Solenidade de Pentecostes: Jo 20,19-23 - Pentecostes: o sopro que gera vida

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A celebração de Pentecostes não nos recorda apenas um episódio extraordinário dos primórdios do Cristianismo, mas é a memória viva daquele acontecimento que significou o verdadeiro parto da Igreja, a comunidade das testemunhas do Ressuscitado cuja gestação se deu durante toda a sua vida pública, quando tudo estava sendo preparado. A Palavra gerava fé nos discípulos, a convivência com o Mestre formava o coração apostólico, o primado de Pedro estruturava a unidade, os sacramentos fundamentais da vida da Igreja eram inaugurados (especialmente Batismo e Eucaristia). Contudo, o próprio Jesus anunciara a vinda de outro Defensor, que permaneceria com os discípulos, o Espírito da verdade (cf. VI Domingo do Tempo Pascal): a força interior que transformaria discípulos medrosos (trancados no cenáculo) em testemunhas corajosas para todo o mundo (1ª Leitura). 
Com a vinda do Espírito Santo, a Igreja deixa de ser apenas um pequeno grupo reunido em torno de lembranças e promessas e se torna um corpo vivo, animado pelo Espírito, capaz de anunciar Cristo “até os confins da terra”. Pentecostes é o elo entre os dois momentos fundamentais da história da salvação: a ação de Cristo, que prepara, forma, institui, e a ação do Espírito, que atualiza, vivifica, envia. Sem o Espírito, a Igreja seria apenas uma instituição humana tentando conservar a memória de um grande mestre, e que naturalmente diante das vicissitudes do tempo deixaria de existir. Porém, com o Espírito, ela se tornou sacramento vivo de Cristo no mundo, capaz de iluminar, converter, curar e renovar.
Ao anoitecer daquele primeiro dia”: ouvir mais uma vez esse relato (cf. II Domingo do Tempo Pascal) pode nos parecer um movimento circular fechado. Mas a consciência de que estamos celebrando o Mistério Pascal ajuda-nos a perceber que nada se repete, pelo contrário, somos conduzidos pelo Espírito a uma experiência ainda mais profunda dessa realidade de fé, aproximar-se do Mistério Pascal não é diminuí-lo para caber na nossa cabeça, mas perceber o quanto somos pequenos diante de sua magnitude. Mas que Deus nos permite ser alcançados por ele. 
O “anoitecer” em São João não é apenas uma referência cronológica, mas indica uma realidade espiritual, o medo, o fechamento, a incerteza. É nesse ambiente que Jesus entra, e não entra apenas numa sala física, mas no interior da comunidade (“Pondo-se no meio deles”), no “útero” onde a Igreja estava sendo gerada, cujo clímax se deu na cruz, da água e do sangue que jorram do lado aberto (cf. Jo 19,34). A comunidade está grávida da vida nova. Jesus ressuscitado atravessa portas fechadas e penetra corações medrosos. O medo e a incredulidade são as verdadeiras portas trancadas. Quando Ele entra, não o faz para repreender, mas para fortalecer a fé, infundir coragem, confiar a missão, fazer nascer a vida nova, é um movimento de um parto espiritual, como Ele mesmo, às vésperas da morte, anunciara: “A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora” (Jo 16,21). A “hora” de Jesus, a sua paixão, é também a “hora” da Igreja, pois ela viveu a dor da morte e da ausência, experimentou o medo, a sua paz foi abalada. Agora, com o Ressuscitado presente, chegou o momento do nascimento.
 “A paz esteja convosco”: podemos dizer que este é o grito do parto, anúncio da vida concedida na cruz. O Shalom desejado por Jesus não é tranquilidade emocional, nem muito menos ausência de conflito, mas é, conforme a tradição bíblica, a plenitude messiânica, o sinal de que a obra está consumada.
Mostrou-lhes as mãos e o lado”: as marcas da cruz são a prova de que Ressuscitado é Aquele mesmo que morreu na cruz; sem sangue não há vida. As mãos e o lado além de provarem que é o mesmo Senhor, são marcas de parto: o sangue que gerou a Igreja, o amor levado “até o extremo” (Jo 13,1). O Ressuscitado não apaga as feridas, pois se correria o risco de perder a memória da sua prova absoluta de amor; Ele as transforma em fonte de vida, lado ao ser traspassado revelou que seu coração estava sempre aberto.
Os discípulos se alegraram por verem o Senhor”:  a alegria é sinal de que o parto aconteceu, a vida nasceu; não é simples euforia, mas testemunho de que Jesus realiza o que prometeu: “A vossa tristeza se transformará em alegria” (Jo 16,20). Portanto, a comunidade nasceu. 
Soprou sobre eles”: a Igreja respira pela primeira vez. Quando Jesus sopra sobre os discípulos, São João usa o mesmo verbo da criação do ser humano em Gn 2,7 (grego: enephúsesen). No Gênesis, Deus sopra e o homem vive, no Cenáculo, Jesus sopra e a Igreja vive. Portanto, o parto se completa no sopro, pois é o instante em que o recém-nascido abre os pulmões e começa a existir plenamente; sem o Espírito, a Igreja seria apenas um grupo assustado. O Espírito é dado em vista da realização da missão que acabava de ser confiada: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Se colocarmos em paralelo essa afirmação com as palavras de Jesus na última ceia: “Assim como o Pai me amou, eu vos amei” (Jo 15,9), veremos com clareza que a missão tem como fundamento e finalidade o mandamento do amor. Com o Espírito, a Igreja se torna um corpo vivo, capaz de crer, amar, perdoar, testemunhar.
Junto ao dom da paz, do Espírito e da missão, o Ressuscitado confirma a sua obra redentora como reconciliação com Deus, o perdão dos pecados, agora confiado como ministério exercido pela Igreja: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”; a missão da Igreja é essencialmente reconciliadora. Porém, não se trata de poder humano, concessão afetiva, mas de participação na própria missão de Jesus, que veio para tirar o pecado do mundo (Jo 1,29), salvar, não condenar (Jo 3,17), reunir os filhos dispersos (Jo 11,52). O Ressuscitado confia à Igreja aquilo que Ele mesmo realizou na cruz, por amor, isto é, reconduzir a humanidade ao Pai. Isso revela que o perdão nasce das feridas do amor, a reconciliação é fruto do sangue derramado. A Igreja, por sua vez, só pode perdoar porque foi gerada do lado aberto de Cristo, pois o ministério da reconciliação não é administrativo, é sacramental, existencial, pascal.
Diante de tudo isso, seria contraditório celebrar o Pentecostes numa perspectiva de conclusão, ponto final; ainda que formalmente encerramos o Tempo Pascal. O sopro do Espírito impulsiona para a missão, escancara as portas do medo e nos renova no compromisso de testemunhas do Ressuscitado que nos garante a sua presença quando nos reunimos em seu nome, partimos o pão, e nos amamos uns aos outros como Ele nos amou. Se na noite de Páscoa adentramos na Igreja atraídos pela luz do ressuscitado, e durante cinquenta dias renovamos a nossa consciência de batizados, agora, movidos pelo Espírito, prossigamos o caminho da missão.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana