I Domingo da Quaresma: Mt 4,1-11 - Tentação: cancelada com sucesso!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Neste primeiro Domingo da Quaresma, a liturgia nos convida a contemplar um caminho que se abre entre dois cenários — o jardim e o deserto — e entre duas figuras — o velho Adão e o novo Adão, o Cristo.  Na 1ª leitura, a cena do Éden revela o homem cercado de abundância, mas incapaz de obedecer ao único limite que lhe garantia a vida. O fruto proibido não é apenas um alimento material, mas o símbolo da pretensão humana de definir por si mesmo o bem e o mal, desobedecendo a Palavra do Criador, deixando de confiar Nele. O resultado é a expulsão, a perda da comunhão, o início de um longo exílio interior, isto é, a travessia do deserto onde não há frutos, sombra, água, conforto. É para lá que o novo Adão se dirige. Cristo assume a condição do homem ferido, perdido, desorientado. Ele não vai ao deserto para restaurar o paraíso com toques mágicos; Ele vai ao deserto, ao lugar onde o homem caiu, para encontrá-lo e conduzi-lo de volta pelo caminho da cruz, a verdadeira árvore da vida (2ª leitura). A Tradição Cristã sempre viu o episódio das tentações no deserto como um “contraponto” à desobediência dos nossos primeiros pais no Éden: Adão-Eva caem num jardim de abundância, Jesus vence num deserto de carência; Adão-Eva cedem à palavra da serpente, Jesus se firma na Palavra do Pai; Adão-Eva comem o que lhes era proibido, Jesus, jejuando 40 dias, mostra que o verdadeiro alimento é fazer a vontade de Deus, pois o caminho de volta para o paraíso passa por confiar novamente no Pai.
As tentações não são apenas “provas morais”, mas verdadeiros ataques à identidade e à missão de Jesus: “Se és Filho de Deus”. Portanto, não são episódios isolados, mas uma revelação dramática do tipo de Messias que Ele escolhe ser. Cada proposta do tentador é uma tentativa de desviar Jesus da sua identidade filial e da missão recebida do Pai. 
Manda que estas pedras se transformem em pães”. A fome de Jesus é real (“Teve fome”), mas a tentação é simbólica: usar a sua condição de Filho de Deus (Onipotente) em benefício próprio, não para cumprir a missão de salvar os outros. O tentador parte de uma necessidade real (a fome) para propor uma solução que parece razoável. Mas o núcleo da tentação é usar o poder divino para si mesmo, e não para realizar a vontade do Pai. Jesus sabe que sua missão não é facilitar a própria vida, e sim transformar corações de pedra em corações de carne, e não pedras em pão. Ele recusa o atalho do poder e reafirma a dependência radical do Pai. Ele não veio para ser um milagreiro a serviço de si, mas o Servo obediente que vive da Palavra do Pai. Aqui se revela o contraste entre: o Messias do poder, que instrumentaliza Deus e o Messias da obediência, que confia radicalmente no Pai. No calvário confirma-se absolutamente que Jesus venceu essa tentação: “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar” (Mt 27,42).
Lança-te daqui para baixo”, nesta segunda tentação vemos a proposta diabólica do espetáculo religioso como caminho rápido para conquistar seguidores; um milagre chamativo, um gesto teatral, algo que impressione fantasticamente e aprisione multidões. A proposta de atirar-se do pináculo do Templo é uma sedução espiritual: é a tentação de transformar a relação com o Pai em espetáculo, de reduzir a fé a um mecanismo de controle, seria manipular Deus, exigindo Dele uma intervenção para servir de prova: “Deus dará ordens aos anjos... eles te levarão”. Mas Jesus sabe que Deus não é objeto de manipulação religiosa: “Não tentarás ao Senhor teu Deus!”. Jesus rejeita a lógica do “atalho espiritual” (glória sem cruz, reconhecimento sem entrega, fé sem confiança). O caminho do Reino não é o da autopromoção, mas o da humildade. A verdadeira filiação não exige sinais extraordinários, ela se manifesta na confiança silenciosa. Jesus não veio para conquistar públicos para aplaudi-lo, mas discípulos capazes de renunciar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo; sabe-se que fé construída sobre espetáculo não gera conversão verdadeira. Mais uma vez, a prova definitiva que Jesus venceu essa tentação encontramos no calvário quando aqueles que o insultavam diziam: “Rei de Israel que é, que desça agora da cruz e creremos nele! Confiou em Deus, pois que Ele o livre” (Mt 27,44-43). Assim como pular do pináculo seria um grande espetáculo, descer da cruz serviria de prova extraordinária para confirmar que Jesus era o Messias. 
Eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. Sem dúvida chegamos ao ponto mais alto dessas tentativas diabólicas de querer impedir que Jesus realize a sua missão como Messias, servo obediente e sofredor. Com esta tentação retornamos ao início de tudo no Éden, pois o diabo (Satã, a antiga serpente) não apenas tenta desviar do caminho da missão, mas tem a astúcia de querer redefinir o alvo. No Éden, a serpente promete: “sereis como deuses”. No deserto, promete: “tudo isto te darei”. Em ambos os casos, a estratégia é a mesma: deslocar Deus do centro, oferecer autonomia absoluta, apresentar o mal como caminho mais rápido para um bem aparente. A tentação não é apenas moral; é ontológica, é extrema ousadia porque toca o núcleo da missão de Cristo: Jesus é o Filho que vive em obediência ao Pai. O tentador quer inverter essa relação, propondo-se como “pai alternativo”. Essa perversão máxima não é apenas impedir o caminho, mas substituir o destino. 
Essa última tentação é o clímax: ela não distorce apenas o poder de Jesus (como as duas primeiras), mas quer transformar o verdadeiro Filho de Deus, pela adoração, em filho do diabo. Ela oferece um “deus alternativo”, mais conveniente, mais rápido, mais útil; propõe um caminho sem cruz, sem obediência, sem entrega; por conseguinte, sugere que o ser humano pode ser “filho” de outra fonte, de outro senhor.
Jesus, por sua vez, rompe o diálogo com o diabo: “Vai-te embora, Satanás”; Ele não discute, não negocia, não argumenta. Mais uma vez reafirma a verdade de Si como Filho de Deus e de sua missão messiânica: “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a Ele prestarás culto”. O tentador tenta impedir o “êxodo” de Jesus — o caminho que conduz a humanidade para fora do deserto do pecado. Esse caminho não admite atalhos, Jesus sabe que o deserto é lugar de decisão, a cruz é a porta estreita e o Calvário é o lugar onde o amor se revela plenamente e vence todas as tentações. A fidelidade de Jesus no deserto antecipa sua fidelidade na cruz. O deserto é o “ensaio” da Páscoa. Que a nossa Quaresma nos favoreça essa experiência de travessia do deserto, vencendo as tentações da infidelidade e desobediência, nos fortalecendo no seguimento de Jesus, o verdadeiro Filho de Deus, o nosso Salvador.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana