Noite do Natal do Senhor: Lc 2,1-14 - A luz da Salvação X as trevas da dominação

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Nesta noite Santa do Natal do Senhor, exultando de alegria, a Igreja faz ressoar através do canto dos Anjos: “Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos favorecidos por Ele”, o grande anúncio profético de esperança e alegria. Diante da tirania dos impérios deste mundo, há ainda esperança: “Nasceu para vós, neste dia, um Salvador, que é Messias e Senhor”. Já se passaram dois mil anos desse acontecimento que marcou profundamente a história da humanidade, mas muitos ainda não aprenderam as lições do primeiro natal; por isso, a nossa sociedade ainda vive sob a opressão de grandes impérios hodiernos para os quais o mais importante do ser humano é ser apenas um número a ser computado como fiel consumidor.

Mais do que contemplar as luzes externas que embelezam os nossos ambientes, as decorações que atraem os nossos olhares e as manifestações exteriores que estimulam o nosso sentimentalismo, é preciso dirigir o olhar do nosso coração para aquele “bebê envolto em tiras de pano e deitado numa manjedoura”, pois o natal é Dele e não do urso kung-fu-panda nem de quaisquer outros personagens fantasiosos de mal gosto e usurpadores dos direitos Daquele que sem Ele não haveria natal.


O natal do Messias não é uma lenda bucólica a mais, nem uma projeção da fantasia do lirismo desencarnado. Lucas, como hábil teólogo, cujos pés estavam apoiados no horizonte histórico, reflete sobre o nascimento de Jesus e o apresenta como boa notícia para uma humanidade concreta, inserida na história com todas as suas implicações. Enquanto Império Romano decreta uma ordem (grego: dogma) de “recenseamento de toda a terra”, o mensageiro do Senhor anuncia (grego: euaggelizomai, evangelizar) o nascimento do Salvador, alegria para todo o povo. O recenseamento tinha como finalidade o controle das pessoas, e a garantia da tributação; era uma estratégia política e econômica para manter-se na dominação; o nascimento de Jesus anuncia um novo tempo para a humanidade, chamada a acolher Aquele que pode conduzi-la à verdadeira liberdade, caso esteja disposta e aberta a assumir novas atitudes iluminadas pelo evangelho.

Para celebrar de forma autêntica o Natal, é preciso converter nossos rumos; é preciso tomar outras estradas, não aquelas que nos levam a shopping centers ou resorts com atrações e promoções de fim de ano, mas é preciso ter a coragem de fazer a estrada para Belém. Maria e José indo a Belém não cumprem somente uma ordem imperial, mas realizam o desígnio de Deus, que mandou o seu Filho para ser o verdadeiro pastor do seu povo, para dar a vida pelas suas ovelhas, sacrificando-se por elas até as últimas consequências. Belém é a “casa do pão” (hebraico: Beit lehem), mas é também o lugar onde Raquel deu à luz a Benjamim, e vindo a falecer, ali foi sepultada (Gn 35,16-20). Por causa do seu doloroso parto, quis que o seu filho fosse chamado de Benoni (hebraico: filho da minha dor), mas Jacó mudou esse nome de triste augúrio para Benjamim (hebraico: filho da minha direita). Onde Raquel (hebraico Rahel: ovelha) morreu e foi sepultada, nasce o Pastor que para salvar o seu povo aceitará ser “como ovelha que permanece muda na presença dos seus tosquiadores” (Is 53,7).


Ao nascer em Belém, Jesus, o primogênito de Maria, provou a dureza da pobreza e da exclusão: “Não havia lugar para eles no alojamento”; assim, antes mesmo de ser proferida a profecia do velho Simeão, a espada de dor já perpassara a alma da mãe. A humilhação do Filho era humilhação dos pais; fez-se pobre entre os pobres, mas o Pai, ressuscitando-o, fê-lo sentar-se à sua direita nos céus (Ef 1,20). Portanto, o Messias nascido em Belém é o filho da dor da humanidade que jaz sob o peso das dominações mundanas, mas é ao mesmo tempo o Filho da direita do Pai, pois é o Rei que reinará para sempre (Lc 1,33). Nascido em Belém, é filho de Davi, do qual herdará o trono. Mas o seu reino é de paz, justiça e santidade, quando todo jugo que abate os povos for destruído (1ª Leitura). Contudo, cabe a nós, chamados a participar de sua realeza, abandonar a impiedade (ateísmo prático) e as paixões mundanas (idolatria disfarçada), a fim de sermos um povo de sua propriedade, comprometido com a pratica do bem (2ª Leitura).

O nascimento de Jesus em Belém é proclamação de que a lógica do Reino de Deus contraria a lógica dos reinos desse mundo. Em Belém, Davi foi escolhido por Samuel; porém, ele não figurava entre os primeiros preferidos por Jessé, que foram rejeitados por Javé, mas o escolhido foi o “menor, aquele que estava tomando conta do rebanho” (1Sm 16,11). Duas características do Ungido (Cristo, Messias) do Senhor: pequenez e pastoralidade. Na manjedoura de Belém encontramos o autêntico Filho da direita do Pai, o verdadeiro Davi, o único Rei-pastor que salva suas ovelhas de todo tipo de escravidão. O seu natal é anúncio de que, apesar de um mundo envolto em trevas, a luz brilha. Cantar nesta noite: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos favorecidos por Ele”, pode se tornar o anúncio mais revolucionário da história dos povos, se reconhecermos no bebê, nascido sobre a terra e reclinado na manjedoura, o grande sinal e prova de que o Deus das alturas, abaixou-se, fazendo-se semelhante a nós, ensinando-nos a ser semelhantes a Ele.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana