Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A partir do III Domingo da Quaresma (Ano A), a liturgia nos conduz por um caminho profundamente pedagógico: um itinerário batismal. Além da preparação dos catecú-menos para o batismo, os já batizados, por sua vez, são convidados a voltar às fontes da própria fé, renovando a sua consciência e compromissos cristãos. Os respectivos trechos do evangelho nos apresentam três encontros decisivos com Cristo: a Samaritana, o Cego de Nascença e Lázaro; em cada um deles Jesus se revela, e, ao mesmo tempo, revela o que nós nos tornamos pelo batismo. Sem desconsiderar os elementos históricos desses encontros, interessa-nos sobretudo o significado mais profundo dessas experiências que podem e devem ser também nossas.
“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço”: levando em consideração construção sintática do texto grego (ἐκαθέζετο οὕτως ἐπὶ τῇ πηγῇ : sentou-se pois sobre o poço) o evangelista nos dá uma chave de leitura importante para toda a perícope, isto é, Jesus “sobre o poço” torna-se o verdadeiro poço.
“Dá-me de beber”, com este pedido Jesus inicia um dos diálogos mais tensos e exigentes de toda a sua missão. À primeira vista, parece apenas um pedido simples. Mas, no Oriente Antigo, pedir água era gesto de reconciliação, de aproximação, de desejo de paz. Apresentar-se diante do outro, sobretudo quando há inimizade, era manifestar o seu desejo de reatar as relações, estabelecer a paz. Ao apresentar-se vulnerável, cansado, sedento, Jesus derruba as barreiras que separavam judeus e samaritanos, homens e mulheres, puros e impuros, pois vem para que todos tenham vida e vida em plenitude (cf. Jo 10,10).
A resposta da Samaritana: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana” (importante ler 2Rs 17,24-41 para entender historicamente essa inimizade). “Se conhecesses o dom de Deus... tu mesma lhe pediria... e ele te daria água viva”. A Samaritana indo ao poço para buscar água material é convidada a beber da água viva, que não se encontrava naquele poço, mas que jorrará do lado aberto do crucificado, indicado pelo detalhe da hora desse encontro (por volta da hora sexta, como no calvário: Jo 19,14.28).
Na Samaritana vemos a humanidade sedenta que precisa ouvir a palavra de Jesus: “Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede”. Portanto, o batismo não é apenas um rito, mas um encontro que transforma, pois faz brotar uma fonte dentro de nós, nos garante uma saciedade que o mundo não pode dar. A mulher, tocada por essa água viva, deixa o cântaro, símbolo de suas antigas buscas, e corre para anunciar. Quem encontra Cristo torna-se fonte para outros.
A sede de Jesus, nesse momento, se revela como desejo ardente de saciar a sede da mulher, de dar-lhe vida plena, que começa com a iluminação da sua história nem sempre exemplar: “Vai chamar o teu marido”, mas que será necessário reconhecer e assumir a fim de curar as feridas do seu coração preconceituoso e seus sentimentos de inferioridade: “Não tenho marido”. Jesus faz a mulher encontrar-se com a sua verdade: “Disseste bem...Nisso falaste a verdade”, para em seguida encontrar a Verdade: “Senhor, vejo que és um profeta!”. Portanto, Jesus não estava simplesmente pedindo água, mas abrindo um caminho de libertação para aquela mulher, um verdadeiro êxodo. Nesse encontro, a Samaritana é conduzida do Poço de Sicar para o monte calvário onde tudo se consume. Não basta apenas contemplar a Samaritana que se encontra com Jesus junto ao poço de Jacó, mas é preciso também ir até ele, fonte da verdadeira água que brota para a vida eterna. E sem beber dessa água, morreremos sedentos ainda que satisfatoriamente hidratados.
“Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade dizendo ao povo: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?’” Como a Samaritana, todo catecúmeno deve fazer a experiência desse encontro. Não mais mergulhar seu cântaro numa cacimba, mas imergir completamente nas fontes batismais para morrer e ressuscitar com Cristo e anunciá-lo através do testemunho de vida.
Sem dúvida, esta foi a experiência da Samaritana e, portanto, deve ser a de todo batizado. A missão não é algo artificial que procura estratégias para impor aos outros ideias ou pensamentos pessoais ou de um grupo, mas é, antes de tudo, testemunho convicto: “Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’”.
Em síntese, o encontro de Jesus com a Samaritana, na perspectiva mistagógica-quaresmal, apresenta três etapas de amadurecimento na fé, cada uma marcada por um título que ela atribui a Jesus: “Tu, judeu”: o olhar marcado pelo preconceito e pela distância, pois ela enxerga Jesus apenas como um estrangeiro, alguém de quem deveria manter distância. Mas representa o início da fé, isto é, quando ainda vemos Jesus de fora, sem intimidade, sem compreensão profunda; “Senhor… Profeta”: abertura do coração e conversão. Ao dialogar com Jesus, ela se deixa tocar, questionar e corrigir. Reconhece que Ele vê sua vida com verdade e misericórdia. Por conseguinte, aqui começa a conversão: mudança de atitudes, abandono de justificativas, acolhimento da verdade. E, por fim, o ápice da proclamação de fé: “Messias… Cristo”: a fé madura e missionária. A “mulher” (como Jesus a chama em 4,21: símbolo da esposa infiel que volta ao seu marido) chega ao reconhecimento pleno: Jesus é o Salvador esperado. A fé se torna testemunho por isso ela deixa o cântaro e corre para anunciar. A verdadeira fé sempre transborda em missão.
Nessa experiência do encontro de Jesus com a Samaritana vemos que a fé não é estática. Todo batizado, e não apenas os catecúmenos, é chamado a aprofundar continuamente o conhecimento da pessoa de Jesus, permitir que Ele ilumine e corrija a própria vida, responder ao amor recebido com uma vida santa, e assumir a missão de testemunhar com alegria aquilo que experimentou. O tempo santo da quaresma é favorável para crescermos neste percurso, pois nisso consiste a verdadeira conversão.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A partir do III Domingo da Quaresma (Ano A), a liturgia nos conduz por um caminho profundamente pedagógico: um itinerário batismal. Além da preparação dos catecú-menos para o batismo, os já batizados, por sua vez, são convidados a voltar às fontes da própria fé, renovando a sua consciência e compromissos cristãos. Os respectivos trechos do evangelho nos apresentam três encontros decisivos com Cristo: a Samaritana, o Cego de Nascença e Lázaro; em cada um deles Jesus se revela, e, ao mesmo tempo, revela o que nós nos tornamos pelo batismo. Sem desconsiderar os elementos históricos desses encontros, interessa-nos sobretudo o significado mais profundo dessas experiências que podem e devem ser também nossas.
“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço”: levando em consideração construção sintática do texto grego (ἐκαθέζετο οὕτως ἐπὶ τῇ πηγῇ : sentou-se pois sobre o poço) o evangelista nos dá uma chave de leitura importante para toda a perícope, isto é, Jesus “sobre o poço” torna-se o verdadeiro poço.
“Dá-me de beber”, com este pedido Jesus inicia um dos diálogos mais tensos e exigentes de toda a sua missão. À primeira vista, parece apenas um pedido simples. Mas, no Oriente Antigo, pedir água era gesto de reconciliação, de aproximação, de desejo de paz. Apresentar-se diante do outro, sobretudo quando há inimizade, era manifestar o seu desejo de reatar as relações, estabelecer a paz. Ao apresentar-se vulnerável, cansado, sedento, Jesus derruba as barreiras que separavam judeus e samaritanos, homens e mulheres, puros e impuros, pois vem para que todos tenham vida e vida em plenitude (cf. Jo 10,10).
A resposta da Samaritana: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana” (importante ler 2Rs 17,24-41 para entender historicamente essa inimizade). “Se conhecesses o dom de Deus... tu mesma lhe pediria... e ele te daria água viva”. A Samaritana indo ao poço para buscar água material é convidada a beber da água viva, que não se encontrava naquele poço, mas que jorrará do lado aberto do crucificado, indicado pelo detalhe da hora desse encontro (por volta da hora sexta, como no calvário: Jo 19,14.28).
Na Samaritana vemos a humanidade sedenta que precisa ouvir a palavra de Jesus: “Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede”. Portanto, o batismo não é apenas um rito, mas um encontro que transforma, pois faz brotar uma fonte dentro de nós, nos garante uma saciedade que o mundo não pode dar. A mulher, tocada por essa água viva, deixa o cântaro, símbolo de suas antigas buscas, e corre para anunciar. Quem encontra Cristo torna-se fonte para outros.
A sede de Jesus, nesse momento, se revela como desejo ardente de saciar a sede da mulher, de dar-lhe vida plena, que começa com a iluminação da sua história nem sempre exemplar: “Vai chamar o teu marido”, mas que será necessário reconhecer e assumir a fim de curar as feridas do seu coração preconceituoso e seus sentimentos de inferioridade: “Não tenho marido”. Jesus faz a mulher encontrar-se com a sua verdade: “Disseste bem...Nisso falaste a verdade”, para em seguida encontrar a Verdade: “Senhor, vejo que és um profeta!”. Portanto, Jesus não estava simplesmente pedindo água, mas abrindo um caminho de libertação para aquela mulher, um verdadeiro êxodo. Nesse encontro, a Samaritana é conduzida do Poço de Sicar para o monte calvário onde tudo se consume. Não basta apenas contemplar a Samaritana que se encontra com Jesus junto ao poço de Jacó, mas é preciso também ir até ele, fonte da verdadeira água que brota para a vida eterna. E sem beber dessa água, morreremos sedentos ainda que satisfatoriamente hidratados.
“Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade dizendo ao povo: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?’” Como a Samaritana, todo catecúmeno deve fazer a experiência desse encontro. Não mais mergulhar seu cântaro numa cacimba, mas imergir completamente nas fontes batismais para morrer e ressuscitar com Cristo e anunciá-lo através do testemunho de vida.
Sem dúvida, esta foi a experiência da Samaritana e, portanto, deve ser a de todo batizado. A missão não é algo artificial que procura estratégias para impor aos outros ideias ou pensamentos pessoais ou de um grupo, mas é, antes de tudo, testemunho convicto: “Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’”.
Em síntese, o encontro de Jesus com a Samaritana, na perspectiva mistagógica-quaresmal, apresenta três etapas de amadurecimento na fé, cada uma marcada por um título que ela atribui a Jesus: “Tu, judeu”: o olhar marcado pelo preconceito e pela distância, pois ela enxerga Jesus apenas como um estrangeiro, alguém de quem deveria manter distância. Mas representa o início da fé, isto é, quando ainda vemos Jesus de fora, sem intimidade, sem compreensão profunda; “Senhor… Profeta”: abertura do coração e conversão. Ao dialogar com Jesus, ela se deixa tocar, questionar e corrigir. Reconhece que Ele vê sua vida com verdade e misericórdia. Por conseguinte, aqui começa a conversão: mudança de atitudes, abandono de justificativas, acolhimento da verdade. E, por fim, o ápice da proclamação de fé: “Messias… Cristo”: a fé madura e missionária. A “mulher” (como Jesus a chama em 4,21: símbolo da esposa infiel que volta ao seu marido) chega ao reconhecimento pleno: Jesus é o Salvador esperado. A fé se torna testemunho por isso ela deixa o cântaro e corre para anunciar. A verdadeira fé sempre transborda em missão.
Nessa experiência do encontro de Jesus com a Samaritana vemos que a fé não é estática. Todo batizado, e não apenas os catecúmenos, é chamado a aprofundar continuamente o conhecimento da pessoa de Jesus, permitir que Ele ilumine e corrija a própria vida, responder ao amor recebido com uma vida santa, e assumir a missão de testemunhar com alegria aquilo que experimentou. O tempo santo da quaresma é favorável para crescermos neste percurso, pois nisso consiste a verdadeira conversão.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
