Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
As Bem-aventuranças introduzem o Sermão da Montanha (Mt 5–7) que, por sua vez, inaugura o ministério de Jesus, o novo Moisés, apresentando não leis externas, mas um caminho interior de transformação cuja lógica é radicalmente inversa à mentalidade hodierna. Jesus proclama felizes justamente aqueles que, aos olhos da sociedade, não parecem ter nada de desejável: pobres, mansos, perseguidos, misericordiosos, puros de coração. Enquanto o mundo associa felicidade a sucesso imediato, acúmulo de bens, prazer sem limites, poder e visibilidade, Jesus aponta para uma felicidade que nasce de dentro, de uma vida em profunda sintonia de amor com Deus e com o próximo. Os vários bem-aventurados não se referem a “grupos separados”, mas indicam atitudes interiores; não descrevem categorias de pessoas, mas dimensões de uma mesma espiritualidade que, por sua vez, são interdependentes, como peças de um mosaico. Não existe, por exemplo, “o pobre em espírito” se não for “misericordioso”, “o manso” separado do “puro de coração”. Todas essas atitudes compõem o perfil do discípulo que deseja seguir Jesus de forma integral. As Bem-aventuranças são uma espécie de convite, não apenas declarações categóricas. Cada bem-aventurança funciona como um espelho que revela onde estamos e como podemos crescer. Seguir Jesus significa permitir que essas atitudes moldem nosso modo de pensar, sentir e agir.“Bem-aventurados os pobres em espírito”. A pobreza em espírito não é apenas a primeira bem-aventurança, mas a chave de leitura de tudo o que segue. É o movimento de esvaziar-se daquilo que pesa, que ocupa espaço demais, que impede o coração de respirar. E isso é profundamente contracultural; não se trata simplesmente de perder, mas de abrir espaço para Deus, para o outro, e para a própria verdade interior. Essa pobreza é, no fundo, uma forma de leveza espiritual que nos conduz a uma plenitude de vida: “porque deles é o Reino dos céus”.A experiência de privação de qualquer tido nos faz provar uma certa angústia, por isso Jesus continua: “Bem-aventurados os aflitos”. A aflição faz parte do caminho do seguimento de Jesus pois implica renúncias, aparentemente perdas. Não porque Deus queira sofrimento, mas porque todo desapego dói. O jovem rico é o exemplo perfeito: ele não é condenado por ser rico (cf. Mt 16,19-23), mas por ser incapaz de renunciar àquilo que o aprisionava. A tristeza dele não é castigo; é consequência de uma escolha. Ele preferiu a segurança da posse à aventura da confiança. Se ele tivesse escolhido a pobreza em espírito, teria encontrado consolo como assegura a promessa: “Porque serão consolados”. Ou seja, o consolo não é algo mágico que cai do céu, mas o resultado natural de um coração que se abre; é justamente essa consolação divina que transforma o coração humano.As três Bem-aventuranças que seguem: a mansidão, a fome e sede de justiça e a misericórdia, revelam o caminho para a verdadeira felicidade; não são virtudes isoladas, mas etapas de um mesmo processo de conversão. Quem experimenta o cuidado de Deus deixa de buscar segurança nos bens materiais e já não precisa se impor pela força. Assim nasce a mansidão: não como fraqueza, mas como força equilibrada; não como passividade, mas como liberdade interior. O manso não é alguém indiferente, mas alguém que encontrou um centro firme em Deus e, por isso, não reage com violência, não se deixa dominar pela ira, não vive em guerra com os outros.Mas Jesus vai além. Ele diz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”. Essa justiça não é vingança, nem legalismo frio. É o desejo profundo de conhecer e cumprir a vontade de Deus. É a busca sincera por aquilo que é reto, verdadeiro e bom. É o coração que, como terra seca, anseia pela chuva da graça. E qual é a vontade de Deus? O próprio Jesus responde: “Misericórdia é o que eu quero, e não sacrifício” (Mt 9,13). A verdadeira justiça do Reino se manifesta como misericórdia. Quem tem fome de justiça não busca punir, mas restaurar; não quer destruir, mas salvar; não se alegra com a queda do outro, mas com sua recuperação. A misericórdia é a justiça vista pelos olhos de Deus.Por isso, somente quem experimentou a misericórdia divina é capaz de agir com misericórdia. E quando isso acontece, o coração se purifica. Não porque se torna perfeito, mas porque se torna transparente, portanto, a consequência será: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Verão Deus onde? No bem que é realizado, na vida que floresce, na reconciliação que acontece, na paz que se constrói. A paz nasce quando o olhar é transformado, quando deixamos de ver o outro como ameaça e passamos a reconhecê-lo como irmão. E isso só é possível quando aprendemos a ver Deus no semelhante. Ver Deus no outro: o início da paz. Por isso, o Mestre proclama: “Bem-aventurados os que promovem a paz”. A paz, porém, não é uma ideia abstrata, nem resultado ingênuo de um acordo político, mas uma pessoa — Jesus Cristo. São Paulo afirma com clareza: “Ele é a nossa paz” (Ef 2,14). Não diz que Ele traz a paz, mas que Ele é a paz, é o Filho de Deus, por isso quem promove a paz: “serão chamados filhos de Deus”. Quando Cristo derruba o muro de separação entre os povos, Ele não está apenas resolvendo um conflito antigo; Ele está inaugurando uma nova forma de existir. A guerra — seja ela armada, ideológica ou emocional — nasce sempre de um olhar distorcido. Quando o outro é reduzido a inimigo, adversário, concorrente, a violência se torna justificável. Mas quando o vemos como imagem de Deus, a lógica muda. Ninguém ataca o rosto de Deus. Ninguém despreza o rosto de Deus.Por isso, a paz não começa nos tratados internacionais, mas no coração convertido. A paz começa quando deixamos Deus purificar o nosso olhar. Contudo, a paz tem um preço: a cruz. Cristo destruiu a inimizade “por meio da cruz” (Ef 2,16). A paz cristã não é ingênua. Ela não nasce de discursos bonitos, mas de uma entrega radical. Jesus enfrentou perseguições, incompreensões, rejeições e, por fim, a morte. Ele não revidou, não devolveu ofensa, não levantou espada. Por conseguinte, as últimas Bem-aventuranças: “Os perseguidos, injuriados” confirmam todas as outras, pois indicam o mesmo caminho do Mestre, por isso o discípulo não pode esperar outro. O próprio Jesus adverte: “Não existe discípulo superior ao mestre… basta que o discípulo se torne como o seu senhor” (Mt 10,24). Que não tenhamos medo de buscar essa felicidade garantida pelas condições dos bem-aventurados (pobres, sofredores, perseguidos...), pois já temos as provas concretas de que ela verdadeira, isto é, o testemunho dos santos: a pobreza de Francisco, a aflição de Rita de Cássia, a pureza de Maria Goretti, a misericórdia de Teresa de Calcutá, a perseguição de Oscar Romero, e uma lista sem fim de tantos outros bem-aventurados que nos estimulam a seguir esse caminho.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
