Domingo da Páscoa: Jo 20,1-9 - O amor esvazia o túmulo, a fé preenche o coração

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A celebração solene da Páscoa do Senhor durante esses cinquenta dias que ora iniciamos possibilita renovar a nossa experiência pessoal e comunitária do encontro com o Senhor Ressuscitado, razão da nossa esperança, garantia de nossa vida prenhe de eternidade. Assim como Maria Madalena e, logo em seguida, Simão Pedro e o outro discípulo (que Jesus amava), indo ao sepulcro, fazem a experiência de que o Senhor ressuscitou, a comunidade chamada a testemunhar esta verdade fundamental de sua fé deve renovar constantemente esta sua convicção. A narração da ida ao sepulcro, mais do que descrever uma busca frustrada pelo cadáver de Jesus de Nazaré: “Tiraram o meu Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram”, ajuda-nos a compreender o que de fato deve ser a experiência permanente da comunidade que professa a fé na ressurreição: “então, entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: e viu e creu”. 
A perícope deste primeiro Domingo da Páscoa nos apresenta os elementos fundamentais da experiência e do significado da ressurreição de Jesus para a sua comunidade, as suas testemunhas:
No primeiro dia da semana” (literalmente no grego: no primeiro dos sábados): para a comunidade cristã este dia será chamado domingo (dia do Senhor). Portanto, a ressurreição é o irromper de um novo dia. Em termos bíblicos, o paralelo com a primeira criação é evidente. Assim como no princípio Deus criou tudo, com a ressurreição do seu Filho, tudo é recriado. Inicia-se um novo tempo.

 
Maria, a Madalena, vai ao sepulcro ainda escuro”: é muito significativo que João sublinhe apenas uma das mulheres que vão ao sepulcro; os sinóticos falam sempre de algumas mulheres. No texto grego, percebe-se o destaque dado a esta mulher (literalmente: Maria, a Madalena: hê magdalene). Mais do que uma simples identificação da sua proveniência (patronímico: do povoado de Magdala, Mt 15,39) é bom considerar o significado desta palavra. Magdalena, do hebraico migdal que significa torre (Gn 11,4), púlpito (Ne 8,4). Dois símbolos que se aplicam muito bem a esta mulher. Como uma torre de vigia, ela se assemelha ao guarda que vai para vigiar o sepulcro, e na expectativa da chegada da aurora, anseia por este momento (“Assim como o guarda espera pela aurora, espere Israel pelo Senhor”, Sl 121,7). Mas aquele que está na torre tem a responsabilidade de comunicar à cidade o que está acontecendo, sobretudo o que representa perigo para os seus habitantes. Neste sentido, Madalena assume o papel de púlpito: “Corre, então e vai a Simão Pedro e ao outro discípulo... e lhes diz”. Contudo, essa sua missão será completa quando, em seguida, encontrando-se com o próprio Senhor, terá agora outra coisa a comunicar: “Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: ‘Vi o Senhor’, e as coisas que Ele lhe disse” (Jo 20,18). 
Impressiona quantas vezes o evangelista menciona o sepulcro (7 vezes nessa perícope). Mais uma vez a força do significado da palavra nos abre a mente. Sepulcro em grego tem a mesma raiz de memorial (mnemeion: monumento) e, portanto, diz respeito ao “fazer memória” (Lc 22,19; 1Cor 11,23-25). A comunidade cristã, ao longo dos séculos, nunca perdeu a lucidez de que a celebração do Mistério Pascal não pode prescindir da proclamação da morte do Senhor, pois isto enfraqueceria o anúncio da sua ressurreição. Portanto, a importância didático-mistagógica da celebração da Sexta-feira Santa é imprescindível para penetrar na radiosa celebração do Tempo Pascal. Madalena vai ao sepulcro quando ainda era treva (grego: skotia), para fazer a experiência do surgimento radioso do Sol.   
Não é coerente para a fé cristã fazer a proclamação de uma vitória cuja luta travada já foi esquecida. Pode-se cair num vazio muito perigoso. Participa-se, então, artificialmente de uma alegria, da qual não se sabe a sua origem. É a alienação do prazer que não sabe o seu porquê. 
Tanto Simão Pedro como o outro discípulo entraram no sepulcro, caso contrário, não teriam visto: “os panos de linho deitados e o sudário, que cobrira a cabeça de Jesus... enrolado em lugar à parte”. A riqueza de detalhes dada pelo evangelista nos conduz mais uma vez a um outro nível, não apenas descritivo, mas reflexivo. Estas vestes mortuárias (Mt 27,59) estão deitadas (no chão), portanto simbolizam a morte derrotada, e se não envolvem mais um cadáver, é porque não há mais um morto necessitado delas. O sudário colocado do lado, também indica que perdeu a sua função. João, em continuidade com toda a tradição bíblica vétero-testamentária: “Eu te exalto, Javé, porque me livraste... tiraste minha vida do Xeol... Transformaste o meu luto em dança, tiraste o pano grosseiro e me cingiste de alegria...” (Sl 30,4.12), utilizando este simbolismo de vestes que foram abandonadas, recorda que agora as novas vestes indicam uma nova realidade. Rica também é a alusão de Isaías: “Transbordo de alegria em Javé... porque me vestiu com vestes de salvação, cobriu-me com um manto de justiça...” (61,10). 


Havia uma antiga tradição na Igreja de os batizados na Vigília Pascal, revestidos da veste branca, permanecer durante toda a Oitava da Páscoa com suas novas vestes justamente para indicar a participação na vida do Cristo morto e ressuscitado. 
Este tempo da Páscoa nos ajuda a ver esses sinais. Depois de um tempo de jejum (também visual), agora somos enriquecidos com a primavera da Páscoa, na expressão de tantos símbolos que nos ajudam a perceber o invisível: O Cristo vencedor da morte, vivo e ressuscitado. Simão Pedro entra no sepulcro, mas é preciso seguir o discípulo amado que além de entrar, crê. Pois só o amor é capaz de perceber que a morte não é a palavra definitiva, e enxergar que o sepulcro está vazio. É com esta convicção que devemos voltar para casa assim como fizeram os discípulos: “Os discípulos, então voltaram para casa”.




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana