IV Domingo da Páscoa: Jo 10,1-10 - A vida do Bom Pastor alimenta a vida das ovelhas

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Neste Domingo do Bom Pastor, celebramos também o 63º Dia Mundial de Oração pelas vocações. Na sua mensagem para essa ocasião, o Papa Leão XIV nos diz: “A vocação, na verdade, não é uma meta estática, mas um processo dinâmico de amadurecimento, favorecido pela intimidade com o Senhor: estar com Jesus, deixar o Espírito Santo agir nos corações e nas situações da vida e reler tudo à luz do dom recebido significa crescer na vocação”.
A Palavra de Deus da liturgia de hoje nos ilumina e orienta a fim de crescermos nesse processo vocacional que é fruto da intimidade com Jesus. Ele mesmo ao se declarar Bom Pastor e Porta do redil se revela próximo e com desejo de estabelecer intimidade com suas ovelhas. Suas atitudes demonstram que Ele é verdadeiro pastor, pois conhece as suas ovelhas, chama a cada uma pelo nome, coloca-se no meio delas para protegê-las dos estranhos, e dá a vida por elas.
A afirmação de que Cristo é o Pastor e Guardião de nossas vidas (2ª leitura: 1Pd 2,25) não é apenas uma metáfora bonita, mas uma síntese da missão de Jesus. A imagem do pastor, sobretudo quando aplicada a Deus, é muito forte porque nasce da experiência concreta do povo de Israel (um pastor vive com o rebanho, dorme perto dele, defende-o, cura suas feridas, busca o que se perde Sl 22;80; Ez 34). 
Quase todo o capítulo 10 de São João é dedicado ao tema do Bom Pastor; no Ciclo Trienal da Páscoa, a cada ano se lê uma parte dele (A:1-10; B:11-18; C:27-30). Neste ano A lemos o início do ensinamento sobre Jesus-Bom Pastor, onde se introduz um elemento absolutamente novo: “a porta do redil/das ovelhas”, e que se torna chave de interpretação para todo o resto. Antes mesmo de se declarar Bom Pastor, Jesus diz: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta... é ladrão e assaltante”. Com esta afirmação se faz uma ponte com o que foi dito antes (Jo 9: o cego de nascença). Na conclusão do 6º sinal apareceram os verdadeiros cegos: os líderes judaicos, aqueles que deveriam exercer a missão de guiar, conduzir o povo, pastorear, mas preferiram entrar no redil por outro lado, símbolo da desobediência e arrogância, fizeram o seu próprio caminho.
Quem entra pela porta é o pastor”: sendo verdadeiro pastor, Jesus não precisa de estratégias ilícitas para adentrar no redil, pois o Pai o conhece e o enviou para pastorear as suas ovelhas (Ano B). 
A esse o porteiro abre”. O porteiro é o Pai que conhecendo o Filho, abre-lhe a porta para que o seu rebanho seja protegido, e ninguém arrebate as suas ovelhas, e elas tenham a vida eterna (Ano C).
Podemos identificar 3 atitudes do Bom Pastor que demonstram lealdade à sua missão:  Em primeiro lugar: “Ele chama as ovelhas pelo nome”, isto é, conhece a verdade profunda de cada pessoa. Na manhã da ressurreição quando Maria Madalena foi ao sepulcro e permaneceu ali desesperada por não encontrar o corpo do Senhor, Jesus se aproxima e chama-a por seu nome: “Maria”, então ela reconhece a voz de Jesus, e exclama: “Rabuni”, meu Mestre (cf. Jo 20,16), portanto a quem se deve ouvir e obedecer. A segunda atitude: “as conduz para fora”. Esse chamado, portanto, é experiência vocacional, e significa sair do sepulcro para seguir o Bom Pastor e ter vida em plenitude. Conduzir para fora significa libertar da escravidão, da morte, assim como Deus conduziu o seu povo para fora do Egito (cf. Ex 12,31). Em Jesus, se cumprem plenamente as promessas do Antigo Testamento (Ez 34; Jr 3,15). Por fim, a terceira atitude: “caminha à sua frente”: ir à frente significa abrir caminho. Jesus não apenas indicou o caminho, mas se fez caminho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Mas esse caminho passou pela cruz. Portanto, as suas ovelhas não estão isentas do sofrimento, mas não o enfrentarão sozinhas, pois o verdadeiro Pastor as defenderá do “ladrão que vem para roubar, matar e destruir”.
Diante da incompreensão dos seus interlocutores, Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas”. Agora a metáfora da porta alcança seu ponto mais alto: o próprio Jesus se identifica com ela. Para compreender com profundidade o motivo de Jesus ter se declarado “a porta das ovelhas”, é preciso recordar o episódio relatado por São João em uma das idas de Jesus a Jerusalém por ocasião de uma festa dos judeus (Jo 5,1s). Podemos assim dizer, que a metáfora usada por Jesus nesse momento se reveste de um forte realismo: a Porta das Ovelhas, um lugar real, mas com um significado mortal. A Porta das Ovelhas (hebraico: Sha’ar haTson, grego Probatikê) era uma das entradas do muro norte de Jerusalém (aparece em Ne 3,1.32 reconstrução da porta; Ne 12,39 referência ao trajeto da procissão; Ap 21,12 memória simbólica das portas de Jerusalém). 
Essa porta tinha uma função específica: por ela entravam as ovelhas destinadas ao sacrifício no Templo, era porta da morte sacrificial. Quando São João afirma que junto àquela porta estava uma multidão de enfermos: cegos, coxos e paralíticos, na verdade, são as ovelhas abandonadas pelas autoridades religiosas, destinadas à morte por serem ritualmente impuras, excluídas do culto, socialmente descartadas por causa da doença, e religiosamente ignoradas pelas autoridades (os sacerdotes, os fariseus, os intérpretes da Lei) que as oprimem, as culpam, as exploram e as deixam morrer.
Jesus é a Porta das Ovelhas porque interrompe o ciclo sacrificial que matava as ovelhas, denuncia os líderes que deveriam cuidar e não cuidam, oferece acesso à vida, ao cuidado e à comunhão com Deus, e entrega-se como o verdadeiro Cordeiro, libertando as ovelhas da morte.
São João quer mostrar que essas são as verdadeiras “ovelhas”, e não as que vão para o altar, mas as que foram deixadas à própria sorte. Jesus declara ser a porta dessas ovelhas, e como pastor não as conduzirá para a morte, pois afirma: “Vim para que tenham vida”.  Ele é a porta que salva as ovelhas porque Ele mesmo passa pela morte em seu lugar; não conduz as ovelhas ao sacrifício, mas mesmo Ele se sacrifica para que elas não morram. 
Celebrar a Páscoa é renovar o nosso compromisso de seguir o Bom Pastor reconhecendo a sua voz e, assim, identificando o que não vem de Deus; rejeitar discursos que seduzem, mas não conduzem à vida, denunciar caminhos que prometem liberdade, mas geram escravidão, e desmascarar ideologias, práticas e lideranças que se colocam no lugar de Cristo. A única forma de não se deixar enganar é reconhecer e permanecer fiel à voz do Bom Pastor, ajudados pela escuta atenta da Palavra, pela vida sacramental, na comunhão eclesial, no compromisso com a conversão contínua e no seguimento concreto de Jesus, correspondendo com generosidade ao seu chamado.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana