III Domingo do Advento: Mt 11,2-11 - Alegrai-vos, Ele está perto!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Por causa da proximidade do Natal do Senhor, o III Domingo do Advento é chamado de Gaudete: Alegrai-vos! Uma alegria que brota no coração de quem acolhe o Salvador; diferente de uma alegria passageira, sensação momentânea de contentamento, mas sem raiz e consistência. A alegria cristã não depende do resultado exitoso do nosso fazer, mas brota do encontro com a ação salvífica de Deus, que nos ama e vem a nós. 
O profeta Isaías proclama a razão da verdadeira alegria: “Alegre-se a terra... Seus habitantes verão a glória do Senhor” (1ª Leitura); São Tiago reforça a certeza de que a verdadeira alegria é garantida pela proximidade da vinda do Senhor, ainda que seja necessário perseverar com firmeza inclusive no sofrimento (2ª Leitura). 
O evangelho apresenta uma tensão entre a expectativa messiânica do tempo de João Batista e a novidade radical que Jesus inaugura. O Profeta do deserto anunciava um Messias encarregado do juízo e que realizaria a purificação escatológica, mas Jesus revela que o “dia do Senhor” não é apenas condenação, mas sobretudo restauração e vida nova; a morte do pecador não é justiça de Deus, pois Ele quer a conversão e a vida.
Na expectativa de João Batista, o Messias é visto como juiz que separa bons e maus (imagem do machado à raiz da árvore e do fogo purificador). Enquanto a prática de Jesus se realiza como cura, libertação do poder do maligno, inclusão e anúncio da boa notícia aos pobres; o Reino de Deus como proximidade, compaixão e transformação da realidade. 
Nessa cena, percebe-se uma certa crise de João: mesmo sendo o precursor, precisou discernir e se abrir à novidade. Sua missão se consolidou como “voz que clama no deserto”, uma missão importante na preparação dos corações para acolher o Cristo. O próprio Jesus o reconhece “mais do que um profeta”, porque sua vida coerente e despojada o tornou sinal vivo da chegada do Reino. Contudo, ambos reconhecem a superioridade de um em relação ao outro.  
Vale salientar que os evangelhos mostram que João Batista precisou amadurecer sua compreensão sobre o Messias: muitos judeus esperavam um libertador político ou um juiz implacável, mas Jesus se revelou como o Servo sofredor, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).
O episódio do evangelho de hoje: o envio dos discípulos para perguntar a Jesus “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” é um dos momentos mais humanos e profundos do Evangelho, pois revela a crise como caminho de fé: João não esconde suas dúvidas, ele as transforma em oportunidade de buscar confirmação diretamente de Cristo. João, que dedicou toda a sua vida à preparação do caminho do Messias, poderia ter se fechado em suas próprias convicções e concluído sozinho. Na prisão, consciente da sua morte iminente, poderia ter se revoltado e se fechado encerrando a sua missão de precursor frustrado e falido. Mas, ao enviar seus discípulos, ele demonstra humildade e abertura: prefere confrontar suas incertezas diante de Jesus do que permanecer em conjecturas pessoais. 
Isso mostra que a fé não é ausência de questionamentos, mas coragem de levá-los ao Senhor. Nesse momento, evidencia-se fortemente a humildade do profeta, pois reconhece que não é ele quem convencerá os outros; sua missão é apontar para Jesus, e agora, mesmo limitado pela prisão, ele confia que o próprio Cristo dará testemunho de si. Enviando a Jesus os seus discípulos, ele, de certo modo, continua a sua missão de preparar os caminhos do Senhor.
A dúvida do Batista favorece o encontro pessoal dos seus discípulos com Jesus; o seu testemunho abre a porta, mas cada discípulo precisa ver e ouvir Jesus para confirmar sua fé: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo...” Confirma-se, portanto, que a experiência pessoal com Cristo é insubstituível. Ademais, a crise pode libertar: paradoxalmente, acorrentado, João se torna livre. Ele se desapega da necessidade de controlar a fé dos outros e entrega-os ao encontro direto com o Messias. 
O profeta João assumiu a vulnerabilidade como força, pois reconhecendo as suas dúvidas sinceras, mostra que a fé autêntica não se constrói na negação da fragilidade, mas na abertura para que Deus ilumine a escuridão. 
Assim como João Batista não se fechou em suas próprias conjecturas, nós também podemos transformar nossas dúvidas em oportunidade de encontro. A fé não é um muro que nos protege da incerteza, mas uma ponte que nos leva além dela.
O tempo do Advento nos favorece essa oportunidade de reconhecermos as nossas crises, inclusive de fé; contudo, sem perder a esperança que não decepciona e produz a verdadeira alegria.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana