Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A celebração de hoje não visa explicar o Mistério da Trindade, mas é uma verdadeira proclamação da fé da Igreja, que como afirma São Cipriano (+258): “É um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A Igreja fazendo memória das diversas etapas da História da Salvação soube deduzir, a partir da revelação histórica, que Deus em si mesmo é Uno-Trino, mas porque ama, se revela, deixa-se conhecer não só pelo intelecto, mas sobretudo pelo coração. A fé trinitária, celebrada liturgicamente desde os primórdios, teve por volta dos sécs. XI-XII uma solenidade própria na Igreja Romana, no domingo seguinte ao de Pentecostes. Na verdade, constitui uma síntese de todo o ano litúrgico. No ciclo trienal, as leituras evidenciam a realidade do verdadeiro Deus que se autocomunica à sua criatura por excelência, a humanidade (um dos significados de Kosmos no IV Evangelho). Neste ano (A), contemplamos a Trindade como comunidade de amor que se revela na misericórdia, cujo ápice é a vinda da Segunda Pessoa Divina ao mundo, para salvá-lo. A Sagrada Escritura não descreve a Trindade com um tratado filosófico, mas narra a história de Deus com o seu povo, encontros, alianças, libertações, chegando ao seu ponto alto na encarnação do Filho eterno, a sua cruz, a ressurreição e o dom do Espírito Santo em Pentecostes. É a partir dessa história de revelação que a fé da Igreja se enraíza e reconhece o Pai como fonte de amor e vida, o Filho como aquele que nos revela o Pai e nos salva, e o Espírito Santo como aquele que nos conduz à verdade plena e nos santifica. A revelação da Santíssima Trindade é, antes de tudo, um movimento de amor que nos alcança como nos ensina Jesus no evangelho de hoje: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito”. Se no Antigo Testamento a iniciativa de Deus é criar (cf. Gn 1-2), o núcleo central do Novo Testamente tem como inciativa de Deus amar para salvar, oferecendo o Seu Filho ao mundo. Porém, a resposta humana a esse dom, fé ou rejeição, determina o seu destino eterno: “Para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna... Mas quem não crê, já está condenado”. Não devemos esquecer que essas palavras de Jesus fazem parte de um longo diálogo com Nicodemos (cf. Jo 3,1-21), que trata de novo nascimento, revelação, fé e julgamento eterno. Se para Nicodemos, até então, a salvação era garantida pelo fato de ter nascido numa estirpe humana, o povo judeu, agora Jesus revela que isso não é suficiente, é preciso nascer do alto (de novo), pela água e pelo Espírito Santo (v. 5). Portanto, é a fé em Jesus que garante a salvação. Acreditar, na perspectiva joanina, significa aderir, acolher, entrar em relação; mais do que um mero assentimento intelectual, crer leva a um novo nascimento (v. 3-8), obra do Espírito. A vida eterna, por conseguinte, não é apenas uma realidade para o pós-morte, mas participação na vida divina já agora (cf. 11,26; 17,3).“Deus não enviou o Filho para condenar o mundo”: a missão do Filho é salvar, iluminar, restaurar. Pois nele estava a vida (Prólogo). A condenação não vem de Deus, mas da recusa humana à luz (cf. 3,19-21). Ao enviar o Filho, o Pai realiza o mais sublime ato de misericórdia, e não de juízo condenatório. “Quem crê não é condenado; quem não crê já está condenado”. A condenação é consequência da não abertura ao amor. São João entende o juízo como autojulgamento: a luz veio ao mundo, mas a rejeitaram, e quem a rejeita permanece nas trevas. Diante do amor do Pai que envia seu Filho, a fé é o critério do juízo porque é a porta de entrada na comunhão trinitária, pois a salvação não é um ato isolado, mas obra conjunta da Trindade.Em termos teológicos, percebemos nesse pequeno trecho um duplo movimento: descendente (v. 16-17): o Pai porque ama, envia; o Filho porque ama o Pai, se entrega. Implicitamente o Espírito (no contexto 3,5-8) regenera e conduz à fé. Por outro lado, temos um movimento ascendente (v. 18): o ser humano responde com fé e tem a vida ou rejeita o Filho e se condena. A vinda do Filho é ao mundo, para a humanidade e não apenas para uma parcela dela, logo a salvação é oferta universal, mas exige acolhimento pessoal. O tema do julgamento segundo São João diz respeito ao presente, e não é apenas escatológico, é consequência da reação humana à luz, e tem como referência a revelação, não um tribunal futuro.O mais importante da celebração de hoje, a partir do que Jesus nos revela sobre Deus no seu ensinamento, é acolher o que a verdade da Trindade significa para nós, isto é, que somos amados, salvos e habitados por Deus. A Trindade é o modelo de vida; se Deus é comunhão, então não fomos criados para o isolamento, a vida cristã é sempre relação, e a Igreja é chamada a ser sinal de unidade que é a harmonia das diferenças, uma vez que o amor é o critério último da fé. A Trindade não é um conceito distante, mas a forma como Deus nos envolve e transforma. A Festa da Santíssima Trindade nos convida a nos aproximar de Deus não como enigma a ser decifrado, mas como dinâmica de amor que se doa e convida à comunhão.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
