Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Entramos no Tríduo Pascal, o ápice de todo o ano litúrgico, o coração pulsante da nossa fé. A Igreja, como mãe e mestra, sobretudo por meio da sua liturgia, nos conduz de modo pedagógico e mistagógico ao centro do Mistério cristão: a morte e a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Tríduo Pascal não é apenas um conjunto de ritos solenes, mas é um caminho pedagógico, um verdadeiro “retiro existencial”, que nos favorece realmente a participação na realidade do mistério que celebramos, pois não só recorda fatos, mas nos introduz no Mistério vivo da Páscoa. Não estamos diante de simples recordações. Não celebramos um aniversário, nem encenamos um drama antigo. O Tríduo é imersão, é mergulho, é deixar-se tocar e transformar pelo Mistério que nos salva. A liturgia destes dias não é espetáculo, mas é um caminho de memória viva e vivificante.Já tendo tratado profundamente o tema da Eucaristia (Jo 6), São João preferiu destacar, no contexto da última ceia, o lava-pés, gesto de Jesus que anuncia a sua morte como serviço humilde e generoso: “Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”. Sem a cruz, o lava-pés seria reduzido a uma tarefa corriqueira do servo para com o seu senhor, ou instrumentalizado ideologicamente para justificar uma oposição entre serviço e autoridade. Além de cingir-se com a toalha e derramar água numa bacia lavando os pés dos discípulos, Jesus abraçou a cruz para salvá-los: “Assumindo a condição de escravo... fazendo-se obediente até a morte, morte de cruz” (Fl 2,7s). Para seguir o Mestre, o discípulo não pode simplesmente contentar-se em cingir-se com uma toalha e derramar água numa bacia lavando os pés de outrem, mas precisa ir com o Senhor até a cruz: “Dei-vos o exemplo para que façais a mesma coisa”. Sem a cruz, correríamos o risco de trair o Mestre, pois, ainda que sentados à mesa com Ele que lava nossos pés, não podemos abandoná-lo no caminho do calvário. O que Jesus fez não foi apenas lavar os pés dos discípulos, mas dar a vida por eles, e isso o fez na cruz: “Ninguém tem maior prova de amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). A cena do lava-pés põe em evidência dois projetos opostos: “O diabo já tinha posto no coração de Judas o propósito de entregar Jesus” x “Jesus sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos”. O verbo grego (didomi) tem dois significados básicos: entregar e trair. Portanto, a atitude de Judas é traição, enquanto Jesus declara que a sua morte é entrega generosa: “Ninguém tira a minha vida, mas eu a dou livremente” (Jo 10,18). Assim como na unção de Betânia (Jo 12,1-11: Segunda-feira Santa), diante do gesto generoso de Maria, que unge os pés de Jesus com um perfume caríssimo, um discípulo (Judas Iscariotes) se escandaliza, Simão Pedro também reage escandalizado diante do gesto de Jesus: “Senhor, tu me lavas os pés? Tu nunca me lavarás os pés!”. Judas considerou um desperdício derramar unguento tão precioso nos pés do Mestre, Simão Pedro não aceita que o seu Senhor se humilhe fazendo papel de escravo. No dia seguinte, será Pilatos também a não compreender a razão para condenar Jesus à morte: “Nenhuma culpa encontro nele” (Jo 18,38). A resposta de Jesus a Simão Pedro é decisiva: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Ter parte com Jesus significa tomar parte da sua herança, compartilhar de sua missão, viver o seu novo mandamento: amor-serviço, entrega generosa, doar a vida. Ainda sem compreender, pois falta a cruz, Simão pede: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”. Parece que a compreensão reducionista de Simão leva a crer que Jesus estivesse instituindo um rito de ablução para garantir uma purificação ritual, quando na verdade Jesus estava renovando o chamado vocacional de Pedro, o que será confirmado logo após a ressurreição quando durante uma refeição Jesus interrogará Pedro sobre o amor a Ele como condição fundamental para assumir a missão, isto é, ter parte com ele (Jo 21). “Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo”. Segundo alguns exegetas, o fato de Jesus não ter retirado a toalha (símbolo do serviço: humanidade), dando a entender que retomou o manto (símbolo da autoridade: divindade) por cima dela, tem um significado importante. O gesto de curvar-se diante dos discípulos (serviço) não foi algo pontual, uma dramatização de cunho moral para ensinar teoricamente, mas na verdade indica toda a missão do Filho eterno do Pai que se curvando do seu trono se encarnou e armou a sua tenda entre (em) nós e realiza a sua páscoa: “Tendo chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai”, como serviço generoso: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em plenitude” (Jo 10,10). Portanto, toda a vida de Jesus foi um lava-pés que se consumou plenamente na cruz, onde não se lavam apenas partes de nós, mas todo o nosso ser é lavado no sangue do Cordeiro, o Pastor que dá a vida por suas ovelhas, conduzindo-as à vida sem fim. A pergunta de Jesus: “Compreendeis o que acabo de fazer?” (literalmente: o que vos fiz) também é dirigida a nós hoje que tomamos parte à sua mesa eucarística, onde devemos aprender o lava-pés permanente como sinal de adesão de fé àquilo que o Mestre fez e ensinou: “Também vós deveis lavar os pés uns aos outros”. O gesto profético do lava-pés recordado hoje na liturgia não pode ser uma cena teatral transformada em representação ideológica para criar oposição entre autoridade e serviço, compromisso transformador e fé professada, avental do serviço e sofrimento redentor. Jesus ao assumir a condição de servo não abdicou de sua natureza divina, nem de sua autoridade de Senhor e missão de Mestre: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu sou”. Contudo, reconhecê-lo Mestre e Senhor é fazer também o que Ele fez. Cinjamo-nos com a toalha da humildade, derramemos a água do serviço, mas tomemos o caminho da cruz, pois só assim seremos testemunhas Daquele que é o Servo de todos, e que por todos deu a sua vida.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
