Solenidade da Santíssima Trindade: Mt 28,16-20 - “Deus é único, mas não solitário!”

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A Solenidade da Santíssima Trindade não nos favorece um momento de especulação sobre o Mistério de Deus, insondável e inefável; diante desse mistério é impossível encontrar uma palavra humana que possa explicá-lo. Professar a fé na Trindade é reconhecer, nas manifestações da história da salvação, o que Deus tem feito por nós. Quando rezamos o Credo, símbolo da nossa fé, não estamos simplesmente dizendo quem é Deus na sua verdade eterna, mas estamos proclamando o seu eterno amor revelado e realizado na nossa história através de situações bem concretas (Criação, Encarnação, Salvação). 
O evangelho de hoje não é apenas um dado escriturístico para fundamentar o Dogma Trinitário, mas é a síntese de toda a Boa Notícia de Jesus, o Messias (Ungido pelo Espírito), o Filho do Homem (Deus encarnado) e Filho de Deus (Palavra do Pai). Ele é o Emanuel, o Deus-conosco (Mt 1,23). E tal síntese não pretende fazer um discurso sobre Deus na sua essência, mas é a narração daquilo que Deus faz por nós no seu amor. Não é um Deus distante, que se perde como um conteúdo especulativo, mas se revela em Jesus, pois Nele tudo se cumpre, uma vez que: “Toda a autoridade sobre o céu e sobre a terra me foi entregue”. No evangelho de Mateus, autoridade (grego: exousia) está relacionada ao modo de ensinar e agir de Jesus em oposição à autoridade formal dos mestres e doutores da Lei, que não permitiam o acesso do povo às riquezas do Reino (Mt 23,13). Portanto, pelas suas ações e ensinamentos, Jesus abre a porta para se adentrar no Mistério de Deus, porque é Ele mesmo o Deus que assumiu e entrou no mistério do ser humano. 


Mateus diante da pergunta: “Quem é Jesus?”, fez uma escolha didático-teológica, isto é, à luz do Antigo Testamento, sobretudo a partir de alguns personagens e eventos importantes (Mt 1,1-17), apresentou o mistério da pessoa de Jesus como a realização plena da revelação de Deus que teve seu início no evento do Êxodo quando Moisés, diante da sarça ardente, pergunta quem Ele é e recebe a solene resposta: “Sou o que sou” (IHWH Ex 3,14). 
O evangelista, para alcançar o seu objetivo, estabelece um paralelo incontestável entre Jesus e Moisés, e emoldura todo esse conteúdo com episódios semelhantes entre os dois: Moisés ao nascer teve a sua vida ameaçada pela ordem do Faraó, que mandou matar todos os meninos (Ex 1,16s), Jesus igualmente por ordem de Herodes teve que fugir da perseguição (Mt 2,13s). Moisés passou 40 anos no deserto de Madiã se preparando para assumir a sua missão (Ex 3,1s), Jesus por 40 dias esteve no deserto se preparando para sua vida pública (Mt 4,1s). Por Moisés, os mandamentos foram entregues ao povo (Dt 5,5s), Jesus é aquele que veio levar a cumprimento toda a Lei e os Profetas (Mt 5,17). 


A perícope hodierna, que é a conclusão do evangelho de Mateus, também reforça o paralelo entre Jesus e Moisés, pois ambos finalizam a sua missão sobre um monte, incumbindo a outros a sua continuidade (Moisés a Josué Dt 34,1s; Jesus aos onze). Apesar do evidente paralelismo, Mateus agora dá um salto de superioridade entre Jesus e Moisés, pois este sobe o monte, mas não entra na terra prometida, enquanto que Jesus sobe o monte para garantir aos seus que os conduzirá à plenitude da vida. Os discípulos se prostram diante de Jesus pois o reconhecem o Senhor ressuscitado, vencedor da morte e cuja autoridade e poder lhe vêm do Pai. Por outro lado, os israelitas choraram a morte de Moisés e o sepultaram (Dt 34,8). As últimas palavras de Moisés, consideradas o seu Testamento (Dt 33), são bênçãos dadas aos filhos de Israel; no evangelho, as últimas palavras de Jesus aos onze: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos meus”, mais do que uma bênção restrita a um povo (12 tribos), é um modo de viver (discipulado) oferecido a todas as nações como caminho de salvação.
Moisés é sepultado e sua sepultura foi esquecida no tempo e nem se sabe mais onde se encontra (Dt 34,6). Jesus anuncia a participação na sua morte (o batismo cristão: morrer, ser sepultado; e ressurgir: imersão e emersão), mas na certeza da ressurreição, pois não será apenas mergulho na morte, mas em Deus que é a fonte da vida eterna: “Batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. 
Contudo, o batismo não é um rito mágico que produz uma nova realidade, mas é uma porta que conduz a um longo caminho: “ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei”. Sem o discipulado, o batizado será apenas uma planta molhada superficialmente, mas que não tem raízes na terra, logo que secar a água, ela não poderá subsistir mais. Por fim, as últimas palavras de Jesus fazem a grande revelação de quem é Deus. Se para Moisés Deus é “Aquele que é, que era e que vem”, agora nas palavras e ações de Jesus, Deus se revela como: “Eu convosco sou sempre”. Apesar de a tradução usual ser: “Estarei convosco até o fim”, no grego a construção literal (ego meth umin eimi) separa o “eu” do “sou” para colocar o “convosco” no meio. É a grande revelação do que Deus faz por nós, não quer apenas estar próximo de nós, mas assumindo a nossa condição nos colocou Nele para vivermos em comunhão com Ele, pois apesar de ser único, não é solitário.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana