II Domingo Tempo Comum: Jo 1,29-34 - O testemunho: ápice da missão

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Depois de vivenciarmos o ciclo do Natal com toda a sua riqueza kerigmática, entramos no Tempo Comum que nos ajuda a fazer o percurso de aprofundamento catequético sobre Jesus e a sua missão, para assim podermos crescer na nossa resposta de fé através do seu seguimento. Portanto, o evangelho de hoje nos dá a perspectiva fundamental para alcançar esse objetivo, isto é, o testemunho, cuja referência se encontra na própria tradição evangélica com o ponto mais alto da missão de João Batista, que não apenas anunciou a vinda do Messias, mas mostrou-o presente.
Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” — uma frase que resume toda a missão de Jesus, não é apenas um título, mas uma chave de leitura para compreender toda a vida e obra de Jesus. Ela carrega três dimensões fundamentais: em primeiro lugar, uma referência direta ao Antigo Testamento. A expressão “Cordeiro de Deus” evoca várias imagens bíblicas: o cordeiro pascal do Êxodo, cujo sangue libertou Israel da escravidão (cf. Ex 12); o servo sofredor de Isaías, que “carrega sobre si as nossas dores” (Is 53,4), e os sacrifícios do Templo, oferecidos para expiação dos pecados (cf. Lv 12). Por isso, João Batista, ao usar essa expressão revestida de simbolismo religioso, faz uma síntese de séculos de espera; aponta para Jesus como o cumprimento de tudo aquilo que Israel aguardava. Depois, a expressão é uma revelação sobre quem é Jesus e qual a sua natureza e missão: Ele é o Enviado de Deus, o Messias esperado, aquele que não apenas anuncia, mas realiza a salvação.
A frase funciona como um título cristológico que resume a identidade de Jesus: o Salvador que se entrega por amor. João não diz “os pecados de Israel”, mas “o pecado do mundo”. Isso amplia a missão de Jesus para além de um povo ou cultura: Ele vem para toda a humanidade, sua obra é redentora e universal, Ele inaugura uma nova etapa da história da salvação.
O qualificativo “de Deus”: indica a origem que muda tudo. No Antigo Testamento, todos os cordeiros pertenciam aos homens, eram retirados dos rebanhos humanos, eram oferecidos por iniciativa humana ou eram imagens simbólicas usadas pelos profetas.
Mas João Batista aponta para um cordeiro que não vem do rebanho dos homens, nem é fruto da iniciativa humana; Ele vem de Deus, é enviado por Deus, pertence a Deus e realiza uma obra que só Deus pode realizar. Isso já coloca Jesus acima de todos os sacrifícios anteriores. Ele não é um cordeiro entre outros; é o cordeiro que nenhum homem poderia oferecer; é o cordeiro que Abraão não tinha, mas profetizou: “Deus providenciará o cordeiro para o holocausto” (cf. Gn 22). Essa frase é uma promessa aberta, uma profecia em estado embrionário. Abraão não tinha o cordeiro. Nenhum cordeiro humano seria suficiente para expressar o amor radical e a fidelidade absoluta que Deus queria revelar. Séculos depois, João Batista aponta para Jesus e, de certa forma, diz: “Eis o cordeiro que Deus prometeu providenciar”, Jesus é o Cordeiro que faltava na história da salvação. O cordeiro que morre, mas permanece vivo; é a chave que unifica toda a Escritura. Quando João Batista aponta para Jesus, ele fecha o ciclo iniciado com Abraão, cumpre o sentido profundo da Páscoa do Êxodo, supera os sacrifícios do Templo, realiza plenamente a figura do Servo sofredor de Isaías, inaugura a vitória definitiva revelada no Apocalipse.
Na mentalidade bíblica, o nome não é um rótulo, mas uma revelação da essência. Por isso, quando João Batista aponta Jesus como “Aquele que tira o pecado do mundo”, ele não está apenas apresentando alguém, mas está interpretando o significado mais profundo da sua presença (Jesus: Deus-salva). O nome de Jesus não é apenas um nome — é um programa de vida, uma missão. João Batista, ao proclamá-lo como “Cordeiro de Deus”, revela que a salvação não será um ato político ou militar, mas um gesto de amor que remove aquilo que impede a vida plena.
E quando João diz “o pecado do mundo” (no singular), ele não está falando apenas de atos individuais, mas de tudo aquilo que rompe a relação com Deus: estruturas, escolhas, feridas, injustiças. Jesus vem para enfrentar essa raiz profunda. O pecado como fechamento ao amor, não é apenas um ato moral isolado, mas uma atitude existencial (fechamento ao amor, recusa da luz, resistência à verdade, desobediência à voz de Deus).
E João deu testemunho, dizendo: ‘Eu vi o Espírito descer sobre Ele’”. João não apenas anuncia, ele vê e reconhece a ação de Deus acontecendo diante de si em Jesus. O Espírito descendo em forma de pomba e a voz do Pai revelam que Jesus é o Filho de Deus e aquele que salva tirando o pecado do mundo. Esse momento inaugura algo totalmente novo: a presença do Messias que transforma a história. O Batismo de Jesus é início da nova criação por isso a imagem do Espírito sobre as águas que remete diretamente ao Gênesis, quando o Espírito pairava sobre o caos para gerar vida. Agora, no Jordão, o Espírito repousa sobre o Filho, que mergulha e emerge das águas como sinal antecipado de sua morte e ressurreição. Em Cristo, Deus recria o mundo, oferecendo uma vida nova que vence o pecado e a morte. João testemunha não apenas com a voz, mas com a capacidade de perceber que Deus está fazendo uma nova realidade. 
O cristão, ao acolher essa salvação, torna-se sinal vivo dessa novidade. Eis o verdadeiro testemunho. O mundo reconhece Cristo não apenas pelo discurso, mas pela vida transformada daqueles que o seguem. O Evangelho não nos apresenta apenas o testemunho de João, ele nos provoca a olhar para o nosso próprio testemunho. João não anuncia apenas com palavras; ele reconhece o que Deus está fazendo e se coloca a serviço dessa obra. Seu testemunho é coerente, transparente, comprometido.
E nós? O que o mundo vê quando olha para a nossa vida? Vê apenas palavras religiosas ou percebe sinais concretos de uma existência transformada? O cristão não é chamado apenas a dizer que Deus salva, mas a testemunhar que essa salvação o alcançou. A salvação acolhida se torna visível em atitudes, escolhas, gestos de misericórdia, compromisso com a justiça, capacidade de perdoar, coragem de recomeçar. O testemunho verdadeiro não é um discurso, mas uma vida que aponta para Cristo.
Quando vivemos assim, tornamo-nos colaboradores da nova criação. Somos como pequenas luzes que anunciam o novo céu e a nova terra que Deus prepara para seus filhos, como nos lembra o livro do Apocalipse. O mundo precisa desse testemunho, precisa de cristãos que, como João Batista, saibam reconhecer a presença de Deus e apontá-la com humildade e firmeza.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana