Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo: Jo 6,51-58 - O alimento que faz viver

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo evidencia que a Eucaristia é o coração pulsante da vida cristã, e não apenas um adorno devocional; é o próprio Mistério Pascal tornado alimento para o caminho. A liturgia de hoje nos recorda que Deus não se limita a “visitar” o seu povo, mas Ele permanece entre nós de um modo desconcertante: escondido no pão, silencioso, vulnerável, entregue. É o mesmo movimento da Encarnação: Deus que se abaixa para que ninguém fique sem acesso ao seu amor.
Na primeira leitura (Dt 8,2-3.14-16) a narração da experiência do povo que, na sua estrada rumo à Terra Prometida, passa pela humilhação de não ter o que comer e beber, serve de ocasião para a manifestação da bondade e misericórdia de Deus, que mesmo permitindo que o povo passe por momentos de privação e sofrimento, manifesta-lhe a sua presença providente e não o abandona, pois é Ele mesmo quem vai à sua frente conduzindo-o e alimentando-o. A imagem do povo em caminhada, seja Israel no deserto, seja a Igreja na história, é central para revelar a experiência de um Deus que está presente junto ao seu povo, sobretudo nas provações. A Eucaristia não é prêmio para os fortes, como nos lembrava o Papa Francisco, mas força para os fracos; não é um troféu para quem chegou, mas provisão para quem ainda está a caminho. 
A liturgia de hoje não pretende simplesmente reforçar práticas devocionais, sem desmerecer a sua importância quando vivenciadas de forma equilibra e coerente com o Mistério celebrado, mas nos convida a mergulhar nesse Mistério pois a Eucaristia é encontro, é relação, é comunhão. Quem se alimenta desse Mistério é chamado a tornar-se também pão partido para o mundo.
São Paulo na segunda leitura reitera que a Eucaristia não nasce de nós, mas nos é dada. Ela não é um círculo fechado de troca de experiências humanas, por mais belas que sejam, mas um movimento descendente, no qual Cristo nos atrai para dentro de sua própria vida. A Eucaristia é comunhão real com Cristo: “O cálice da bênção… não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos… não é comunhão com o corpo de Cristo?” Aqui, comunhão não é metáfora, mas participação efetiva no mistério pascal. A Eucaristia nos faz um só corpo: “Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo”. A unidade não nasce do consenso humano, mas da participação no mesmo Cristo. Quando reduzimos a Eucaristia a um encontro horizontal, ela perde sua força transformadora pois ficamos presos ao que sentimos, pensamos ou desejamos, e isso pode até gerar frustração, individualismo mascarado de solidariedade afetiva, sem consequências para a vida.
O evangelho de hoje é um pequeno trecho do longo discurso de Jesus sobre o Pão da Vida, cujo sinal da multiplicação dos pães e dos peixes (6,1-15) serviu de introdução. O evangelista quer mostrar que o verdadeiro milagre não é a multiplicação dos pães, mas a abertura do coração para reconhecer quem é Jesus. Depois da multiplicação dos pães, a multidão corre atrás de Jesus, mas não porque viu “sinais”, e sim porque comeu e ficou saciada. São João é explícito: eles procuram Jesus por causa do pão que perece, não por causa do Pão que permanece (6,26). A partir daí, todo o ensinamento de Jesus gira em torno da fé Nele. Condição fundamental para comer o pão eucarístico é crer Naquele que o oferece, a fim de ter a vida em plenitude. A Eucaristia não é apenas ingerir um alimento, mas é verdadeiramente participação na vida de Cristo: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Não é símbolo desprovido de realidade, nem muito menos uma metáfora pedagógica ou lembrança de coisas passadas; é comunhão real com sua vida entregue. 
A reação dos judeus: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” mostra que eles entenderam Jesus literalmente. Mais curioso é que Jesus não corrige essa interpretação, como alguns distorcendo o realismo do ensinamento de Jesus tentam fazer para tornar o que Jesus disse mais compreensível. Contudo, o escândalo tanto dos judeus do momento quanto dos incrédulos de hoje não é por causa da metáfora, mas do seu realismo intensificado pelo discurso de Jesus. No texto grego há uma mudança significativa: primeiro Ele usa phagein (comer, de modo geral: v.53), depois passa a usar trōgein (mastigar, roer: v. 54), um verbo ainda mais concreto. Portanto, isso demonstra que, diante do escândalo, Jesus não suaviza, mas aprofunda o sentido literal. 
O escândalo não é pedagógico, mas ontológico: Jesus está revelando algo que ultrapassa a lógica humana (o Pão vivo descido do céu, sua carne é verdadeira comida, seu sangue é verdadeira bebida, quem não comer e não beber, não terá vida), que não é metáfora, mas Mistério. Além do ensinamento sobre a verdade da sua entrega na Eucaristia, Jesus também revela a grande novidade da fundamental consequência dessa verdade (escatologia presente): “Quem come e bebe tem a vida eterna”. A vida eterna começa agora, quem se alimenta de Cristo já vive da vida que não morre.
Mesmo não fazendo parte do trecho proclamado hoje, não podemos prescindir da conclusão de todo o discurso que apresenta a reação dos discípulos, sem dúvida um alerta para todos nós pois diz respeito ao orgulho humano que incapacita aceitar aquilo que não cabe na razão, mas só na fé. 
Muitos de seus discípulos” deixaram Jesus após o discurso do Pão da Vida (Jo 6,66). Não foram alguns curiosos, nem opositores ocasionais, mas discípulos, gente que caminhava com Ele, que O seguia, que O admirava, porque não suportaram a verdade que Ele revelou: “A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida”. Eles não foram embora por falta de metáforas e suas explicações fáceis de compreensão, mas porque Jesus não recuou diante do realismo da Eucaristia. O problema não é a inteligência, mas é o orgulho que exige que Deus caiba nela. A Eucaristia não é rejeitada por ser irracional, mas por ser humilhante para o intelecto humano. Ela exige que o homem reconheça que não é medida de Deus, que não controla Deus, que não explica Deus. Só há um caminho para aproximar-nos dela: crendo. A fé é a porta, a humildade é a chave e o amor é o caminho. A Eucaristia é um dom de Deus para que a nossa vida alcance plenitude, porém a decisão de acolher esse dom é nossa: exige uma decisão humilde de quem crer; não é um objeto para nossas especulações racionalistas, mas uma prova de um amor que se entrega para alimentar a vida que não morre. 
Mesmo não compreendo, façamos nossa a profissão de fé de Pedro: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Essa confissão de Pedro tem uma força que atravessa séculos porque nasce exatamente não do entendimento pleno, mas da confiança apesar das perguntas, não porque compreendeu tudo, mas porque reconheceu Quem estava diante dele. É uma fé que não elimina a incompreensão, mas a atravessa. Uma fé que não exige explicações, mas se apoia na confiança. Uma fé que não nasce da clareza, mas da relação.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana