Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A Solenidade de todos os Santos e Santas de Deus nos favorece uma oportuna ocasião para recordarmos a meta de vida do ser humano: a santidade. O Concílio Vaticano II afirmou que a santidade não é privilégio de alguns, mas todos são chamados à santidade (cf. LG,39). As bem-aventuranças proclamadas por Jesus nos indicam o caminho para alcançarmos a plenitude da verdadeira felicidade. As Bem-aventuranças colocadas no início da vida pública de Jesus servem de uma consistente introdução àquilo que será desenvolvido em todo o resto do evangelho sobretudo em duas perspectivas complementares. Se, por um lado, as palavras de Jesus se dirigem aos seus ouvintes, ao menos como provocação ou proposta a ser acolhida, por outro, tudo o que Ele diz será demonstrado na sua própria vida e missão. Não seria forçoso dizer que Ele é o bem-aventurado por excelência. Não dá receitas fáceis para encontrar a felicidade mágica, mas a sua vida apresenta-se como o caminho para a verdadeira felicidade. Para além das dificuldades e sofrimentos, o destino de plenitude não será alterado. “Bem-aventurados os pobres em espírito”. Esta primeira afirmação de Jesus como garantia de felicidade é revestida de toda a autoridade, pois não se trata de uma proposição teórica, mas é a realidade da sua própria. A pobreza de Jesus não é tema de poesia ou pio conselho para os seus interlocutores, mas a configuração de sua existência terrena, é a marca distintiva da sua encarnação. São Paulo testemunha essa verdade quando afirma: “Com efeito, conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo, que por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza”. (2Cor 8,9).“Bem-aventurados os mansos (humildes)”. O que significa ser manso? A nossa sociedade apresenta a mansidão quase como apatia, inércia, acomodação. O manso é aquele que não reage, para quem tudo está bom. Esta é uma das bem-aventuranças que o próprio Jesus atribui a si mesmo: “Sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Corroborando com o aspecto convidativo da bem-aventurança, Ele explicita dizendo: “Aprendei de mim”. Portanto, se Jesus é o bem-aventurado por excelência, nenhuma bem-aventurança por Ele proclamada pode ser compreendida fora do alcance daquilo que Ele viveu e que, por sua vez, se tornou proposta de vida para quem O segue.“Bem-aventurados os aflitos”. Esta bem-aventurança evidencia ainda mais o caráter paradoxal da afirmação. Como é possível ser feliz sendo aflito? Em português “aflito” (latim: affligere, palavra composta do prefixo ad, “a, para”, mais fligere, “bater, golpear”) indica alguém que está interiormente angustiado, uma perturbação interior que o leva quase ao desespero, por ter sido atingido por algo externo que o levou a tal situação interior. Poderíamos dizer que o golpe externo foi tamanho que o desestabilizou a ponto de perder a direção. Aflito é, portanto, uma tentativa de traduzir a palavra grega penthountes (do verbo: penteo, lamentar, estar de luto, estar triste). É, então possível afirmar que esta bem-aventurança ocupa paradoxalmente o centro da nossa perspectiva, pois estamos falando do tema da alegria. A construção aparentemente contraditória das bem-aventuranças chega ao seu auge. Pois se bem-aventurança é felicidade, cujo sintoma é alegria, a infelicidade tem como sintoma a tristeza. “Bem-aventurados os que têm sede e fome de justiça”. Antes de tudo, a fome e sede usadas aqui como metáforas que indicam um sentimento de falta e busca intensos nos remetem a momentos decisivos e marcantes da história do povo de Deus. Sobretudo a caminhada no deserto é marcada pela fome e pela sede. Não ter o que comer ou beber não é idêntico a ter fome e sede. Sentir fome ou sede é algo próprio do ser humano, está inscrito no dinamismo vital do seu organismo. Por isso não tem conotação negativa. Sede e fome indicam os desejos mais genuínos do coração humano, pois os leva a realizar a vontade de Deus na sua vida. “Bem-aventurados os misericordiosos”. Jesus viveu intensamente essa bem-aventurança. O evangelho está repleto de situações em que vemos a misericórdia de Jesus em ato, e não apenas ensinamentos teóricos sobre o tema. A promessa: “E alcançarão misericórdia”, não significa uma espécie de seguro preventivo para tornar o outro o seu refém. Não tem como motivo reforçar a ideia de garantir a retribuição de cumplicidade na inversão de papéis: “hoje você errou, eu não o condenei, amanhã quando eu errar, você também não me condene!”. A misericórdia, na tradição bíblica, não se origina em nós, e, portanto, não é fruto de pactos ou concordatas entre cúmplices, mas amor verdadeiro que leva a comprometer-se com o outro, gerando comunhão na troca de bens espirituais e não cumplicidades nas gratificações de consciência. “Bem-aventurados os puros de coração”. Santo Agostinho afirma: “Tu que ainda não vês a Deus, merecerás vê-lo se amas o próximo; amando-o, purificas teu olhar para veres a Deus... Amando o próximo e cuidando dele vais percorrendo o teu caminho... É certo que ainda não chegamos até junto do Senhor, mas já temos o próximo conosco. Ajuda, portanto, aquele que tens ao lado enquanto caminhas neste mundo, e chegarás até junto daquele com quem desejas permanecer para sempre”.“Bem-aventurados os que promovem a paz”. Só há uma maneira de sermos chamados por Deus de filhos seus: participando da batalha do seu Filho, o verdadeiro construtor da paz. Não é possível ser chamado filho de Deus se não recebermos a graça da filiação que nos vem da morte e ressurreição de Jesus. O próprio Jesus, segundo a linguagem paulina, que é a nossa paz, nos ajuda a distinguir a paz que o mundo dá daquela que Ele alcançou para nós. “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça”. Esta oitava bem-aventurança introduz um tema muito presente no evangelho de Mateus que é a justiça, e muitas vezes qualificada como Justiça do Reino, diferente da justiça dos escribas e fariseus (5,20). O justo na Bíblia não é simplesmente aquele que cumpre uma lei, mas quem é capaz de discernir a vontade de Deus e colocá-la em prática.“Bem-aventurados sois vós... Alegrai-vos”. Chegamos assim à última bem-aventurança que, por sua vez, torna ainda mais evidente a sua lógica paradoxal. Poderíamos dizer que a primeira e a oitava bem-aventuranças dão o quadro externo do ensinamento inaugural de Jesus sobre a verdadeira felicidade e suas indispensáveis condições. A nona condensa, por assim dizer, todo o seu ensinamento. Esta bem-aventurança está desdobrada em cada uma das anteriores. Injuria e perseguição, acusação e mentira por causa de Jesus são vivenciadas por quem é manso, aflito, sedento e faminto de justiça, misericordioso, puro de coração, promotor de paz; tudo isso é claro sempre na lógica da justiça do Reino dos Céus. Se nos parece difícil viver o evangelho ao escutá-lo, tornar-se possível quando o vemos encarnado nos santos e santas, cujas vidas comprovam que é possível vivê-lo.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
