Solenidade de Cristo Rei: Lc 23,35-43 - A cruz: o trono do verdadeiro Rei

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo, mais do que concluir o ano litúrgico, proclama a certeza de que toda a história da humanidade se encaminha para a instauração definitiva do “reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz”, cujo rei não subiu num trono para governar despoticamente, mas se deixou pregar na cruz para testemunhar o seu amor-serviço à humanidade, “oferecendo-se como vítima pura e pacífica, realizando assim o mistério da redenção humana” (prefácio da solenidade). 
Ainda que se verifiquem ao longo da história dos povos (bíblicos e extrabíblicos) experiências monárquicas com elementos negativos (tirania, opressão, injustiças), não se pode, por outro lado, negar outras inúmeras cujos reis/rainhas se destacaram pela fidelidade à sua missão de governar com justiça e equidade, sabedoria e retidão seus súditos. Na própria Tradição Bíblica encontramos essa diversidade de experiências. Portanto, não é justo evitar chamar Deus de rei porque alguns reis da terra faliram no exercício do seu múnus. Chamar Deus de rei não se justifica meramente pelo seu aspecto histórico-cultural, mas pelo seu alcance teológico consolidado pela Revelação, cujo ponto alto está na mensagem central do evangelho que é, por sua vez, o anúncio do reino de Deus. As expressões semanticamente iguais (Reino de Deus x Reino dos céus) aparecem nos evangelhos sinóticos cerca de 80 vezes, sobretudo nos ensinamentos de Jesus (Mateus 31x | Marcos 14x | Lucas 32x). 
Não chamamos Jesus de rei inspirados nos reis terrenos, mas reconhecemo-Lo rei por fidelidade ao seu ensinamento e por coerência de fé. Ele mesmo evidenciou a diferença entre o seu reino e os reinos deste mundo: “Os reis das nações as dominam, e os que as tiranizam são chamados benfeitores. Entre vós não deverá ser assim” (Lc 22,25s). Ademais, o princípio da encarnação respeita o aspecto de continuidade com as expectativas veterotestamentárias que anunciavam a chegada Daquele que herdaria o trono de Davi: “Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre” (Lc 1,32s). A grande parte do ensinamento de Jesus, sobretudo as coleções de parábolas, diz respeito ao anúncio da proximidade e chegada do reino de Deus (dos céus). O evangelho de São Marcos resume assim toda a missão de Jesus: “Jesus veio para Galileia proclamando o evangelho de Deus: Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,14-15). Parece um tanto contraditório, se não incoerente, falar do reino sem mencionar o seu rei. Não se pode anunciar o evangelho de forma coerente apresentando apenas alguns de seus aspectos isolados; corre-se o risco de manipulações ideológicas quando se fala do reino, mas exclui-se o seu rei.  
A cena do evangelho de hoje reafirma a realeza de Cristo absolutamente impossível de ser associada ou assemelhar-se a quaisquer realezas terrenas. O diabo no início do evangelho propôs a Jesus um outro tipo de reino: “Eu te darei este poder com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser” (Lc 4,6). Contudo, essa troca também significaria Jesus abdicar de sua filiação para ser adotado pelo diabo: “Se te prostrares diante de mim”, ou seja, trair a missão que o Pai lhe confiou, desobedecer a sua palavra e abandonar o caminho da cruz, e, assim, realizaria tudo aquilo que no calvário lhe estava sendo proposto: “Salva-te a ti mesmo”. Salvar-se a si mesmo significa descer da cruz, não morrer. A consequência de tal opção é o que mais o diabo almeja: a perdição da humanidade. Jesus salvando-se a si mesmo não seria capaz de salvar a humanidade, contradizendo a sua missão: “Eu vim para servir e não para ser servido, e dar a vida em resgate de muitos” (Mt 20,28). 
No horto, Jesus já tinha vencido essa tentação: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita” (Lc 23,42). Naquela ocasião, apareceu-lhe um anjo do céu para consolá-lo, agora na cruz é um dos malfeitores que não apenas o consola, mas o defende com lucidez e honestidade: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós é justo, mas Ele nada fez”. Com esta atitude, o que foi chamado pela Tradição de o Bom Ladrão, nos ensina que solidarizar-se com o Jesus sofredor é o caminho para participar da glória do Cristo ressuscitado: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reinado”. Muitos querem apenas participar da glória do ressuscitado, mas nem sempre estão dispostos a solidarizar-se com o crucificado, prefeririam inclusive que Ele não tivesse sido pregado na cruz, assim esvaziam a sua proposta de seguimento: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a sim mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Lc 9,23).  
É muito significativo que São Lucas tenha colocado no centro dos insultos e blasfêmias dos chefes, dos soldados e de um dos ladrões a solene declaração: “Acima Dele havia um letreiro: Este é o Rei dos Judeus”. Expressão carregada de ironia (zombaria dos chefes), provocação (blasfêmia do ladrão), mas sobretudo portadora de anúncio profético (testemunho e súplica do bom ladrão).
As palavras conclusivas do evangelho nos dão o significado profundo da solene liturgia de hoje: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Quando Adão e Eva pecaram, isto é, se apropriaram de algo que lhes era proibido tocar, e comeram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, quase que numa atitude de subtração (roubo), simbolicamente se tornaram ladrões, usurparam algo que era de Deus (conhecimento do bem e do mal), por isso, foram expulsos do paraíso (cf. Gn 3,24). A partir dali, inicia-se um caminho de busca de retorno ao paraíso. A Lei (Torah) foi dada como uma espécie de mapa para orientar esse retorno, porém não foi capaz de realizar tal objetivo, uma vez que o seu cumprimento se tornou impossível por causa da infidelidade e desobediência do povo. Porém, o desejo de o ser humano voltar ao paraíso perdura pois ele foi criado no e para o paraíso (comunhão plena com Deus: plenitude de vida: Gn 2,8). Para abrir-nos as portas do Paraíso, Deus enviou o seu Filho; Jesus é o caminho de volta para o paraíso (cf. Jo 14,6). Estar com Jesus hoje é para o bom ladrão entrar no paraíso, é participar do seu reino eterno, cuja realização plena aguardamos também nós na conclusão da história da salvação.
Proclamar a sua realeza é reconhecer o seu senhorio sobre o mal, sobre o poder do maligno que nos induz a desobedecer a vontade de Deus, nos tornando assim ladrões, cuja decisão pode ser solidarizar-se com o Rei Jesus pregado na cruz e alcançar a salvação, ou nos fecharmos ao seu amor, e querer Dele apenas que nos tire da cruz sem nos salvar. 
Desejar o reino rejeitando o rei é usurpação, é recair no orgulho e soberba dos nossos primeiros pais, expulsos do paraíso; confessar a realeza do Filho de Deus cujo trono é a cruz, sinal de sua fidelidade e entrega generosa de sua vida para a nossa salvação, é acolher o dom salvação que nos é oferecida na árvore da vida (a cruz), é entrar no paraíso. Mais do que nos empenharmos para instaurar o reinado de um povo, sem Rei, devemos proclamar a realeza Daquele que na cruz nos deu a possibilidade de reinar com Ele: “Fiel é esta palavra: Se com Ele morremos, com Ele viveremos. Se com Ele sofremos, com Ele reinaremos. Se nós o renegarmos, também Ele nos renegará. Se lhe somos infiéis. Ele permanece fiel, pois não pode renegar-se a si mesmo” (2Tm 2,11-13).



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

 
 
 

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