Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A Festa do Batismo de Jesus, que encerra o ciclo do Natal, é também ponto de partida, pois, no Batismo, Jesus se manifesta publicamente e se inaugura a sua missão. A liturgia, ao colocar essa festa na transição para o Tempo Comum, sinaliza que agora é hora de acompanhar o Cristo adulto, que ensina, cura, chama, confronta e anuncia a chegada do Reino dos Céus. O Tempo Comum aprofunda a compreensão dos mistérios celebrados no Advento-Natal e na Páscoa; evita que a liturgia vire espetáculo, reduzida a momentos emocionantes isolados, pois integra a fé ao cotidiano, mostrando que Deus age também no simples, no cotidiano, no processo. É o espaço onde o discípulo aprende a viver com Jesus, não apenas a celebrar seus grandes mistérios; é o tempo da maturidade espiritual, da escuta paciente, da conversão permanente.
“João protestou, dizendo: ‘Preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”: São Mateus é o único evangelista que registra esse breve diálogo que, por sua vez, se torna uma chave de leitura importante do evangelho. Introduzido por uma tensão entre o precursor e o Messias, o Batismo descortina os grandes temas tratados ao longo do evangelho. Jesus é o filho amado do Pai que cumpre toda a justiça. Justiça que supera a justiça dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20); para além do cumprimento de leis, a justiça de Jesus é a do Reino de Deus, ou seja, fazer a vontade do Pai. A resistência inicial de João Batista cria uma tensão literária que prepara o leitor para a revelação: João representa o limite da antiga ordem; Jesus inaugura a nova justiça do Reino. Essa tensão não é puro conflito, mas transição necessária. João reconhece que Jesus é mais do que ele; Mateus quer que o leitor reconheça o mesmo.
João Batista tenta impedir (grego: diekólyen), indicando que reconhece a superioridade e a inocência de Jesus. Contudo, a resposta de Jesus: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça” (expressão tipicamente mateana que significa realizar plenamente a vontade de Deus): Jesus não se batiza por necessidade pessoal (perdão e conversão), mas para manifestar a sua missão. “Cumprir toda a justiça” podemos dizer que é o coração do Evangelho. Em São Mateus, “justiça” não é mero cumprimento legalista, mas é fidelidade radical à vontade do Pai, diferentemente da justiça dos fariseus, insuficiente porque se fixa na letra, enquanto a justiça de Jesus é perfeita porque nasce da obediência amorosa. Quando Jesus pede o batismo “para cumprir toda a justiça”, Ele se solidariza com a humanidade pecadora e, ao mesmo tempo, manifesta sua total adesão ao projeto do Pai.
A narração da cena do Batismo evidencia o seu caráter de manifestação messiânica destacando três elementos: “O céu se abriu”: Deus intervém na história, e assim se realiza o pedido da profecia: “Oxalá que fendesses o céu e descesses...” (Is 63,19: Rorate caeli, cantado no advento). “O Espírito de Deus, descendo como pomba sobre Ele”, indica a unção messiânica; “Veio uma voz”, é a voz do Pai, a identificação pública de Jesus como “Filho amado”. Jesus não é apenas um enviado de Deus, um ungido especial, mas Ele é o Filho amado do Pai (expressão que ecoa o Salmo 2 e Isaías 42 — rei messiânico e servo sofredor ao mesmo tempo). São Mateus une essas duas figuras para mostrar que o Messias esperado é, na verdade, maior do que qualquer categoria isolada poderia conter. O Batismo de Jesus é mais do que um rito: é uma epifania messiânica, uma investidura pública, uma declaração de missão. Ali já se anuncia tudo o que virá (o cumprimento das Escrituras, a superação das expectativas messiânicas, a revelação da filiação divina, a justiça do Reino e a obediência perfeita ao Pai).
Em suma, os três elementos: a abertura dos céus, a descida do Espírito e a voz do Pai formam uma cena trinitária que sela a missão de Jesus. A voz proclama: a identidade, “Filho amado”; a relação, “amado pelo Pai”; e a missão, “aquele em quem o Pai encontra plena alegria”. É como se o Pai dissesse: “Este é o meu projeto para o mundo”.
Jesus entrando na fila dos pecadores, mesmo não sendo pecador, mas porque assume a condição humana até o fim, inaugura uma nova justiça, não baseada apenas na observância, mas na comunhão com Deus; por conseguinte o nosso batismo, fundamentado no batismo de Jesus, deriva não do rito de João, mas da missão de Jesus e do dom do Espírito.
Assim como Jesus, também nós somos chamados a “cumprir toda a justiça”. Não a justiça fria da lei, mas a justiça do Reino que perdoa, acolhe, se compadece, busca a vontade do Pai acima de tudo. Ser batizado é viver como Jesus viveu. É fazer da vida um “sim” constante ao Pai. É deixar que o Espírito nos conduza. Se no Jordão Jesus é revelado como Filho amado, no nosso batismo nós somos feitos filhos no Filho. O que o Pai diz a Jesus, diz também a cada um de nós: “Tu és meu filho amado. Em ti eu encontro alegria”. Quantas vezes esquecemos isso. Quantas vezes deixamos que outras vozes — de culpa, de medo, de desânimo, de incredulidade — abafem essa verdade nos deixando órfãos abandonados. Mas hoje o Evangelho nos recorda a nossa identidade mais profunda: somos filhos amados, pois Ele imergiu no mais profundo da nossa realidade de pecadores para nos fazer emergir para uma vida nova.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
A Festa do Batismo de Jesus, que encerra o ciclo do Natal, é também ponto de partida, pois, no Batismo, Jesus se manifesta publicamente e se inaugura a sua missão. A liturgia, ao colocar essa festa na transição para o Tempo Comum, sinaliza que agora é hora de acompanhar o Cristo adulto, que ensina, cura, chama, confronta e anuncia a chegada do Reino dos Céus. O Tempo Comum aprofunda a compreensão dos mistérios celebrados no Advento-Natal e na Páscoa; evita que a liturgia vire espetáculo, reduzida a momentos emocionantes isolados, pois integra a fé ao cotidiano, mostrando que Deus age também no simples, no cotidiano, no processo. É o espaço onde o discípulo aprende a viver com Jesus, não apenas a celebrar seus grandes mistérios; é o tempo da maturidade espiritual, da escuta paciente, da conversão permanente.
“João protestou, dizendo: ‘Preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”: São Mateus é o único evangelista que registra esse breve diálogo que, por sua vez, se torna uma chave de leitura importante do evangelho. Introduzido por uma tensão entre o precursor e o Messias, o Batismo descortina os grandes temas tratados ao longo do evangelho. Jesus é o filho amado do Pai que cumpre toda a justiça. Justiça que supera a justiça dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20); para além do cumprimento de leis, a justiça de Jesus é a do Reino de Deus, ou seja, fazer a vontade do Pai. A resistência inicial de João Batista cria uma tensão literária que prepara o leitor para a revelação: João representa o limite da antiga ordem; Jesus inaugura a nova justiça do Reino. Essa tensão não é puro conflito, mas transição necessária. João reconhece que Jesus é mais do que ele; Mateus quer que o leitor reconheça o mesmo.
João Batista tenta impedir (grego: diekólyen), indicando que reconhece a superioridade e a inocência de Jesus. Contudo, a resposta de Jesus: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça” (expressão tipicamente mateana que significa realizar plenamente a vontade de Deus): Jesus não se batiza por necessidade pessoal (perdão e conversão), mas para manifestar a sua missão. “Cumprir toda a justiça” podemos dizer que é o coração do Evangelho. Em São Mateus, “justiça” não é mero cumprimento legalista, mas é fidelidade radical à vontade do Pai, diferentemente da justiça dos fariseus, insuficiente porque se fixa na letra, enquanto a justiça de Jesus é perfeita porque nasce da obediência amorosa. Quando Jesus pede o batismo “para cumprir toda a justiça”, Ele se solidariza com a humanidade pecadora e, ao mesmo tempo, manifesta sua total adesão ao projeto do Pai.
A narração da cena do Batismo evidencia o seu caráter de manifestação messiânica destacando três elementos: “O céu se abriu”: Deus intervém na história, e assim se realiza o pedido da profecia: “Oxalá que fendesses o céu e descesses...” (Is 63,19: Rorate caeli, cantado no advento). “O Espírito de Deus, descendo como pomba sobre Ele”, indica a unção messiânica; “Veio uma voz”, é a voz do Pai, a identificação pública de Jesus como “Filho amado”. Jesus não é apenas um enviado de Deus, um ungido especial, mas Ele é o Filho amado do Pai (expressão que ecoa o Salmo 2 e Isaías 42 — rei messiânico e servo sofredor ao mesmo tempo). São Mateus une essas duas figuras para mostrar que o Messias esperado é, na verdade, maior do que qualquer categoria isolada poderia conter. O Batismo de Jesus é mais do que um rito: é uma epifania messiânica, uma investidura pública, uma declaração de missão. Ali já se anuncia tudo o que virá (o cumprimento das Escrituras, a superação das expectativas messiânicas, a revelação da filiação divina, a justiça do Reino e a obediência perfeita ao Pai).
Em suma, os três elementos: a abertura dos céus, a descida do Espírito e a voz do Pai formam uma cena trinitária que sela a missão de Jesus. A voz proclama: a identidade, “Filho amado”; a relação, “amado pelo Pai”; e a missão, “aquele em quem o Pai encontra plena alegria”. É como se o Pai dissesse: “Este é o meu projeto para o mundo”.
Jesus entrando na fila dos pecadores, mesmo não sendo pecador, mas porque assume a condição humana até o fim, inaugura uma nova justiça, não baseada apenas na observância, mas na comunhão com Deus; por conseguinte o nosso batismo, fundamentado no batismo de Jesus, deriva não do rito de João, mas da missão de Jesus e do dom do Espírito.
Assim como Jesus, também nós somos chamados a “cumprir toda a justiça”. Não a justiça fria da lei, mas a justiça do Reino que perdoa, acolhe, se compadece, busca a vontade do Pai acima de tudo. Ser batizado é viver como Jesus viveu. É fazer da vida um “sim” constante ao Pai. É deixar que o Espírito nos conduza. Se no Jordão Jesus é revelado como Filho amado, no nosso batismo nós somos feitos filhos no Filho. O que o Pai diz a Jesus, diz também a cada um de nós: “Tu és meu filho amado. Em ti eu encontro alegria”. Quantas vezes esquecemos isso. Quantas vezes deixamos que outras vozes — de culpa, de medo, de desânimo, de incredulidade — abafem essa verdade nos deixando órfãos abandonados. Mas hoje o Evangelho nos recorda a nossa identidade mais profunda: somos filhos amados, pois Ele imergiu no mais profundo da nossa realidade de pecadores para nos fazer emergir para uma vida nova.

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
