro é chamado à luz pela palavra de Jesus. Assim todo batizado como nos recorda São Pedro: “Sois raça eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo de sua particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,9). Também São Paulo reitera essa verdade dos crentes: “Ele nos arrancou do poder das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados” (Cl 1,13). 5. O Batismo liberta dos vínculos morte: “O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários”. Lázaro saiu vivo do túmulo, mas ainda preso pelas faixas. Portanto, o batismo é porta, mas há um longo caminho a ser percorrido. O Batismo não é fim, mas início de um processo de libertação contínua.6. A corresponsabilidade da comunidade para com os renascidos no batismo: “Desatai-o e deixai-o caminhar”. A comunidade recebe a missão de ajudar a libertá-los; ela é a imagem da Igreja que acompanha os batizados de modo efetivo, não apenas formal. Exige empenho, esforço e perseverança.7. O Sinal de Lázaro é anúncio antecipado da ressurreição de Jesus que vence definitivamente a morte. Lázaro volta à vida terrena; Jesus ressuscita para a vida eterna, penhor da nossa ressurreição. Portanto, o batismo nos une a essa vitória pascal.Estamos praticamente chegando ao final desse percurso quaresmal, cuja finalidade principal é dar passos no amadurecimento da fé que professamos, como aconteceu com aqueles que “tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram Nele”.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
