II Domingo da Páscoa: Jo 20,19-31 - A misericórdia: sinal do coração que pulsa

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Celebramos hoje o Domingo da Oitava da Páscoa, Domingo da Divina Misericórdia, cujo objetivo não é simplesmente devocional, mas quando a Igreja proclama a Divina Misericórdia está convidando a cada um de nós e nossas comunidades a experimentar, de forma concreta, o amor que não desiste, não se cansa e não se limita. Um amor que se revela na entrega total do Filho de Deus que, mesmo abandonado, jamais abandona, e é capaz de vencer barreiras, inclusive da incredulidade, para provar a verdade desse amor. O evangelho de hoje nos apresenta essa experiência do encontro com a misericórdia divina em dois momentos intimamente relacionados (19-23;24-31). Na primeira parte, Jesus manifesta os sinais da sua misericórdia. Na segunda parte, a reação diante desses sinais.
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”: seguindo a perspectiva simbólica do evangelista que muitas vezes apela para uma certa ambiguidade nos termos utilizados, a fim de nos conduzir à profundidade do que está relatando, não se trata aqui apenas de um anoitecer cronológico, mas indica a situação dos discípulos de Jesus após a sua morte, isto é, entram profundamente numa crise, tomados pela incerteza e o medo, consequência de uma fé que precisa amadurecer: “portas fechadas do lugar onde estavam, por medo dos Judeus”. O anoitecer torna-se então uma insistência das trevas que querem vencer a luz (cf. 1,5), é o momento crucial da opção de fé ou da confirmação da incredulidade.  
Jesus entrou e, pondo-se no meio deles”: colocar-se no meio, entre eles, não é apenas uma centralidade espacial. Mas Jesus está retomando a relação primordial entre ele e seus discípulos: “Estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27), como afirmara na última ceia. Portanto, tudo o que dirá em seguida evidenciará a sua missão, o seu serviço à humanidade, começando por seus discípulos aos quais confiará a missão de testemunhar tudo isso, isto é, os dons do ressuscitado, a saber:
A paz esteja convosco” (grego lit.: eirene hymin, paz a vós, convosco, entre vós), sendo Jesus a nossa paz (cf Ef 2,4), o fato de colocar-se entre os discípulos (sem paz, medrosos) de per si, dispensaria a saudação. Mas as palavras confirmam os gestos. Sem a presença de Jesus, apenas a saudação de paz seria insuficiente, redundaria num simples augúrio, sem efeitos garantidos. “Depois dessas palavras, mostro-lhes as mãos e o lado” (grego lit.: kai touto eipon edeiksen tas cheras kai tem pleurav, e isto dizendo mostrou as mãos e o lado). No texto grego aparece a simultaneidade das ações: enquanto saudava, disse. Portanto, Jesus deseja a paz mostrando como a conquistou, isto é, com os sinais da sua cruz. A paz de Jesus não é apenas um desejo, mas o fruto da sua morte, da sua entrega, da sua batalha. Não é a paz como o mundo dá (ausência ou negação de conflitos), mas superação deles. A consequência será a verdadeira alegria: “Os discípulos se alegraram por verem o Senhor”. E, portanto, a paz é reconfirmada.   
Por outro lado, o dom da paz do ressuscitado não acomoda os discípulos, deixando-os na sua zona de conforto, como se tudo estivesse concluído, pelo contrário: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Para compreender este mandato missionário (Pai-Jesus-discípulos), é preciso recordar um paralelo semântico: palavras de Jesus na última ceia: “Assim como o Pai me amou, também eu vos amei” (15,10). Amor e missão são faces de uma única moeda, a relação de Jesus com o Pai e a relação dos discípulos com Jesus. A missão não é um fazer simplesmente, mas um transbordamento de um encontro de amor. Por isso, recebem o dom do amor do Pai e do Filho: “E depois de dizer isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo”. O Espírito Santo, o Espírito da verdade, vem para recordar o que Jesus fez e levar adiante a sua missão através dos seus discípulos.
Como a paz foi perdida pelo pecado, a missão de Jesus, nossa paz, é a reconciliação com o Pai, o perdão dos pecados, por isso os discípulos recebem o poder de perdoar: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. Sem o anúncio do perdão dos pecados (cf. At 10,43), a boa nova da Páscoa fica incompleta, pois o perdão nos dá vida nova, ressuscitamos. 
A ausência de Tomé é carregada de significado, pois ele pode representar todos nós, ao longo do tempo, que não estivemos no cenáculo quando Jesus apareceu naquele momento. Antes de tudo, a cena revela também uma fraqueza de toda a comunidade que se contenta apenas com um aspecto do anúncio pascal: “Os outros discípulos contaram-lhe: ‘Vimos o Senhor!’”. Esta frase é muito perigosa, pois pode suscitar questionamentos: Que Senhor? Por isso, a reação lúcida e louvável de Tomé: “Se eu não vir a marca dos pregos e suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. Em outras palavras, Tomé é categórico e coerente: se o senhor que vocês viram não for o Senhor Jesus que morreu, eu não acredito. A comunidade, de fato, anunciou o mínimo: “vimos o Senhor”, mas o próprio Senhor foi reconhecido por eles justamente porque lhes mostrou as mãos e o lado. O Senhor não pode ser um ressuscitado sem ter sido crucificado. Eis a lucidez esplendida de Tomé. 
Jesus não reprova Tomé por causa da sua lucidez, inclusive deixa que ele veja e toque as suas mãos e seu lado. Contudo, a advertência é em relação à fé no testemunho da comunidade. Pois ela será responsável de agora em diante pelo anúncio de que Jesus morreu e ressuscitou. Exigir ver e tocar para acreditar precisa ser substituído pelo anúncio da morte e ressurreição de Jesus e acreditar na sua palavra, “pois ainda não tinha compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar os mortos” (Jo 20,9), como ouvimos no Domingo de Páscoa. 
Exclamar com Tomé: “Meu Senhor e meu Deus” é proclamar que a Misericórdia Divina, apesar da fragilidade de nossa fé, não nos abandona e não se cansa de vir até nós ainda que nossas portas estejam trancafiadas, mas o Coração do Crucificado-Morto-Ressuscitado está aberto.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana