Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
“A Sexta-feira Santa não é considerada pela liturgia como um dia de luto e de pranto, mas dia de amorosa contemplação do sacrifício cruento de Jesus, fonte de salvação. Hoje a Igreja não faz um funeral, mas celebra a morte vitoriosa do Senhor” (Cristo, Festa da Igreja, p. 328). Hoje a Igreja, seguindo uma antiquíssima tradição, não celebra a Eucaristia, porém concentra-se na proclamação da Palavra de Deus. A celebração da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo é constituída de 4 elementos: ritualmente temos a Liturgia da Palavra concluindo com a oração universal, Adoração da cruz que brota da proclamação da Paixão de Cristo e a Comunhão Eucarística que expressa a nossa comunhão com o Cristo que está vivo, mesmo se nesse dia contemplemos a sua paixão e morte; por fim, penitencialmente temos o jejum pascal, prescrito pela Igreja (Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira da Paixão), como sinal exterior de participação interior ao sacrifício de Cristo. Independentemente do ano litúrgico, proclama-se sempre a narração da paixão e morte segundo São João, que na verdade se fundamenta no seu testemunho: “Aquele que viu dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que diz a verdade, para que vós creiais”. Por isso, neste dia, toda a Igreja coloca-se diante do crucificado para fazer a experiência do discípulo amado. E o que ele viu ao pé da cruz?Ao contemplar Jesus na cruz, João viu o amor levado ao extremo; o próprio discípulo um dia antes afirmara: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Esse “fim” significa plenitude, totalidade. Na cruz, João vê o amor que não recua, não negocia, não se protege. É o amor que se entrega. No início do evangelho João Batista lhe mostra: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), agora na cruz, João comprova a veracidade dessas palavras, pois confirma: “Não lhe quebraram as pernas”. É a imagem do Cordeiro pascal, imolado para a libertação. João vê que a cruz não é derrota, mas Páscoa, passagem, vitória. No alto da cruz, o crucificado entrega generosamente os preciosos dons da sua vida: “Os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes...Tiraram a sorte para ver de quem seria a túnica”: esse gesto dos soldados não é apenas um detalhe histórico, mas tem alcance teológico reconhecido pela Tradição cristã que atesta o cumprimento direto da profecia messiânica (cf. Sl 22,18-19). Ao mencionar a divisão das vestes, João mostra que Jesus é o Messias prometido. A divisão das vestes em quatro partes, considerando o simbolismo bíblico aritmético (totalidade das coisas criadas: 4 cantos da terra, 4 pontos cardeais etc.), indica a obra de Cristo que se estende para a toda a humanidade, em todas as direções e para todos os povos. O que era de Jesus é agora repartido para o mundo inteiro. No mundo judaico, as vestes também representavam dignidade, perdê-las era sinal de vergonha, humilhação, desonra pública. Ao ter suas roupas divididas, Jesus é identificado com o Servo Sofredor (Is 53); humilhado, entrega tudo, é alguém que se esvazia completamente por amor; é o ápice da kenosis, o esvaziamento voluntário (Fl 2,6-8). Evidencia-se, desse modo, o contraste entre a violência humana e a realeza humilde de Cristo. Contudo, a túnica sem costura (que não é dividida) reforça ainda mais essa realeza, um detalhe que lembra as vestes sacerdotais (cf. Ex 28; José do Egito: Gn 37,3). Teologicamente, a cena mostra que Jesus não retém nem as roupas, se entrega por inteiro, e se torna pobre para nos enriquecer (2Cor 8,9).Outro dom precioso entregue pelo crucificado: “Ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo amado, disse à mãe: ‘Mulher, este é o teu filho... e ao discípulo: ‘Esta é tua mãe’”. A entrega do discípulo amado à Mãe, e da Mãe ao discípulo, não é apenas um gesto de cuidado humano, é o nascimento de uma nova comunidade, fundada não no sangue humano, mas na fé e no amor, como afirmara no prólogo: “Não nasceram da vontade do homem, mas de Deus”. Acolher a mãe de Jesus na comunidade cristã é uma exigência para se tornar discípulo amado por Jesus: “a partir daquele momento o discípulo a acolheu consigo”. Ser discípulo amado é permanecer junto ao Crucificado, acolher a sua mãe como mãe, deixar-se gerar pela água e pelo sangue, viver o amor que se entrega.E, assim, chegamos ao ápice da entrega: “Inclinando a cabeça, entregou o espírito”. Segundo alguns exegetas, para João, esse momento antecipa o Pentecostes, o dom do Espírito; por isso a ambiguidade da construção sintática: “entregou” sem o objeto indireto (a quem), podendo ser compreendido: ao Pai e à Igreja que nasce do seu lado aberto. Ao ver o coração de Cristo traspassado de onde brotou sangue e água, o discípulo amado testemunha o novo templo (cf. Ez 47) cujo reerguimento depois de sua destruição foi anunciado pelo próprio Senhor (cf. Jo 2,19), interpretado coerentemente pela Tradição como nascimento da Igreja do lado de Cristo, como Eva do lado de Adão (adormecido: inclinando a cabeça). Portanto, João vê que da morte de Jesus brota vida nova pela água (Batismo) e o sangue (Eucaristia).Fazer memória da Paixão de Cristo não é um exercício intelectual, nem muito menos um masoquismo espiritual; é deixar-se tocar, transformar, configurar-se a Cristo: “Quem quiser me seguir, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Nesta tarde, a Igreja não se reúne para velar um defunto, mas para contemplar Aquele que pregado na cruz nos deu a maior prova de amor, dando-nos a sua própria vida. Venerar a sagrada Paixão e Morte do Cordeiro vencedor não é afirmar que Ele continua morto, mas reconhecer que Ele não poupou nem mesmo a sua vida para que tivéssemos vida plena. Perder a memória do seu sacrifício é correr o risco de não reconhecer o alto preço que ele pagou pela nossa salvação (1Pd 1,18-21). Tirar de diante de nossos olhos o Cristo crucificado seria a maior insensatez de quem diz acreditar no seu amor, mas se esquece de como Ele provou isso. Não sejamos insensatos e traidores como alguns que acreditam que é possível seguir um Cristo sem cruz: “Oh gálatas insensatos, quem vos fascinou, a vós ante cujos olhos foi desenhada a imagem de Jesus Cristo crucificado?” (Gl 3,1). Pois não existe evangelização autêntica se não anunciarmos “Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos, mas para quem crer, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23; 2,2).
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
