Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: Mt 11 25-30 - Cansados, Vinde a mim!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus evidencia as grandes expressões do amor de Deus, que enviou o seu Filho ao mundo; amando-nos com um coração humano, Jesus nos ensinar a amar verdadeiramente como Deus ama. A perícope evangélica deste ano (A) é uma pérola preciosa que nos ajuda a conhecer um pouco daquilo que era a oração de Jesus.  Podemos identificar três elementos fundamentais da oração de Jesus segundo o evangelho de hoje. Antes de tudo, a ação de graças: “Eu te louvo, ó Pai”. É uma oração que transborda de um coração cheio de gratidão, fruto de um reconhecimento diante daquilo que gratuitamente já foi oferecido pelo Criador, pois é Ele o “Senhor do céu e da terra”. Esta ação de graças de Jesus não se perde em louvores genéricos, nem repetições vazias de palavras bem elaboradas retoricamente, mas manifesta o reconhecimento diante da ação de Deus que não cria apenas o mundo, mas se faz presente na história concreta dos homens, revelando-lhes os seus desígnios e a sua vontade que é sabedoria para os simples e humildes. 
Considerando que o mais importante na oração não são as palavras humanas, mas aquilo que Deus revela, só os pequeninos são capazes de acolher essa manifestação. A palavra que geralmente se traduz por pequeninos (grego: nepioi) tem uma conotação específica que ajuda a compreender a necessária atitude para quem reza. Pequenino em grego significa “aquele que não fala” (o bebê, infante). Sem dúvida, a capacidade de se expressar através da palavra é uma das experiências mais vislumbrantes, porém, pode-se correr o risco de provocar um desequilíbrio a ponto de se fazer um mau uso das palavras, transformando-as em instrumentos de dominação das pessoas e manipulação ideológica da realidade. Portanto, ouvir bem antes de falar, garantirá falar bem e o bem.
A criança que ainda não fala não significa que não se comunica, mas o faz de modo mais intenso pois é todo o seu ser que se expressa. A mãe que conhece intimamente o seu bebê compreende toda a sua comunicação, as suas necessidades, o que sente e está passando sem precisar ouvir uma só palavra. Mais do que a explicação de conceitos por meio de palavras, o mais importante é a vivência profunda da relação que comunica o que há de mais necessário. A simplicidade predispõe o coração a abrir-se, sem complicações e preconceitos; a humildade abre a mente para acolher o bem que nos é oferecido sem impor-lhe exigências ou justificativas. 
A própria tradição sapiencial atesta que o louvor perfeito vem dos pequeninos: “Quão poderoso é teu nome... Pela boca das crianças e bebês tu o firmaste...” (Sl 8,1s). 
O segundo elemento da oração de Jesus é a sua consciência em relação ao Pai: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai”, reconhece assim a sua total dependência do Pai, e a sua condição de servo ao assumir a natureza humana, fazendo-se pequenino, passando também pela experiência de bebê, infante. Sendo Ele mesmo o Verbo eterno, a Palavra da vida, entra no mundo em silêncio e aprende a falar como homem, cuja palavra atinge a sua forma mais perfeita e elevada na oração. Mais uma vez, entre o Pai e o Filho não há palavras genéricas, conceitos teóricos, mas relacionamento, pois se conhecem, e isto não é possível sem convivência. A oração é experiência de conhecimento mútuo; o orante cresce no conhecimento de Deus com quem se relaciona e convive, e, ao mesmo tempo, toma consciência que Deus o conhece profundamente, e por isso não carece de suas informações, deseja apenas relacionamento amoroso.
O terceiro elemento é o convite: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos”, a autêntica oração torna-se testemunho de atração, convite para que outros também sintam o desejo e a necessidade de estabelecer relacionamento com Deus. A oração, mais do que palavras, é experiência de encontro que imprime no orante uma marca, algo que será visto pelos outros, provoca testemunho. Jesus ao convidar os cansados e fatigados a virem até Ele, está propondo um caminho a ser seguido, não apenas um lugar para acomodar-se. Não basta ir até ele com nosso cansaço, mas é necessário que tenhamos a disposição para aprender dele. Consequentemente, a oração é escola do discípulo; lá os simples e pequeninos ouvem mais do que falam. 
Nessa oração de ação de graças de Jesus deve se espelhar toda oração cristã, e sem dúvida, a nossa devoção ao seu Coração, transpassado não apenas pela lança, mas aberto pelo amor.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana