IV Domingo Tempo Comum: Mc 1,21-28 - Não adianta saber sem crer

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O itinerário traçado por Marcos, e já sintetizado no princípio do seu evangelho, nos favorece uma aproximação ao mistério da pessoa de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus (cf. 1,1). Não lemos o evangelho para obtermos informações sobre aspectos conjunturais do tempo e do espaço que se tornaram o horizonte da realização da missão de Jesus. Mesmo considerando o aspecto histórico e real do cenário onde tudo se realizou, a proclamação do evangelho não é apenas um meio para nos fazer saber de algo, mas a sua grande finalidade é nos proporcionar um encontro com a pessoa de Jesus, a fim de que creiamos e tenhamos a vida em seu nome (cf. Jo 20,31). Pois não é mera transmissão de informações colhidas especulativamente, mas testemunho vital de uma experiência que transformou vidas, garantindo-lhes plenitude. 
A perícope deste Domingo nos apresenta o grande desafio de quem se encontra com Jesus e a sua boa notícia de salvação, isto é, passar do saber a verdade ao crer nela. Três focos são evidenciados na missão de Jesus como sinais de que ele é verdadeiramente Filho de Deus: os seus ensinamentos com autoridade, os seus milagres como início de uma nova criação e os exorcismos que representam a destruição do domínio do mal. 
A narração de hoje sublinha sobretudo os ensinamentos e o exorcismo: “Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar”. Contudo, supreendentemente, não vamos ouvir nenhum discurso ou parábolas de Jesus que explicitassem esse seu ensinamento, como se pudesse supor pela introdução do evangelista. Porém, a ênfase é posta na reação das pessoas: “Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade”. A autoridade de Jesus, diferentemente daquela dos mestres oficiais, não vinha de uma formalização acadêmica, mas tinha uma característica fundamental: “Um ensinamento novo dado com autoridade”. A novidade do ensinamento de Jesus não dizia respeito a recursos didáticos ou pedagógicos, nem mesmo a uma nova edição das Escrituras, inclusive os textos que Jesus lia não eram seus, mas os mesmos usados nas sinagogas (cf. Lc 4, 17). Fundamentalmente a própria teologia subjacente às palavras de Jesus era a mesma do rabinato do seu tempo (monoteísta, fundada na experiência do Êxodo, transmitida pelos profetas e refletida pelos sábios de Israel). Mas por que o povo percebe a diferença? De onde lhe vem essa autoridade? Antes de tudo, a coerência incontestável entre suas palavras e atitudes. Jesus não faz discursos sobre um deus distante, mas ele é o próprio Deus que se fez próximo para nos falar; Jesus não faz afirmações genéricas e complexas do amor, da misericórdia e da justiça de Deus, mas Jesus é o próprio Deus amando através do acolhimento dos pecadores, da cura aos doentes, da libertação dos possessos; Jesus não inibe as pessoas com leituras exegéticas da Escritura tornando-a um fardo que aprisiona na ignorância e desconhecimento da vontade de Deus, mas ele é a própria Palavra encarnada que alcança não só a mente, mas penetra o coração e provoca mudanças radicais. O seu ensinamento não é um conjunto de princípios e regras, mas a sua praxe fundamentada na certeza que é o Filho amado de Deus, enviado para a salvação da humanidade. 


Ademais, a autoridade de Jesus, concedia pelo Pai e reconhecida pelo povo, torna-se ameaça à falta de autoridade dos mestres do seu tempo: “ensinava como quem tem autoridade, não como os nossos mestres”. A reação do homem possuído por um espírito mau, sobretudo as suas palavras: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?” Apesar de ter sido identificado no singular indefinido (um homem), ele fala no plural (nós, nos), portanto, representa um grupo que se sente ameaçado diante da reação do povo que avalia a superioridade do ensinamento de Jesus em detrimento do magistério oficial. Jesus não afronta os mestres, mas é o povo que anuncia a derrocada dos guias-cegos, daqueles que se apossaram da cátedra de Moisés, mas não promovem o verdadeiro êxodo, pois lhe falta a autoridade necessária provinda da coerência entre o que ensinam e fazem.
Gritando, o possuído quer se sobrepor ao ensinamento de Jesus para que o povo não mais o escute. Ironicamente, o líder do tal grupo ameaçado demonstra que sabe quem é Jesus: “Tu és o Santo de Deus”, porém não crê nele. Quando Jesus o repreende: Cala-te e sai dele!, não está apenas expulsando um demônio, mas está declarando a falta de legitimidade dos mestres da lei que não ensinam a verdade para o bem do povo. 
Além do desafio de ensinar com autoridade, cuja força está na coerência de vida, quem anuncia o evangelho precisa testemunhar que não sabe apenas a verdade do evangelho, mas que crê nela.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana