Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Neste segundo Domingo da Quaresma somos chamados a contemplar o episódio da Transfiguração do Senhor não como um “intervalo glorioso”, uma pausa para assistir a um espetáculo desconectado das tentações nem muito menos do caminho necessário que prossegue rumo à cruz; um caminho percorrido pelo Senhor e por todos os que quiserem se tornar seus discípulos. A Transfiguração é a resposta divina às tentações, cuja finalidade era desviar Jesus de seu caminho, pervertendo a sua missão de Messias-servo sofredor e desfigurando a sua identidade de Filho de Deus.Na perspectiva quaresmal os dois primeiros Domingos colocam lado a lado dois cenários contrastantes: o deserto das tentações e a montanha da Transfiguração, para revelar uma única verdade: Jesus é o Filho amado do Pai, fiel até o fim à missão que recebeu. No deserto, essa identidade é posta à prova: “Se és Filho de Deus…” (Mt 4,3.6). Na montanha, ela é proclamada solenemente: “Este é o meu Filho amado… escutai-o!” (Mt 17,5). O diabo ao tentar Jesus não estava apenas sugerindo-lhe fazer algumas coisas erradas; na verdade, era uma investida para desfigurar Jesus e a sua missão, oferecendo-lhe atalhos que evitassem o sofrimento, a cruz, a morte. No deserto, o diabo propõe um messianismo sem sofrimento: pão sem partilha, poder sem serviço, glória sem cruz; em Cesareia de Filipe, Pedro repete a mesma lógica: “Isso nunca te acontecerá!” (Mt 16,22). É significativo que a Transfiguração aconteça imediatamente após a resistência de Pedro (por isso não podemos esquecer a conexão literária feita no próprio evangelho: “Seis dias depois disso”; por questão de adaptação à leitura litúrgica, o Lecionário substituiu-a por “Naquele tempo”).A montanha se torna o lugar onde Deus corrige a visão humana e reafirma o caminho do Filho. Na Transfiguração confirma-se a pedagogia de Jesus, isto é, fortalecer os seus discípulos para o escândalo da cruz, por isso, leva consigo apenas Pedro, Tiago e João, os mesmos que estarão com Ele no Getsêmani (cf. Mt 26,37). A experiência luminosa da montanha é dada para sustentá-los na noite da agonia. Por conseguinte, a Transfiguração é consolo antes da prova, luz antes da escuridão, promessa antes do escândalo.A Transfiguração é uma revelação antecipada da Páscoa: Jesus mostra aos discípulos a glória que virá “depois da cruz”, e não “ao invés da cruz”. Nesta epifania pré-pascal destacam-se três elementos. Em primeiro lugar: “Seu rosto resplandeceu como o sol e suas vestes tornaram-se alvas como a luz”: recorda Moisés no Sinai (cf. Ex 34,29-30), mas aqui a luz não é refletida, ela brota de dentro. Jesus é a própria fonte da revelação. Em segundo lugar: “E eis que lhes apareceram Moisés e Elias conversando com Ele”, representantes da Lei e dos Profetas, que convergem na missão de Jesus. Ambos tiveram experiências de Deus na montanha e enfrentaram oposição. A presença deles confirma que o caminho do Servo Sofredor está em continuidade com toda a história da salvação. Por fim: “Uma voz, que saía da nuvem, disse: ‘Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo...’”. É a mesma voz do Batismo (cf. Mt 3,17), mas agora com um acréscimo decisivo: “Escutai-o!”. Ou seja: não escutem a Pedro, não escutem o diabo, não escutem os atalhos, escutem o Filho. Nesta declaração, inclusive, o alerta para não interpretarmos o Antigo Testamento sem a luz da revelação cristã. Jesus é, portanto, o princípio hermenêutico de toda a Escritura, pois Ele é a Palavra eterna. A proposta de Pedro: “Senhor, é bom estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas…” parece, à primeira vista, um gesto de reverência e cuidado. Mas, assim como nas tentações do deserto, há ali uma sedução escondida: reter Jesus na glória e afastá lo do caminho da cruz. Assim como Satanás ofereceu a Jesus três formas de proteção ilusória (material: transformar pedras em pão; divina: ser amparado pelos anjos; humana: receber poder e riqueza), Pedro, sem perceber, repete o mesmo movimento: quer proteger Jesus, Moisés e Elias dentro de tendas. A boa intenção de Pedro se torna obstáculo para o cumprimento da missão de Jesus. Pedro oferece estabilidade material (tendas), proteção divina (permanecer na glória) e segurança humana (evitar Jerusalém).Não podemos duvidar da solicitude de Pedro, mas esse seu amor ainda não compreende o mistério pascal. Sua proposta, embora bem-intencionada, teria consequências graves: interromperia o diálogo entre Jesus, Moisés e Elias (sobre a morte que Ele iria cumprir em Jerusalém, cf. Lc 9,31), pois cada um ficaria isolado na sua própria tenda, impediria o cumprimento das Escrituras, representadas justamente por Moisés (Lei) e Elias (Profetas), e estagnaria a glória, transformando a experiência em fuga, não em missão. É mais uma tentativa — como em Cesareia de Filipe — de afastar Jesus da cruz.Portanto, não é hora de construir tendas. Não é hora de permanecer no monte. É hora de seguir Jesus, inclusive quando Ele desce a montanha da Transfiguração para subir o monte da paixão-morte. Este tempo quaresmal nos coloca no mesmo movimento, que deve ser o caminho do discípulo de Jesus: no deserto enfrentamos nossas tentações, nossos atalhos, nossa resistência ao Evangelho, na Montanha recebemos luz, coragem e sentido para continuar. A Transfiguração nos ensina que não existe fidelidade sem cruz, cruz sem glória, e que a obediência ao que diz o Filho nos fortalece no caminho da cruz. Querer estar com Jesus na montanha da Transfiguração sem estar disposto a descer com Ele rumo ao calvário é cerrar os ouvidos à voz do Pai. A tentação de permanecer na montanha da Transfiguração é correr o risco de ficar sozinho lá, na escuridão da fuga, pois o Mestre já desceu de lá, e não aceitou substituir a sua cruz por tendas, mas a carregou até o fim. Escutar o Filho em obediência ao Pai, é ouvir permanentemente: “Quem quiser me seguir, tome a sua cruz e me siga”.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
