III Domingo da Páscoa: Lc 24,13-35 - A Palavra ilumina, o pão fortalece!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A cena do evangelho de hoje, sem dúvida, é uma das páginas mais comentadas ao longo da história; fonte inspiradora para muitas experiências no seio da comunidade cristã, inclusive referência carismática para grupos e movimentos de espiritualidade. Por outro lado, não podemos fazer uma leitura dessa experiência buscando apenas a compreensão de um fato passado; o caminho de Emaús é um processo de conversão de direção, de reorientação interior, de retorno à missão a partir do encontro com o Senhor Morto e Ressuscitado. Portanto, não podemos cair na tentação de romantizar a narrativa; é preciso nos confrontar com o apelo de urgente conversão que subjaz em todo o relato. Conversão que significa voltar à comunhão para assumir a missão, iluminados pela Palavra e fortalecidos pelas Eucaristia.
Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros”. O texto grego utiliza um importante conectivo (Kaì idoù: “Eis que”, literalmente: veja!) para chamar a atenção do leitor, convidando-o a uma leitura ativa, uma verdadeira contemplação a ponto de se integrar na cena. A menção “dois discípulos” nos remete, paradoxalmente, mais ao contexto do envio dos 72 discípulos (cf. Lc 10,1), que receberam o mandato missionário de ir à frente de Jesus, do que uma informação para descrevê-los como um casal (homem e mulher), redundando em questões ideológicas, tirando o foco do essencial. 
A referência “onze quilômetros” evidencia um distanciamento da comunidade que ficou em Jerusalém; mais do que uma simples distância geográfica. O caminho para Emaús é um símbolo da fuga; ir para longe de Jerusalém significa ir para longe da cruz, da missão; é o caminho da desilusão, da incerteza: “Nós esperávamos…”. Ratifica-se, assim, que a decisão dos dois discípulos é contraditória, uma vez que um dia foram enviados “dois a dois” para missão, mas agora “dois a dois” estão fugindo dela.  
Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles”. Jesus não aparece impondo uma nova rota, mas caminha junto, escuta: “O que ides conversando no caminho?”. E somente depois de ouvi-los, reinterpreta os referidos acontecimentos à luz das Escrituras. Não é uma leitura fundamentalista dos fatos, mas esclarece-lhes o fundamento de tudo o que aconteceu: “Começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da escritura que falavam a respeito dele”. Isso nos faz lembrar a experiência da Transfiguração quando os discípulos veem Jesus conversando com Moisés e Elias acerca do que iria acontecer em Jerusalém (cf. Lc 9,30-31). Naquele momento, escutam a voz do céu: “Este é o meu filho, o Eleito; ouvi-o sempre” (v. 35). Inaugura-se assim o novo tempo: Jesus, o Verbo Encarnado, é o único autorizado a interpretar fielmente as Escrituras; por isso, não se dialoga mais diretamente com as Escrituras (Moisés e Elias: a Lei e os Profetas), mas deve-se ouvir o que Jesus diz sobre elas. Se os doutores da Lei quando interpretavam as Escrituras fecham a inteligência das pessoas, impedindo-as de compreender (cf. Lc 11,46), Jesus é aquele que tem autoridade e por isso declara: “Hoje se cumpriu o que acabastes de ouvir” (Lc 4,21).
Quando chegaram ao povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante”. A expressão “fez de conta” é ambígua, e pode dar a impressão de uma simulação, o que não combina com a vida de Jesus, pois a sua autoridade vem da coerência entre dizer e fazer. Nele não há oposição entre palavras e atitudes, e por isso não poderia encenar algo que não fosse verdade. Destarte, é preferível a tradução literal do grego: “ele deu a impressão de mais adiante ir” (kaì autòs prosepoiésato porróteron poreúesthai). Seguindo a lógica da narração, o “ir mais adiante” tem significado de continuar o ensinamento; os discípulos intuem isso e pedem veementemente (grego literal: parebiásato autòn, “constrangeram-no”): “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando”. Esse pedido tem duas finalidades: Jesus permanecer com eles para continuar a esclarecer os fatos; e, consequentemente, continuar a ser luz, ainda que venha a noite. Eles não oferecem simplesmente abrigo para Jesus passar a noite, mas pede que Jesus fique com eles para que a noite da incerteza passe.  
Jesus entrou para permanecer com eles”. A permanência de Jesus para continuar o seu ensinamento não é simplesmente para obedecer a um pedido deles, mas é iniciativa do próprio Jesus, que já aquecera os seus corações ao longo do caminho, preparando-os para algo a mais: a fração do pão, isto é, a encarnação da Palavra, o sacramento da sua presença. De hóspede, Jesus se torna anfitrião; sendo pastor que conduz com segurança pelos vales tenebrosos (caminho da dúvida e do medo), estando em casa, prepara-lhes um banquete bem à frente do inimigo (a noite vem chegando).  
Sentou-se à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu e lhes distribuía”. A mesma coisa que fez na última ceia (cf. Lc 22,19); é o gesto que relaciona o último momento de Jesus na ceia com os seus discípulos e o agora com Jesus ressuscitado. “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus”. Confirma-se a continuidade, reconhecer que é o mesmo Senhor. São Tomé, por sua vez, também exigiu a continuidade: ao ouvir a comunidade afirmar ter visto o Senhor (cf. Jo 20,24-25), coloca a condição: se aquele que vocês viram não for o crucificado, não acreditarei. A tentação da descontinuidade revolucionária destrói valores perenes, enquanto a coerente continuidade garante sempre novos frutos que surpreendem.  
Ao reconhecerem Jesus, os dois discípulos fazem a síntese de toda a experiência pascal, que começa com a Palavra que ilumina e aquece o coração: “Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho”; mas que alcança seu ápice na “fração do pão”, momento em que eles reconhecem definitivamente o Senhor Jesus. A Escritura sem a Eucaristia priva a Palavra de realizar a sua missão, isto é, encarnar-se. Pois a “Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Apenas ouvir a Escritura, mas não se alimentar da Palavra encarnada é ficar no meio do caminho: “Quem não comer a minha carne e beber o meu sangue não terá a vida” (Jo 6,53). Se a leitura e a compreensão da Escritura fossem bastantes para encontrar o sentido mais profundo da entrega de Jesus, a sua morte e ressurreição, Ele não precisaria ter permanecido com eles e repartido o pão. Só no partir do pão é que os olhos se abrem.   
Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém”. Literalmente “se puseram de pé”, no grego tem o mesmo significado de ressuscitar (anastántes do verbo anístemi, anastasis: ressurreição). Ao levantar-se, os discípulos não apenas iniciam o caminho de volta, mas testemunham que a ressurreição do Senhor os alcançou. A mudança de direção começa no coração, não nos pés. Antes de voltar para Jerusalém, eles precisaram voltar para dentro de si mesmos, reencontrar o sentido da cruz e da ressurreição. O retorno a Jerusalém, o lugar da cruz, o lugar da comunidade, o lugar da promessa do Espírito, o lugar onde Jesus termina a missão e começa a dos discípulos.
Encontram os onze reunidos... contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”. “Fração do pão” era a expressão clássica do Cristianismo primitivo para falar da celebração Eucarística (cf. At 2,42.49;20,7; 27,35; 1Cor 10,16; 11,24). O caminho da Palavra prepara a mesa da Eucaristia. A Palavra ilumina, mas o Pão fortalece. A Palavra reacende o fogo: “Não ardia o nosso coração?” mas é o Pão partido que dá força para o retorno. No gesto eucarístico (tomar, dar graças, partir e entregar), Jesus se revela, cura a memória, devolve a coragem, alimenta para a missão. A Eucaristia não é apenas luz, é força espiritual para recomeçar. 
O encontro com Jesus ressuscitado transforma fugitivos em testemunhas. Eles voltam imediatamente, porque quem reencontra o sentido da vida não tem mais medo de morrer, assume o caminho ainda que seja noite, enfrenta a escuridão porque sabe que a luz do ressuscitado está brilhando no seu interior, e descobre que a verdadeira fonte não é Emaús (que significa: “fonte quente”, “manancial quente” ou “lugar das águas quentes”, deriva do hebraico ḥammath), mas o Cenáculo, onde o Ressuscitado nos reúne, nos alimenta e nos envia para testemunhar que Ele realmente está vivo e nos faz viver.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana