Solenidade da Assunção de Maria: Lc 1,39-56 - O Altíssimo se abaixou para elevar a Sua Serva

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A Solenidade da Assunção de Maria não é simplesmente mais uma justa homenagem que a Igreja presta àquela que, antes mesmo de ser reconhecida e amada pelos filhos que adotou, recebeu do próprio Deus a grande honra e glória de ser a Mãe do Seu Filho. Hoje, não recordamos apenas uma longa tradição devocional que culminou na solene proclamação dogmática da Igreja (por Pio XII em 01.11.1950), mas com esta celebração nos sintonizamos com uma verdade que reafirma o poder do Altíssimo, que fez grandes coisas na sua pobre e humilde serva, chamando-a de Nazaré para um dia ser do céu. Entre essas grandes maravilhas que o Todo-poderoso realizou nela, resplandecem a sua eleição e vocação: “Achaste graça diante de Deus”, a sua Maternidade Divina: “De onde me vem a graça que a Mãe do meu Senhor venha me visitar”, e o dom da salvação a ela concedido, pois foi preservada de toda mancha de pecado, tornando-se a primeira morada no mundo da Palavra Encarnada: “O Espírito Santo descerá sobre ti”. Quem a quis como sua morada na Terra, certamente a levou para sua morada no céu.
Se ao malfeitor foi garantida a entrada no paraíso naquele mesmo dia de sua morte (cf. Lc 23,43), quanto mais não seria a entrada na plenitude da vida para aquela que foi aqui na terra o primeiro Tabernáculo do Filho do Altíssimo! Se ao malfeitor pendente de uma cruz, sentenciado por causa dos seus crimes, o Salvador garante-lhe a salvação eterna já naquele “hoje”, quanto mais não seria a salvação uma realidade atual para aquela que O acolheu no ventre, ao encarnar-se, e O recebeu nos braços ao ser descido da cruz!


A nossa fé Católica não se contenta apenas em cantar: “o meu Deus é o Deus do impossível”, mas crê nos acontecimentos que comprovam esta verdade, pois aquilo que é impossível para os homens: uma criatura humana ser elevada aos céus; para Deus não o é. A própria fé bíblica atesta que “Ele não deixa inacabada a obra que suas mãos começaram” (Sl 138,8). Maria é a obra prima das mãos de Deus na nova criação. Ele a quis como Mãe do Vivente, do Primogênito dentre os mortos. Portanto, como poderia a Mãe Daquele que vive para sempre não ter parte na sua ressurreição, uma vez que participou da sua vida e da sua morte?! Como poderia jazer na sombra da morte, e ser aprisionada num túmulo, aquela que acolheu no seu seio o autor da vida e o vencedor da morte?! Como poderia permanecer no sono da morte, aquela que foi feita a aurora da Salvação, aquela que presenciou o raiar do novo dia e foi iluminada pela luz que não se apaga?!


A subida de Maria para os céus não se deu apenas no momento de sua morte, pois toda a sua vida foi um constante elevar-se para Deus. Indo à casa de Isabel para testemunhar o impossível do poder de Deus, que faz da estéril, mãe feliz em sua casa (cf. Sl 113,9), é proclamada também ela feliz por ter aceito ser a casa de Deus, ao acolher no seu ventre o fruto bendito.  Mãe e filho reconhecem quão alta é a montanha desse encontro, pois experimentam uma intensa alegria fruto da presença e saudação daquela que foi proclamada “plena de graça”. Maria transbordante dessa graça começa a derramá-la sobre aquele que será o precursor do seu Filho. A magnitude do grito de Isabel (grego: anefovesen kraugê megalê: proferiu em grito grande) não está tanto no volume de sua voz, mas na grandeza daquilo que ela proclama, pois estava cheia do Espírito Santo ao exclamar: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” Alegria de Isabel e os pulos de exultação de seu filho, o maior profeta nascido de mulher (cf. Mt 11,11), indicam que a profecia de Isaías está se cumprindo: “Entoa alegre canto, ó estéril, que não deste à luz; ergue gritos de alegria, exulta, tu que não sentiste as dores de parto...” (Is 54,1). São Paulo vai atribuir essas palavras à Igreja, a quem chama a Jerusalém do Alto (Gl 4,27), o Povo da Nova Aliança, que é livre e nossa mãe. Um pouco antes, Paulo já havia afirmado que este novo povo foi constituído herdeiro, “Quando na plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher...” (Gl 4,4). Isabel reconhece em Maria esse novo povo, não mais formado por laços de sangue ou de membros de uma raça, mas um povo reunido pela mesma fé: “Bem-aventurada aquela que acreditou” (note-se que não diz “tu”, mas “aquela”, modo de indicar que Maria passa de uma pessoa individual para uma personalidade corporativa, representativa de uma coletividade). Na tradição bíblica, tanto o povo de Israel quanto a Igreja são representados por uma mulher (esposa, noiva, a mulher da 1ª leitura).  Maria responde à proclamação de Isabel com o Magnificat, cântico-memorial dos grandes feitos do Todo-Poderoso ao longo da história do seu povo e, ao mesmo tempo, reconhece sua pequenez, assumindo o compromisso de continuar sendo a serva do Senhor, ainda que tenha sido elevada à dignidade de mãe do Rei; e mesmo sentada à sua direita, por direito, “com veste esplendente de ouro de Ofir”, continua junto ao seu povo anunciando aos humildes e famintos, que o Todo-Poderoso realiza o que promete, pois é fiel à sua aliança. 
Portanto, não poderia existir nenhuma mulher mais digna de representar o Povo da Nova Aliança senão a Mãe Daquele que é a cabeça da Igreja; e ela não seria nossa verdadeira representante se tivesse permanecido no túmulo, e não seria a nossa estrela guia para o seu Filho, se junto Dele no céu, ela não estivesse.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana