Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Entramos agora na semana mais intensa do ano litúrgico. Não como espectadores, mas como participantes. A liturgia não nos conta uma história antiga, ela nos introduz no Mistério vivo. A celebração de hoje é uma verdadeira síntese introdutória daquilo que será vivenciado durante toda a Semana Santa cujo ápice é a proclamação da Paixão-Morte e Ressurreição do Senhor. A entrada de Jesus em Jerusalém é a manifestação da glória que já anuncia a cruz. Nesse gesto profético de Jesus se revela que ele é Rei, mas diversamente de todos os reis da terra, pois é um Rei que desmonta todas as expectativas humanas de poder: não vem montado num cavalo de guerra, mas num jumentinho; não impõe domínio, mas oferece mansidão; não conquista pela força, mas pela entrega. Portanto, essa entrada é uma espécie de “prólogo” da Páscoa, pois já contém, em forma de semente, tanto a humilhação quanto a vitória.A cena é vibrante: ramos, mantos pelo caminho, aclamações. Mas, apesar de toda a euforia, a pergunta que ecoa é quase desconcertante: “Quem é este homem?”.A resposta popular: “o profeta Jesus, de Nazaré” é verdadeira, mas incompleta. Eles veem o profeta, o taumaturgo, o mestre. Mas ainda não reconhecem o Messias que salva pelo caminho da entrega. Antes de passar pela cruz, é impossível chegar a essa afirmação e crer nela.Além de fazermos uma piedosa memória da entrada de Jesus em Jerusalém, somos chamados a contemplar a sua Paixão-Morte, pois sem ela, a Ressurreição não passaria de uma abstração ou ilusão. Não existe Páscoa verdadeira sem participação na Paixão. Celebrar a Ressurreição sem ter atravessado o drama da cruz seria como celebrar uma vitória desprezando a batalha, por isso a liturgia nos educa justamente para o contrário: não fugirmos da dor, não pularmos etapas, não transformamos a fé em autoajuda, mas entrarmos com Cristo no mistério da entrega total.“Pilatos o interrogou: ‘Tu és o rei dos Judeus?”: estamos diante de um pagão que não sabe o que pergunta. Pois não tem categorias bíblicas para entender profundamente o alcance de sua pergunta; falta-lhe sobretudo o conhecimento da tradição profética dessa expressão “Rei dos Judeus” como Messias, o Ungido. “Jesus responde: É como dizes”. Se Jesus dissesse “sim”, Pilatos pensaria em um líder político rebelde (como Barrabás); se dissesse “não”, negaria sua identidade messiânica (negaria ser Filho de Deus o que propunha Satanás nas tentações). Por isso Jesus devolve a pergunta: Pilatos precisa tomar consciência do que está dizendo. A resposta de Jesus não é evasiva, é pedagógica. E o evangelista demonstra que a ignorância de Pilatos não o isenta da responsabilidade. Ele precisa decidir, mesmo sem compreender plenamente. “Jesus não respondeu uma só palavra”: impressiona que Jesus não responde com discursos grandiosos. Depois de ter entrado montado num jumentinho, símbolo de humildade, manteve-se coerentemente avançando para a Paixão com uma serenidade que contrasta com o barulho da multidão. É no silêncio do julgamento, na mansidão diante das acusações, na entrega da cruz, que Ele revela plenamente ser o Servo sofredor, o Filho obediente, o Messias que reina pelo amor, Aquele que vence não esmagando, mas oferecendo-se. A identidade de Jesus não é proclamada pelos gritos, mas manifestada pela coerência entre o que Ele anuncia e o que Ele vive. E só quem está disposto a segui-Lo poderá conhecer verdadeiramente quem Ele é. Não basta fazer perguntas, mas é preciso aproximar-se de Jesus, do seu sofrimento, da sua cruz: “Simão de Cirene foi obrigado a carregar a cruz de Jesus”. Simão de Cirene é, na verdade, o discípulo inesperado: mesmo tendo sido forçado a carregar a cruz, São Mateus o coloca ali para mostrar algo maior, isto é, representa todo discípulo que deve “tomar sua cruz e seguir Jesus” (Mt 16,24). Não é apenas ajuda física, mas participação no caminho do Mestre. Simão é convidado a responder com a vida quem é Jesus para ele. Nesta cena, contemplamos a verdade: ninguém carrega a cruz por acaso, é sempre um chamado. Nos nossos dias há uma tendência muito forte a querer evitar a cruz ou mesmo transformá-la apenas em adereço decorativo. Como se a dor de Cristo fosse um detalhe incômodo, e não o coração do mistério da salvação. Mas toda a narração da Paixão mostra o essencial: Jesus não fugiu da cruz, não negociou com o sofrimento, não buscou atalhos. Ele assumiu a dor humana até o fim, e é justamente isso que dá sentido à Ressurreição.“As pessoas que passavam o insultavam... Os soldados. Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, mestres da Lei... Os ladrões...”: Cada grupo atinge um aspecto da identidade de Jesus, e todos erram. Nenhum deles compreende quem Ele é. Os transeuntes zombam da divindade; os soldados zombam da realeza; os Sumos sacerdotes zombam da encarnação e os ladrões zombam da missão. Jesus não responde a nenhum deles, não se defende, não se explica, não argumenta. Mas se dirige somente ao Pai: “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?”. Uma palavra dura, que sempre provoca impacto, e não é por acaso, uma vez que toca no ponto mais profundo da experiência humana: a sensação de abandono diante da dor, da injustiça e da incompreensão.Contudo, se recuperarmos o contexto original dessas palavras, isto é, o início do Salmo 21(22), veremos que Jesus não está proclamando desespero, mas está rezando, não está dizendo: “Fui abandonado”. Esse salmo, que todo judeu piedoso conhecia de memória, apresenta um arco dramático: começa na escuridão, mas termina na luz, pois descreve a sensação de abandono, a violência dos inimigos, a fragilidade do justo, porém, culmina numa certeza inabalável: “Ele não desprezou o pobre, nem lhe ocultou a face, mas ouviu seu clamor” (Sl 21,25).“Deu um grande grito e entregou o espírito”: o ápice da confiança de alguém é entregar-se a outrem. O silêncio que perdurou desde o início da narração agora é rompido. É esse silêncio que preparava a revelação de sua verdadeira identidade: o Filho que confia, mesmo quando tudo parece ruir.“O oficial e os soldados ao notarem o terremoto... disseram: ‘Ele era mesmo Filho de Deus’”: a reação cósmica (trevas, terremoto) contrasta com a cegueira humana. A criação reconhece o Criador. Os homens, não. E é justamente um pagão que ironicamente é o primeiro a professar a fé. É como se o Evangelho dissesse: Quem deveria ver, não vê; quem não deveria ver, enxerga.Reviver os passos da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus neste tempo solene é mergulhar no seu mistério, a fim de responder a pergunta fundamental: “Quem é esse homem?”. Caso contrário, não acreditaremos que ele é verdadeiramente o Filho de Deus; sem assumir a sua cruz, não participaremos de sua Ressurreição.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana
