Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A ocorrência da Solenidade de São José durante o Tempo da Quaresma este ano não nos coloca dentro de um parêntese litúrgico, mas, pelo contrário, favorece-nos uma meditação profunda sobre as implicações e consequências da Encarnação do Filho de Deus na vida daquelas pessoas que lhe foram associadas mais diretamente, entre as quais se destacam a Virgem Maria e seu esposo São José, pois ambos participam misteriosamente dos sofrimentos do seu Filho, que desde o nascimento tem a vida assinalada pela perspectiva de morte e ressurreição.São José recebe o privilégio de participar antecipadamente desses momentos, já que segundo a Tradição já havia falecido quando Jesus passou pela morte e ressuscitou. Essa participação se realiza ao enfrentar na sua própria vida a dor e o sofrimento por causa do seu compromisso esponsal com aquela que fora chamada para ser a mãe do Filho de Deus, que aceitou ser chamado filho do carpinteiro. Assim como na vida do seu Filho o silêncio foi determinante para discernir e aceitar a vontade de Deus (Jesus silenciou em muitos momentos, e cada silêncio tem um significado profundo. A cena mais marcante é diante de Herodes, quando Ele foi interrogado durante o julgamento. Herodes fez muitas perguntas, mas Jesus não respondeu nada, cf. Lc 23,8-12; durante a paixão seu silêncio também cumpria profecias, como a do Servo Sofredor que “não abriu a boca”), também São José aparece no evangelho como o homem do silêncio.“Não querendo denunciar Maria, resolveu abandoná-la em segredo”. Nenhuma palavra dele foi registrada pelos evangelistas. O silêncio de José não é ausência, mas presença madura: “Era justo”. Ele não se impõe, não disputa espaço, não exige explicações de Deus. Ele escuta, e essa escuta o torna capaz de agir com firmeza e ternura ao mesmo tempo. O silêncio de José não é fuga, é busca. Ele não age impulsivamente, não se deixa dominar pela suspeita, nem pela raiva. Ele mergulha no silêncio porque sabe que é ali que Deus fala. Antes que o anjo apareça, José já está se movendo na direção certa. O sonho não corrige José, mas confirma a bondade que já havia em seu coração. É no silêncio que ele acolhe o mistério da encarnação, como o seu Filho aceitou beber do cálice do sofrimento; é no silêncio que ele discerne a vontade de Deus: proteger Maria e Jesus. Pois evitando denunciá-la, evita a morte da mãe grávida, que seria também a morte do filho em seu ventre.Quando o Evangelho o chama de “justo”, não está falando apenas de moralidade, mas de alguém em sintonia com o coração de Deus. A justiça de José não é legalista; é misericordiosa. Ele não quer expor Maria, não quer humilhá-la, não quer condená-la. O texto grego reforça isso: lathra — “em segredo”, “silenciosamente”. Ele escolhe o caminho mais difícil: proteger Maria mesmo sem compreender.Três atitudes definem a justiça de José: escutar a Palavra que lhe chega em sonho; discernir quando não age por impulso, mas pondera; e obedecer quando faz o que Deus pede, mesmo sem compreender tudo.“Não temas receber Maria, o que nela foi gerado vem do Espírito Santo”: o que até então era pesadelo, a perda de Maria, a confusão, o medo, torna-se revelação. O anjo não apenas explica o que aconteceu, mas convida José a participar do plano de Deus.“Tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”: ao dar o nome “Jesus”, José cumpre sua missão paterna e ao mesmo tempo reconhece publicamente a identidade do Menino: “Deus salva”. Dar o nome é assumir a paternidade legal. Deus pede a José que entre na história da salvação não como espectador, mas como pai, guardião, educador; mesmo não tendo gerado biologicamente Jesus, José é verdadeiramente o seu pai, pois gerou a sua identidade pública, sua inserção no povo, sua missão histórica. Mesmo sem estar aos pés da cruz para testemunhar a realização da promessa contida no nome que ele deu ao menino, José se torna arauto dessa profecia e, portanto, misteriosamente e em esperança é transportado ao calvário. Pois é lá que Deus salvará o seu povo dos seus pecados. “Quando acordou, José fez como o anjo do Senhor havia mandado”: se colocarmos em paralelo o início do evangelho de São Mateus e o início do Gênesis, podemos perceber uma analogia muito inspiradora: dois despertares (Adão e José). Adão, mergulhado no sono, desperta diante do dom que Deus lhe preparou: Eva, a companheira que o livra da solidão. José, tomado pelo tormento de perder Maria, adormece angustiado e desperta com uma revelação que transforma tudo: “Não temas receber Maria, tua mulher”. Em ambos, o despertar é um encontro com o dom de Deus. Mas em José há algo ainda mais profundo: Deus não apenas devolve Maria a ele, mas o convida a participar do maior sonho divino, a Encarnação. José acorda não apenas consolado, mas convocado.A fé que se manifesta em gestos, não em discursos; São José não diz uma palavra, mas sua vida inteira fala através de grandes lições de quem ama sem possuir, protege sem dominar, obedece sem questionar, e crê sem ver. Sem sombra de dúvida, a vida de São José é a encarnação do Evangelho antes de ser proclamado pelo seu Filho. São os caminhos de Deus que ferem toda lógica humana. Pois para Deus nada é impossível. Que esta solenidade nos ajude a mergulhar ainda mais na preparação para celebrarmos o mistério da morte e ressurreição de Jesus, redescobrindo a necessidade de silenciar, aprendendo com o silêncio de São José que é um convite a desacelerar, a escutar mais, a confiar mais, a agir com mais pureza de intenção, discernindo acima de tudo, a vontade de Deus.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
