III Domingo do Advento: Mt 11,2-11 - Na crise a verdade aparece, a alegria desponta.

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O III Domingo do Advento, por causa de proximidade com o Natal, reveste-se de um caráter especial de alegria (Gaudete: Alegrai-vos!), que alcançará seu ponto mais alto na exultação da Igreja, na noite santa do Natal, ao celebrar o nascimento do Salvador, entoando o Hino dos Anjos. Toda a liturgia de hoje aponta para a razão da verdadeira alegria: “Alegre-se a terra... Seus habitantes verão a glória do Senhor” (1ª Leitura), mas uma alegria fruto da certeza da proximidade da vinda do Senhor, que exige perseverança e firmeza até mesmo no sofrimento (2ª Leitura). Contudo, essa autêntica alegria só pode brotar da verdade, e muitas vezes para descobrir a verdade é preciso passar pela crise, com honestidade e humildade.
Apesar de João Batista testemunhar que Jesus, de fato, é o Cristo, o Messias esperado (Mt 3,13-17), a prática e os ensinamentos de Jesus superam todas as expectativas messiânicas do seu tempo, inclusive as do próprio João Batista, que apresentava o Messias como o realizador do dia do Senhor, dia de julgamento e condenação. No entanto, o julgamento de Deus através do seu Filho é boa notícia: “o Reino de Deus está próximo”, cuja principal finalidade é a restauração da vida: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”. O próprio João Batista reconhece que é inferior ao Messias, contudo ainda não tinha compreendido em que consistia verdadeiramente a novidade trazida pelo Enviado de Deus, Aquele que batizará com o Espírito Santo e com fogo. O precursor precisou passar pela crise (discernimento) para assumir, de forma definitiva, a sua missão de ser apenas uma voz que clama no deserto, uma convocação para acolher o Messias que traria a grande novidade, e à qual João Batista precisava se abrir e aceitar. Consciente de sua missão de arauto do Messias, assumiu uma vida ascética, despojada e coerente a ponto de ser declarado pelo Cristo “mais do que um profeta”.
Porém, ele também teve necessidade de purificar a sua perspectiva em relação ao Messias, como pensavam muitos judeus que esperavam o messias como um poderoso rei, um juiz severo e destruidor dos pecadores. João Batista faz esse processo de descoberta à medida que enfrenta as consequências da sua missão, a partir do momento que passa do deserto para a prisão. Portanto, não foi apenas precursor na vida e missão do Messias, mas foi também seu precursor no mesmo destino, isto é, a condenação à morte por causa de sua fidelidade à missão que recebera. João Batista ao ter a cabeça degolada encerrou a sua missão, sua voz cessou de gritar, mas a Palavra continuou a ressoar.    
A crise de João pode parecer escandalosa: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” Aparentemente indica uma certa frustração, mas é fundamental para que os seus discípulos vençam qualquer dúvida, pois essa crise de João não os afastou Daquele que ele apontou-lhes como o Messias, mas pelo contrário o que João Batista, acorrentado na prisão não podia mais fazer (mostrar pessoalmente o Cristo), a sua voz o fez: “Enviou-lhe alguns discípulos para lhe perguntarem”. João Batista alcança o ponto mais alto de sua humildade quando reconhece que não é ele quem vai convencer os outros de que Jesus é o Messias, mas é preciso que cada um faça a sua experiência de encontro pessoal com Ele, pois aquele que ouve e vê os ensinamentos e as ações do Mestre poderá dirimir qualquer dúvida sobre Ele. Indubitavelmente o testemunho de outrem é importante, mas o encontro pessoal com o Senhor é insubstituível e imprescindível. A crise do profeta acorrentado o liberta de todas as amarras pois o faz confrontar-se com a verdade. Ele não se envergonha de assumir as suas dúvidas, de compartilhar as suas incertezas, e de deixar-se ajudar por outros a fim de superar o seu momento de escuridão.
Ao enviar os seus discípulos a Jesus concretiza o que anunciara: “Preparai os caminhos do Senhor, tornai retas as suas veredas”; a dúvida, a incerteza tornam os caminhos tortuosos, portanto é preciso reconhecê-las, assumi-las com honestidade a fim de superá-las. Toda a vida e missão de João Batista estavam focadas na certeza de que o Messias estava chegando, admitir que talvez ele não tivesse chegado, era reconhecer uma missão falida, uma expectativa frustrada. Contudo, o Batista não se fecha no seu pensamento para dali tirar as conclusões definitivas, mas comprometido com a verdade, vai buscá-la para além dos seus limites, não se deixa convencer com suas conjecturas, mas firmemente dá o passo da fé, ou seja, ainda que pareça duvidar, dá provas de que acredita que Jesus é o Messias, doutro modo não valeria a pena enviar seus discípulos a Ele. 
Diante de cenários tão incertos e confusos que marcam a vida da sociedade, da Igreja, dos povos, é preciso assumir a crise (inclusive de fé) e transformar a pergunta da crise em resposta de fé: “És tu aquele que devia vir!



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana