III Domingo da Páscoa: Lc 24,13-35 - Não somos discípulos para Emaús

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O itinerário proposto pela liturgia durante esses cinquenta dias de júbilo pascal se desenvolve em três fases distintas, porém intrinsecamente relacionadas. A 1ª fase é a Oitava da Páscoa, cujo centro é o anúncio de que Cristo não está no sepulcro, mas vivo e, por isso, manifesta-se à sua comunidade, a fim de que essa creia na sua vitória sobre a morte e se prepare para assumir a sua missão. A 2ª fase (III ao V Domingo) nos apresenta os fundamentais desafios para que a comunidade do Ressuscitado se torne verdadeiramente suas testemunhas, tome consciência das exigências da sua identidade e missão; por fim, a 3ª fase (VI Domingo e Ascenção) é preparação imediata para a conclusão do Tempo Pascal com a Solenidade de Pentecostes. 
A tão conhecida narração do evangelho de hoje nos introduz no 2º momento desse percurso pascal; não basta apenas afirmar que Jesus ressuscitou, é preciso que os seus discípulos também façam a experiência da vida nova que Ele lhes conquistou, para isso é preciso empreender um caminho de conversão (voltar de Emaús), de mudança de mentalidade, deixando-se iluminar pela ressurreição do Senhor que dá uma nova compreensão às Escrituras (dinâmica do caminho) e faz enxergar a verdade dos acontecimentos da vida, que se nutre com a presença permanente do Crucificado que ressuscitou (Eucaristia). À luz da Escritura e alimentada pela Eucaristia, a comunidade vence toda tendência imediatista, ensimesmada e superficial de pensar e viver a sua missão no mundo, partindo de Jerusalém, e não se refugiando em quaisquer vilarejos que garantam proteção e comodidade. 
O tradicional título dado a esta narração evangélica: “Os discípulos de Emaús”, apesar de ser tão comum entre nós, não parece ser muito coerente com o texto. Infelizmente a visão superficial nos aprisiona a estereótipos e não nos damos conta de suas ulteriores deformações. Para muitos a expressão virou poesia, e tantos almejam tornar-se “Discípulos de Emaús”. Tecnicamente “de Emaús” serve para identificar a proveniência (por exemplo, Maria de Magdala, Paulo de Tarso: são antropônimos geográficos). Contudo, o evangelho em nenhum momento faz esse tipo de referência; encontramos apenas: “Dois discípulos de Jesus iam para um povoado chamado Emaús”. O que é Emaús? Onde fica? Diz-se apenas que é um vilarejo perto de Jerusalém (11km), contudo até hoje não se sabe com precisão onde está situado; na Bíblia só essa vez é mencionado (Lc 24,13). Se geograficamente não se pode localizá-lo, etimologicamente pode ter significado de “fortaleza” (do hebraico ‘amós). Quiçá estamos diante de uma importante chave de leitura do episódio. 

 

Diante da morte de Jesus, os seus discípulos passaram por uma profunda convulsão. O próprio Jesus anunciou: “Esta noite todos vós vos escandalizareis por minha causa, pois está escrito: ‘Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão’. Mas, depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galileia” (Mt 26,31-32). E umas das reações foi justamente procurar segurança, fugir para um lugar ou situação que garantisse proteção (fortaleza). Alguns se reuniram e trancaram as portas por medo (Jo 20,19s); outros abandonaram a comunidade momentaneamente, mas retornaram (Tomé); outros tomaram o caminho de distanciamento de Jerusalém, decepcionados diante de suas expectativas. Ir na direção de Emaús representa uma dessas soluções fáceis. Portanto, renunciar ao chamado de ser discípulo de Jesus. 
O Senhor, porém, vai ao encontro de todos, pois não quer que nenhum se perca, nem dentro de casa trancados, nem fora, longe da comunidade, deserdados. O caminho para Emaús é ocasião para Jesus ajudar os discípulos a mudarem de rumo (conversão). Diante da morte de Jesus havia várias outras possibilidades: tornar-se “discípulos do medo e da covardia”, “discípulos da conveniência e oportunismo”, como também “discípulos da fuga”. Portanto, aqueles que arriscavam se tornar “discípulos de Emaús” são desafiados pelo próprio Jesus a reassumirem a vocação original de ser discípulos do Ressuscitado, suas testemunhas, cuja fé vence o medo e a coragem faz retornar às origens, ainda que a noite já se adiante. No caminho para Emaús, Jesus propõe uma inversão de marcha, aquecendo os seus corações com uma nova leitura-interpretação dos fatos à luz da Palavra, abrindo-lhes o coração e a mente para uma nova compreensão dos acontecimentos da sua morte e ressurreição à luz da sua vida, dos seus ensinamentos e de sua obediência ao Pai. 


Fazendo caminho para Emaús, Jesus forma o coração dos companheiros de viagem para uma outra direção, a fim de que abandonem a tentação da busca de proteção (Emaús: fortaleza), longe da comunidade, mas que descubram que o lugar deles é o cenáculo em Jerusalém, onde eles viram Jesus pela última vez partindo o pão, como sinal de sua entrega, do seu amor incondicional, e onde receberão o Espírito Santo para continuar a obra de Jesus. A palavra de Jesus no caminho para Emaús foi mostrando a necessidade de mudar de rota. Contudo, precisavam mais do que uma nova indicação de rota, necessitavam de forças para voltar. Por isso, o próprio Senhor, ao tomar o pão, dar graças, partir e entregar-lhes, os alimenta, dando-lhes disposição para empreender o caminho de volta. 
O evangelho de hoje nos apresenta um grande desafio: abandonar o caminho para Emaús e tornar-se discípulo de Jesus; isso exige escuta atenta e fiel da Palavra, coragem de ir além das aparências dos fatos, rompendo com interpretações precipitadas e fundadas na incredulidade, e deixar-se revigorar pela Eucaristia, o alimento para quem não busca seguranças fáceis, mas que reconhece que a sua missão é a mesma missão do Mestre, que não se acovardou diante da cruz, e por isso, ressuscitou. 
O tempo da Páscoa é momento propício para revermos a nossa rota. Se estamos indo para Emaús ou se estamos nos deixando orientar pelo Divino Caminheiro, que se faz caminho, nos precede na estrada certa, nas sendas da missão. O que queremos ser? Discípulos de Emaús ou discípulos de Jesus? Para Emaús teremos comodidade aparente, mas viveremos no vazio de sentido por causa do medo, e na ausência de esperança, por causa da fuga. Se decidirmos por Jesus, teremos companhia indispensável (comunidade), orientação imprescindível (Palavra de Deus), alimento em abundância (Eucaristia), destino garantido (vida plena).




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana