Comemoração dos Fiéis Defuntos: Ap 21,4 - Deus enxugará toda lágrima

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A celebração do Mistério Pascal nos faz mergulhar na dimensão profunda da nossa realidade, com todos os seus aspectos e dimensões, mas também nos proporciona a participação na vida de Deus, Senhor da morte e da vida. Na Eucaristia não falta nada, não há espaços vazios, pois todo o mistério de Cristo ilumina a totalidade do mistério da vida humana. Portanto, a realidade da morte e da vida está sempre presente em cada Eucaristia. Nela, a Igreja renova a sua consciência e fé de ser Corpo de Cristo e, portanto, do qual nada a poderá separar, nem vida e nem mesmo a morte (Rm 8,38). Respeitando a sensibilidade e os limites da própria experiência humana, e seguindo uma longa Tradição, a Igreja neste dia faz uma memória especial dos seus membros que já atravessaram o limiar da última experiência da existência terrena. A Eucaristia deste dia não é apenas ocasião para reacender em nós a certeza de que um dia morreremos ou mesmo para reaviar a tristeza no nosso coração por causa da morte dos nossos entes queridos. Para isto não se faria necessário a Eucaristia; tantos neste dia farão essa experiência sem necessariamente participarem de uma missa. 


A contemplação da morte e ressurreição de Cristo nos coloca noutra perspectiva. Não fazemos apenas a constatação que há a morte, e que dela ninguém escapará, mas somos desafiados a crer na vida que não morre. Pois esta é a certeza fundamental para se admitir a verdadeira morte.  Talvez nos cause estranheza a comemoração deste dia, já que se ressalta tanto a morte; será que isso não seria contraditório para aqueles que creem que a morte já foi derrotada pelo Cristo vitorioso? A tendência a minimizar a morte ou os malabarismos cosméticos para fazer de conta que a sua dor não existe representam hoje uma das mais sutis expressões da alienação humana. Enquanto o ser humano não se abrir para o mistério da morte como momento decisivo para reafirmar as convicções da vida, ele viverá sempre fugindo dela, alimentando a ilusão infantil de que poderá driblá-la ou, sentindo-se onipotente, prolongá-la para sempre aqui na terra, isto se pareceria com a insensatez de uma mãe que não quer permitir que o seu filho saia do seu ventre, pensando que fora daquele pequeno mundo não haveria outra felicidade.
Diante dessa alienação, só resta uma angústia insuportável ou um desespero enlouquecedor. A sociedade alienada, que é incapaz de olhar para o horizonte mais amplo que toca o céu, tenta sedar a angústia de um ser humano enfeitiçado pelo pouco que saboreia aqui na terra. Por isso, transforma os cemitérios cujas cruzes lembravam que a morte foi destruída pela morte Daquele que ressuscitou, em jardins botânicos ou corredores de um bosque florido a fim de criar um clima “agradável” aos seus visitantes, que não podem ser impactados com sinais que lembrem que ali estão depositados os corpos dos seus entes queridos, que aguardam o grande dia da ressurreição também para eles, e não apenas esperam brotar como belas flores, que de manhã crescem vicejantes, mas que à tarde logo secam (Sl 89). 


O medo de encarar aquilo que São Francisco declarou irmã, leva o ser humano a ser inimigo do seu próprio destino, e não podendo negá-lo, apela de modo deliberado e covarde para a perda da sua consciência embriagando-se de calmantes e ansiolíticos. Preferem evitar as lágrimas e a dor do momento, tão naturais ao ser humano, para passar o resto da vida tentando preencher um vazio que fora cavado na alma por causa de uma ausência efetiva e afetiva que artifícios da sociedade alienada lhe ofereceram para impedi-lo de ter dor e se permitir sofrer, por ocasião da morte de um dos seus. A fé cristã nos oferece uma outra possibilidade de encarar a morte: a certeza de que a vida não morre; crer na eternidade é um sinal de que se vive bem, que se descobriu o real sentido que a vida tem: ser semente de eternidade.    
É possível imaginar a sede sem a água, a fome sem o alimento, o calor sem o frio, o frio sem o aquecimento? Se fosse assim, a vida não existiria ou seria apenas um terrível momento de angústia, de busca sem sentido. Como seria torturante necessitar, buscar, sem encontrar! “Como a corça suspira por águas correntes, minha vida suspira por ti, ó meu Deus” (Sl 42,2). 
A própria experiência da humanidade, ao longo de sua história, tem demonstrado que, além da sede e da fome e de tantas outras necessidades fundamentais, no coração humano está inscrito um irresistível desejo de vida plena. E se é verdade que só temos sede porque existe água, do mesmo modo, só desejamos que a vida não morra porque existe a eternidade. A morte sem a fé na vida tornar-se-ia a grande ironia da existência humana. Assim como uma cova não pode reter a semente nela depositada, pois no momento certo, irromperá com força e vitalidade, tornando-se planta madura e frutífera, assim também um túmulo não é capaz de aprisionar alguém cuja vida foi marcada por tantas lutas, tantos esforços, tanta beleza e encanto. 
Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só, mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Crer na ressurreição não é uma atitude alienante para suavizar a dor de ingênuos, mas a atitude mais coerente de quem crê na vida e, portanto, reconhece os seus anseios mais profundos e não os nega, e não admite o absurdo de que a morte seja a última palavra da sua existência; reconhece a sede, mas não se recusa a beber na fonte.
Quem tiver sede, venha a mim e beba, aquele que crê em mim... do seu seio jorrarão rios de água viva” (Jo 7,37). A fé na ressurreição é o caminho que conduz o sedento à fonte. A sede e a fome não podemos negar, mas comer e beber podemos optar. A fé não nos faz crer na morte, mas na vida que não morre!




Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana