Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Estamos nos aproximando da celebração do Natal do Senhor, e nesta última semana de preparação, a liturgia nos apresenta a figura de São José que se destaca como um modelo de fé silenciosa e obediência total ao plano de Deus. Ele é um homem justo e silencioso; os evangelhos não registram nenhuma de suas palavras, mas os seus gestos são bastante eloquentes; seu silêncio não é ausência, mas plenitude de confiança e entrega.
“A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava comprometida com José... Filho de Davi”. São Mateus, escrevendo a uma maioria de cristãos vindos do judaísmo, faz alguns destaques importantes que retomam a Tradição veterotestamentária para que o seu evangelho seja acolhido naquele ambiente com maior adesão, portanto, afirmando a descendência de Davi, a presença de José na genealogia mostra que Jesus cumpre as promessas messiânicas, sendo reconhecido legalmente como filho de José, tão importante como se fosse filho natural, biológico.
A paternidade adotiva de José é real, não é um pseudo-pai. Além do mais, podemos chamar José de “ponte” entre Antigo e Novo Testamentos; por meio dele, Jesus é inserido na linhagem davídica. Ele faz o elo entre a promessa messiânica e o seu cumprimento. Ele não é, evidentemente, protagonista como Maria ou Jesus, mas é essencial para que a história da salvação se realize de forma concreta e humana.
“Sendo justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo”. Essa atitude de São José comprova que, de fato, era um homem justo, não apenas no sentido legal, mas sobretudo no sentido bíblico, isto é, alguém que busca alinhar sua vida à vontade de Deus. O silêncio de São José não é covardia, mas abertura ao mistério; em vez de recorrer ao divórcio público, ele decide não expor Maria, preservando sua dignidade, pois acredita na sua inocência. Mesmo sem compreender racionalmente o acontecimento, São José considera que ela não tem culpa (“não querendo denunciá-la”) e, por isso, opta pela misericórdia sobre a lei: sua decisão mostra que a justiça verdadeira não é apenas aplicar normas, mas agir com amor e compaixão.
A atitude silenciosa de São José se insere na longa tradição do silêncio fecundo na Bíblia: Abraão, diante da ordem de sacrificar Isaac, não discute com Deus, mas caminha em silêncio até o monte. Esse silêncio revela confiança absoluta no Senhor, mesmo sem compreender o sentido imediato (Gn 22). Moisés, quando o povo se desespera diante do mar e do exército egípcio, ele proclama: “O Senhor combaterá por vós; e vós, ficai tranquilos” (Ex 14,14). O silêncio aqui é espaço para que Deus manifeste sua força. Ana, mãe de Samuel, em sua dor pela esterilidade, ora em silêncio no templo, movendo apenas os lábios. O sacerdote Eli pensa que ela está embriagada, mas na verdade seu silêncio é oração profunda (1Sm 1,13); e acima de tudo, temos o corajoso e sereno silêncio de Jesus no julgamento diante de Pilatos (Mt 27,14). Esse silêncio não é fraqueza, mas força: Ele confia no plano do Pai e não precisa se defender.
Por conseguinte, assim como Abraão, São José é chamado a confiar sem entender plenamente; como Moisés, ele descobre que o silêncio abre espaço para a ação divina; como Ana, seu silêncio é oração e entrega, e como Jesus, ele mostra que o silêncio pode ser mais eloquente do que palavras.
Dessa forma, São José se insere na grande Tradição bíblica dos justos que, diante do mistério, escolhem o silêncio e a confiança. Ele se torna modelo de discernimento: não age por impulso, mas espera que Deus revele o sentido daquilo que parecia incompreensível
É nesse silêncio que o anjo lhe revelará o plano divino: “Não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo”. São José recebe em sonho a revelação de Deus e, ao acordar, age. O sonho, como experiência profunda de encontro com a realidade é ponte entre o mundo espiritual e a vida concreta, mostrando que fé verdadeira se traduz em ação. Entre o medo e a confiança, São José passa do pesadelo de perder Maria ao sonho de acolhê-la. Ele é ponte entre a angústia humana e a esperança divina: ao acolher Maria e o Menino, São José se torna ponte para que o Emanuel — Deus conosco — seja reconhecido e acolhido no meio dos homens.
No sonho-revelação, São José é o primeiro a perceber que o que seu povo aguardava estava se cumprindo. Seu sonho não é ilusão, mas revelação. A transformação do pesadelo em sonho, isto é, o medo de perder Maria é convertido em confiança e missão, porque Deus lhe assegura: “Não temas”.
“Quando acordou, José fez como o anjo do Senhor havia mandado e aceitou sua esposa”. Assim como Adão desperta e encontra Eva como dom de Deus (cf. Gn 2,21-24), São José desperta e recebe Maria como parte do plano divino. Obedecendo à vontade divina, ao aceitar Maria e o menino, ele se torna guardião do mistério da Encarnação. Com seu testemunho de fé, São José ensina que a verdadeira grandeza está em acolher o inesperado de Deus, mesmo quando contraria a lógica humana; a verdadeira obediência é confiar sem reservas no plano de Deus, mesmo quando não entendemos plenamente.
São José nos ensina que o silêncio só tem sentido se for fecundo.
No silêncio de José, encontramos a força da fé. Ele não precisou de palavras para anunciar o mistério, mas deixou que suas atitudes falassem mais alto. Em meio ao barulho do mundo, São José nos convida a cultivar o silêncio interior para ouvir a voz de Deus, e assim, ter confiança nas suas promessas, pois a fidelidade divina supera nossas limitações e incertezas.
São José é o guardião do maior tesouro: o Filho de Deus feito homem e de sua Mãe, Maria Santíssima; sua vida nos mostra que a grandeza não está em aparecer, mas em servir. Ele nos convida a cultivar o silêncio interior, para que possamos ouvir a voz de Deus e permitir que Cristo nasça em nós.
Que esses últimos dias do Advento, tempo de esperança, nos ajudem a reconhecer que o sonho de Deus já se realizou em Cristo, e que nossos pesadelos são apenas ilusões que nascem do medo e da falta de fé. Que o Advento desperte em nós a capacidade de esperar, confiar e sonhar junto com Deus.
Se o sonho é de Deus, já é realidade; se é apenas humano, pode se tornar pesadelo.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Estamos nos aproximando da celebração do Natal do Senhor, e nesta última semana de preparação, a liturgia nos apresenta a figura de São José que se destaca como um modelo de fé silenciosa e obediência total ao plano de Deus. Ele é um homem justo e silencioso; os evangelhos não registram nenhuma de suas palavras, mas os seus gestos são bastante eloquentes; seu silêncio não é ausência, mas plenitude de confiança e entrega.
“A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava comprometida com José... Filho de Davi”. São Mateus, escrevendo a uma maioria de cristãos vindos do judaísmo, faz alguns destaques importantes que retomam a Tradição veterotestamentária para que o seu evangelho seja acolhido naquele ambiente com maior adesão, portanto, afirmando a descendência de Davi, a presença de José na genealogia mostra que Jesus cumpre as promessas messiânicas, sendo reconhecido legalmente como filho de José, tão importante como se fosse filho natural, biológico.
A paternidade adotiva de José é real, não é um pseudo-pai. Além do mais, podemos chamar José de “ponte” entre Antigo e Novo Testamentos; por meio dele, Jesus é inserido na linhagem davídica. Ele faz o elo entre a promessa messiânica e o seu cumprimento. Ele não é, evidentemente, protagonista como Maria ou Jesus, mas é essencial para que a história da salvação se realize de forma concreta e humana.
“Sendo justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo”. Essa atitude de São José comprova que, de fato, era um homem justo, não apenas no sentido legal, mas sobretudo no sentido bíblico, isto é, alguém que busca alinhar sua vida à vontade de Deus. O silêncio de São José não é covardia, mas abertura ao mistério; em vez de recorrer ao divórcio público, ele decide não expor Maria, preservando sua dignidade, pois acredita na sua inocência. Mesmo sem compreender racionalmente o acontecimento, São José considera que ela não tem culpa (“não querendo denunciá-la”) e, por isso, opta pela misericórdia sobre a lei: sua decisão mostra que a justiça verdadeira não é apenas aplicar normas, mas agir com amor e compaixão.
A atitude silenciosa de São José se insere na longa tradição do silêncio fecundo na Bíblia: Abraão, diante da ordem de sacrificar Isaac, não discute com Deus, mas caminha em silêncio até o monte. Esse silêncio revela confiança absoluta no Senhor, mesmo sem compreender o sentido imediato (Gn 22). Moisés, quando o povo se desespera diante do mar e do exército egípcio, ele proclama: “O Senhor combaterá por vós; e vós, ficai tranquilos” (Ex 14,14). O silêncio aqui é espaço para que Deus manifeste sua força. Ana, mãe de Samuel, em sua dor pela esterilidade, ora em silêncio no templo, movendo apenas os lábios. O sacerdote Eli pensa que ela está embriagada, mas na verdade seu silêncio é oração profunda (1Sm 1,13); e acima de tudo, temos o corajoso e sereno silêncio de Jesus no julgamento diante de Pilatos (Mt 27,14). Esse silêncio não é fraqueza, mas força: Ele confia no plano do Pai e não precisa se defender.
Por conseguinte, assim como Abraão, São José é chamado a confiar sem entender plenamente; como Moisés, ele descobre que o silêncio abre espaço para a ação divina; como Ana, seu silêncio é oração e entrega, e como Jesus, ele mostra que o silêncio pode ser mais eloquente do que palavras.
Dessa forma, São José se insere na grande Tradição bíblica dos justos que, diante do mistério, escolhem o silêncio e a confiança. Ele se torna modelo de discernimento: não age por impulso, mas espera que Deus revele o sentido daquilo que parecia incompreensível
É nesse silêncio que o anjo lhe revelará o plano divino: “Não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo”. São José recebe em sonho a revelação de Deus e, ao acordar, age. O sonho, como experiência profunda de encontro com a realidade é ponte entre o mundo espiritual e a vida concreta, mostrando que fé verdadeira se traduz em ação. Entre o medo e a confiança, São José passa do pesadelo de perder Maria ao sonho de acolhê-la. Ele é ponte entre a angústia humana e a esperança divina: ao acolher Maria e o Menino, São José se torna ponte para que o Emanuel — Deus conosco — seja reconhecido e acolhido no meio dos homens.
No sonho-revelação, São José é o primeiro a perceber que o que seu povo aguardava estava se cumprindo. Seu sonho não é ilusão, mas revelação. A transformação do pesadelo em sonho, isto é, o medo de perder Maria é convertido em confiança e missão, porque Deus lhe assegura: “Não temas”.
“Quando acordou, José fez como o anjo do Senhor havia mandado e aceitou sua esposa”. Assim como Adão desperta e encontra Eva como dom de Deus (cf. Gn 2,21-24), São José desperta e recebe Maria como parte do plano divino. Obedecendo à vontade divina, ao aceitar Maria e o menino, ele se torna guardião do mistério da Encarnação. Com seu testemunho de fé, São José ensina que a verdadeira grandeza está em acolher o inesperado de Deus, mesmo quando contraria a lógica humana; a verdadeira obediência é confiar sem reservas no plano de Deus, mesmo quando não entendemos plenamente.
São José nos ensina que o silêncio só tem sentido se for fecundo.
No silêncio de José, encontramos a força da fé. Ele não precisou de palavras para anunciar o mistério, mas deixou que suas atitudes falassem mais alto. Em meio ao barulho do mundo, São José nos convida a cultivar o silêncio interior para ouvir a voz de Deus, e assim, ter confiança nas suas promessas, pois a fidelidade divina supera nossas limitações e incertezas.
São José é o guardião do maior tesouro: o Filho de Deus feito homem e de sua Mãe, Maria Santíssima; sua vida nos mostra que a grandeza não está em aparecer, mas em servir. Ele nos convida a cultivar o silêncio interior, para que possamos ouvir a voz de Deus e permitir que Cristo nasça em nós.
Que esses últimos dias do Advento, tempo de esperança, nos ajudem a reconhecer que o sonho de Deus já se realizou em Cristo, e que nossos pesadelos são apenas ilusões que nascem do medo e da falta de fé. Que o Advento desperte em nós a capacidade de esperar, confiar e sonhar junto com Deus.
Se o sonho é de Deus, já é realidade; se é apenas humano, pode se tornar pesadelo.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
