Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A cena do evangelho de hoje: o chamado dos primeiros discípulos às margens do Mar da Galileia, colocada no início dos evangelhos sinóticos, demonstra que a Encarnação não é apenas um gesto de proximidade de Deus, mas é também uma prova de sua confiança em nós. É impressionante ver que o Todo poderoso, Aquele que criou o universo com a força da sua palavra, quis precisar de nós para realizar o seu plano de amor. Ele poderia ter feito tudo sozinho, mas preferiu contar com a colaboração humana. Santo Agostinho expressa isso de forma admirável: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Não porque Ele seja limitado, mas porque nos ama a ponto de nos tornar participantes da sua obra. Isso revela algo essencial sobre quem Ele é: um Deus que ama dialogar, não dominar; que chama, não impõe.
Desde os primeiros discípulos às margens do lago, passando por tantos homens e mulheres ao longo da história, Deus continua chamando. E o mais bonito é que Ele nos chama não como servos incapazes, mas como filhos livres. Jesus não infantiliza ninguém, não trata ninguém como objeto da sua comiseração. Ele olha para nós e vê potencial, vê dignidade, vê a imagem e semelhança de Deus impressa em cada pessoa.
“Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum”. Considerando o significado de Kefar Nahum (“aldeia do consolo”) é possível perceber a profundidade do que São Mateus que mostrar no seu evangelho, isto é, que Jesus cumpre as Escrituras; Ele é o Messias, o Consolador prometido, Aquele que realiza a profecia: “Consolai o meu povo” (Is 40,1). Cafarnaum se torna lugar teológico: está na fronteira entre povos, culturas e influências. Jesus começa a sua missão nas margens, não no centro religioso de Jerusalém. Isso revela que sua salvação é universal, aberta, destinada a todos — especialmente aos que vivem nas “fronteiras” da existência.
“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz”. A citação de Isaías (8,23–9,1) reforça a imagem de um povo que vive “na sombra da morte”; “sentados” indica imobilidade, resignação, quase uma morte existencial. A chegada de Jesus é descrita como uma irrupção de luz, algo que rompe a paralisia e devolve vida. Por outro lado, o consolo bíblico não é puro sentimentalismo de palavras, mas consolar na Bíblia significa fazer-se presença, aproximar-se dos que foram deixados à margem. O consolo de Deus não é anestesia, é transformação. Ele cura para enviar, ilumina para que a pessoa caminhe, liberta para que ela viva de modo novo. É um consolo que restaura dignidade, que devolve alguém ao convívio, que cura a solidão e o abandono. Por conseguinte, o consolo provoca conversão (metanoia): “Convertei-vos porque o Reino dos céus está próximo”; essa conversão é mais do que arrependimento moral, exige uma mudança de mentalidade, de direção, de modo de ver o mundo, isto é, acolhimento do Reino.
“Viu dois irmãos (Simão e André) ... Caminhando um pouco mais, viu outros dois irmãos (Tiago e João, filhos de Zebedeu)”. O fato de os primeiros discípulos serem irmãos é mais do que um detalhe narrativo. É quase um programa teológico. O Reino não nasce de indivíduos isolados, mas de relações reconciliadas. A fraternidade não é consequência do Reino, é o seu modo de existir. Enquanto a humanidade não se reconhecer como família — igual em dignidade, unida na origem e no destino — a experiência da salvação fica sempre adiada. É como se o evangelho dissesse: O Reino começa quando alguém aceita ser irmão.
Simão e André: nomes que revelam vocações. Simão (hebraico: “Deus escutou”). A vocação nasce da escuta de Deus, mas também do fato de que Deus escuta o clamor humano. A iniciativa é divina, mas responde a uma necessidade real da pessoa e do mundo. André (grego: “varão”, “homem”). A resposta à vocação não é abstrata: precisa de alguém concreto, histórico, situado. Deus chama, mas quem responde é um ser humano real, com limites e possibilidades. Ademais, significativos também: Zebedeu – “Deus deu”: o chamado não nasce de mérito, mas de um dom. A vocação é sempre iniciativa divina. Tiago (Iacob) – “Deus protege”. Evoca o Deus que acompanha, guarda e conduz a história do seu povo; e, por fim, João – “Javé é misericordioso”: aponta para o traço mais profundo da missão de Jesus: revelar a misericórdia do Pai. Assim, os nomes dos discípulos não são detalhes biográficos, mas ícones da missão de Jesus. Eles carregam, na própria identidade, aquilo que Cristo veio realizar.
“Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”: Jesus não muda apenas a atividade dos discípulos, mas o sentido dela. Antes: lançar redes para tirar vidas da água; agora é lançar a própria vida para conduzir outros à Vida. É uma inversão simbólica marcante, pois o que antes era instrumento de morte torna-se metáfora de libertação. A conversão cristã, portanto, não é abandonar o mundo, mas ressignificar o que se faz no mundo. Sem o seguimento de Jesus nunca será possível a verdadeira conversão. A referência à pesca como imagem da ação definitiva de Deus (Jr 16,16; Mt 13,47-50) não é acidental. No Antigo Testamento, essa metáfora aparece num contexto de juízo e restauração: Deus “pesca” o seu povo para reuni-lo, purificá-lo e conduzi-lo de volta à vida plena. Quando Jesus chama pescadores, Ele não está apenas escolhendo uma profissão comum da Galileia. Ele está dizendo, de forma simbólica e poderosa que o tempo esperado chegou. Deus está agindo agora.
O chamado dos primeiros discípulos não é apenas o início de um grupo religioso. É o anúncio de uma nova humanidade: reunida por Deus, fundada na fraternidade, chamada pelo nome, e enviada a participar da obra escatológica de reunir e salvar.
“Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram”: Jesus chama para compartilhar a sua missão. Se Ele protege, liberta e manifesta misericórdia, então seus discípulos — antigos pescadores — tornam-se continuadores dessa obra. Ser “pescador de homens” não é capturar, dominar ou controlar, mas resgatar, levantar, devolver a vida. Deus não precisa de nós, mas escolhe contar conosco. E essa escolha não é para inflar o ego, mas para despertar gratidão e responsabilidade. A verdadeira colaboração com Jesus não nasce do heroísmo, mas da liberdade — liberdade de tudo aquilo que nos prende a “estruturas de morte”. As redes, nesse sentido, não são apenas objetos de trabalho; são símbolos de tudo o que nos mantém ocupados, distraídos, paralisados ou dependentes. Abandoná-las não é desprezar o mundo, mas abrir espaço para um modo novo de viver.
A consciência de que Deus conta conosco não deve gerar superioridade espiritual, mas humildade. É como se Ele dissesse: “Eu confio em você mais do que você mesmo confia”. E essa confiança divina é o que transforma nossa fragilidade em missão.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A cena do evangelho de hoje: o chamado dos primeiros discípulos às margens do Mar da Galileia, colocada no início dos evangelhos sinóticos, demonstra que a Encarnação não é apenas um gesto de proximidade de Deus, mas é também uma prova de sua confiança em nós. É impressionante ver que o Todo poderoso, Aquele que criou o universo com a força da sua palavra, quis precisar de nós para realizar o seu plano de amor. Ele poderia ter feito tudo sozinho, mas preferiu contar com a colaboração humana. Santo Agostinho expressa isso de forma admirável: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Não porque Ele seja limitado, mas porque nos ama a ponto de nos tornar participantes da sua obra. Isso revela algo essencial sobre quem Ele é: um Deus que ama dialogar, não dominar; que chama, não impõe.
Desde os primeiros discípulos às margens do lago, passando por tantos homens e mulheres ao longo da história, Deus continua chamando. E o mais bonito é que Ele nos chama não como servos incapazes, mas como filhos livres. Jesus não infantiliza ninguém, não trata ninguém como objeto da sua comiseração. Ele olha para nós e vê potencial, vê dignidade, vê a imagem e semelhança de Deus impressa em cada pessoa.
“Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum”. Considerando o significado de Kefar Nahum (“aldeia do consolo”) é possível perceber a profundidade do que São Mateus que mostrar no seu evangelho, isto é, que Jesus cumpre as Escrituras; Ele é o Messias, o Consolador prometido, Aquele que realiza a profecia: “Consolai o meu povo” (Is 40,1). Cafarnaum se torna lugar teológico: está na fronteira entre povos, culturas e influências. Jesus começa a sua missão nas margens, não no centro religioso de Jerusalém. Isso revela que sua salvação é universal, aberta, destinada a todos — especialmente aos que vivem nas “fronteiras” da existência.
“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz”. A citação de Isaías (8,23–9,1) reforça a imagem de um povo que vive “na sombra da morte”; “sentados” indica imobilidade, resignação, quase uma morte existencial. A chegada de Jesus é descrita como uma irrupção de luz, algo que rompe a paralisia e devolve vida. Por outro lado, o consolo bíblico não é puro sentimentalismo de palavras, mas consolar na Bíblia significa fazer-se presença, aproximar-se dos que foram deixados à margem. O consolo de Deus não é anestesia, é transformação. Ele cura para enviar, ilumina para que a pessoa caminhe, liberta para que ela viva de modo novo. É um consolo que restaura dignidade, que devolve alguém ao convívio, que cura a solidão e o abandono. Por conseguinte, o consolo provoca conversão (metanoia): “Convertei-vos porque o Reino dos céus está próximo”; essa conversão é mais do que arrependimento moral, exige uma mudança de mentalidade, de direção, de modo de ver o mundo, isto é, acolhimento do Reino.
“Viu dois irmãos (Simão e André) ... Caminhando um pouco mais, viu outros dois irmãos (Tiago e João, filhos de Zebedeu)”. O fato de os primeiros discípulos serem irmãos é mais do que um detalhe narrativo. É quase um programa teológico. O Reino não nasce de indivíduos isolados, mas de relações reconciliadas. A fraternidade não é consequência do Reino, é o seu modo de existir. Enquanto a humanidade não se reconhecer como família — igual em dignidade, unida na origem e no destino — a experiência da salvação fica sempre adiada. É como se o evangelho dissesse: O Reino começa quando alguém aceita ser irmão.
Simão e André: nomes que revelam vocações. Simão (hebraico: “Deus escutou”). A vocação nasce da escuta de Deus, mas também do fato de que Deus escuta o clamor humano. A iniciativa é divina, mas responde a uma necessidade real da pessoa e do mundo. André (grego: “varão”, “homem”). A resposta à vocação não é abstrata: precisa de alguém concreto, histórico, situado. Deus chama, mas quem responde é um ser humano real, com limites e possibilidades. Ademais, significativos também: Zebedeu – “Deus deu”: o chamado não nasce de mérito, mas de um dom. A vocação é sempre iniciativa divina. Tiago (Iacob) – “Deus protege”. Evoca o Deus que acompanha, guarda e conduz a história do seu povo; e, por fim, João – “Javé é misericordioso”: aponta para o traço mais profundo da missão de Jesus: revelar a misericórdia do Pai. Assim, os nomes dos discípulos não são detalhes biográficos, mas ícones da missão de Jesus. Eles carregam, na própria identidade, aquilo que Cristo veio realizar.
“Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”: Jesus não muda apenas a atividade dos discípulos, mas o sentido dela. Antes: lançar redes para tirar vidas da água; agora é lançar a própria vida para conduzir outros à Vida. É uma inversão simbólica marcante, pois o que antes era instrumento de morte torna-se metáfora de libertação. A conversão cristã, portanto, não é abandonar o mundo, mas ressignificar o que se faz no mundo. Sem o seguimento de Jesus nunca será possível a verdadeira conversão. A referência à pesca como imagem da ação definitiva de Deus (Jr 16,16; Mt 13,47-50) não é acidental. No Antigo Testamento, essa metáfora aparece num contexto de juízo e restauração: Deus “pesca” o seu povo para reuni-lo, purificá-lo e conduzi-lo de volta à vida plena. Quando Jesus chama pescadores, Ele não está apenas escolhendo uma profissão comum da Galileia. Ele está dizendo, de forma simbólica e poderosa que o tempo esperado chegou. Deus está agindo agora.
O chamado dos primeiros discípulos não é apenas o início de um grupo religioso. É o anúncio de uma nova humanidade: reunida por Deus, fundada na fraternidade, chamada pelo nome, e enviada a participar da obra escatológica de reunir e salvar.
“Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram”: Jesus chama para compartilhar a sua missão. Se Ele protege, liberta e manifesta misericórdia, então seus discípulos — antigos pescadores — tornam-se continuadores dessa obra. Ser “pescador de homens” não é capturar, dominar ou controlar, mas resgatar, levantar, devolver a vida. Deus não precisa de nós, mas escolhe contar conosco. E essa escolha não é para inflar o ego, mas para despertar gratidão e responsabilidade. A verdadeira colaboração com Jesus não nasce do heroísmo, mas da liberdade — liberdade de tudo aquilo que nos prende a “estruturas de morte”. As redes, nesse sentido, não são apenas objetos de trabalho; são símbolos de tudo o que nos mantém ocupados, distraídos, paralisados ou dependentes. Abandoná-las não é desprezar o mundo, mas abrir espaço para um modo novo de viver.
A consciência de que Deus conta conosco não deve gerar superioridade espiritual, mas humildade. É como se Ele dissesse: “Eu confio em você mais do que você mesmo confia”. E essa confiança divina é o que transforma nossa fragilidade em missão.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
