Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor: Mc 15,1-39 - Ele não era um super-herói

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Hoje a Igreja faz memória da entrada de Jesus em Jerusalém não apenas para recordar um acontecimento histórico, mas para mostrar a razão fundamental da sua entrega que culminará na sua paixão, morte e ressurreição. Ao entrar em Jerusalém montado num jumentinho, Jesus declara quem ele é, cumprindo assim a profecia de Zacarias: “Exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta” (Zc 9,9). Na celebração de hoje dois aspectos da Páscoa se evidenciam: na entrada em Jerusalém do Rei Messias, humilde e justo, temos o anúncio simbólico da vitória do ressuscitado, e na proclamação da sua paixão e morte, o modo como Jesus realizou a libertação da humanidade que jazia sob a sombra do pecado e da morte. 
A narração da condenação, paixão e morte de Jesus segundo Marcos alcança o seu ápice no testemunho de fé do centurião pagão que reconhece: “Na verdade, este homem era Filho de Deus”. Jesus não é um herói, tipo semideus que se livra magicamente dos perigos e adversidades deflagrando poderes extraordinários para superar dificuldades e escapar dos inimigos. Mas é o Deus que se fez homem verdadeiramente e, portanto, enfrenta corajosamente as consequências da sua fidelidade ao projeto do Pai.  


Todo o evangelho de Marcos tem como objetivo fundamental responder a pergunta: “Quem é Jesus?”. Já no início do evangelho o próprio evangelista antecipa a resposta: “Jesus, o Cristo, o Filho de Deus” (Mc 1,1). Contudo, não basta dizer essas palavras, ainda que acertadas, mas é preciso fazer o seu caminho, deixar-se formar pelos seus ensinamentos, estar disposto à conversão, renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz. Doutro modo, a reposta será apenas uma afirmação teórica, insuficiente para perseverar e ser fiel até o fim, sobretudo quando for preciso dar a vida por Ele e pelo Reino, como Ele fez. 
Pilatos fez cinco perguntas que ajudam a discernir quem é Jesus. Por duas vezes se dirige a Jesus: “Tu és o rei dos Judeus?”, “Nada tens a responder?”. Para a primeira pergunta Jesus responde: “Tu o dizes”. Esta resposta pode ser compreendia como um esclarecimento, ou seja, “quem está dizendo aqui quem é rei é você (Pilatos) não eu (Jesus). Quando Pilatos pergunta a Jesus se ele é rei, naturalmente tem o seu próprio conceito de rei, isto é, as implicações políticas de tal afirmação, o que representaria uma afronta ao Império Romano do qual era funcionário e devia ser o defensor. A resposta de Jesus ressalta a incapacidade de Pilatos compreender qual o significado do seu Reinado. Pois o governador não era seu seguidor e, por isso, não tinha escutado as suas parábolas sobre o Reino, não presenciara as atitudes de Jesus que demostravam a proximidade do Reino de Deus, não aprendeu a oração ensinada por Jesus para pedir que o Reino viesse. Por conseguinte, só há uma possibilidade de compreender o que significa o reino de Jesus, isto é, indo ao calvário, seguindo-o, pois “ali estava uma inscrição com o motivo da sua condenação: ‘O rei dos judeus’”. Só na cruz esta afirmação ganha sentido inequívoco.


Diante da segunda pergunta de Pilatos, “Jesus não respondeu mais nada”. O silêncio de Jesus não é covardia nem resignação, mas confirma que a verdade da sua missão e do seu reinado não se prestam a discussões teóricas ou a argumentações racionais. Mais uma vez fica claro que sem fazer o caminho da cruz nenhuma resposta será suficiente. Essas duas perguntas de Pilatos encontram resposta na atitude de “Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, que voltava do campo, foi obrigado a carregar a cruz de Jesus”. Apesar de num primeiro momento Simão ser obrigado a carregar a cruz, esse encontro forçado o fez reconhecer quem era verdadeiramente aquele condenado. Ao identificar Simão como o pai de Alexandre e Rufo (cristãos que se destacam na comunidade primitiva, Rufo citado por São Paulo, cf. Rm 16,13), o evangelista deixa subentendido que é um judeu convertido, provavelmente de uma colônia da África (Cirene). Portanto, Simão torna-se, de fato, seguidor de Jesus, pois não tem vergonha de testemunhar o mestre, a ponto de conduzir a sua família à adesão de fé. Isto seria impossível se não tivesse reconhecido Jesus como o Filho de Deus. Ao carregar a cruz de Jesus, Simão é banhado pelo seu sangue redentor e, por isso, tem suas vestes alvejadas no sangue do Cordeiro, como afirmará o Apocalipse de São João, “e segue-o aonde for” (Ap 7,14; 14,4).


Pilatos se dirige à multidão com três perguntas: “Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?”, “Que quereis que eu faça com o rei dos judeus?”, “Mas que mal ele fez?”. A resposta é compulsiva: “Crucifica-o”. Pedindo a pena capital para Jesus, a multidão manifesta a sua ignorância em relação à sua missão e à sua pessoa. E decidindo pela soltura de Barrabás, opta pelo projeto libertário de um bandido que ilude o povo passando-se como defensor de seus direitos e paladino da justiça, mas na verdade assume estratégias de violência e de assassinato. 
O Domingo da Paixão é a grande proclamação de que o Cristo ressuscitado não é um mito inventado pelos cristãos chocados e inconformados com a sua morte. Vivenciar o Domingo da Paixão é aproximar-se da verdade de Jesus, o Filho de Deus, que não hesitou passar pelo sofrimento e a morte, a fim de que a sua ressurreição fosse consequência de uma vida totalmente entregue, e por isso tinha força suficiente para romper as amarras da morte, pois ele não quis ser considerado um super-herói, mas o Filho amado do Pai que não o abandonou.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana